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Para onde vai a CPI das Fake News
Hans River do Rio Nascimento durante sessão da CPI das Fake News: depoimento acirrou ainda mais o clima de guerra dentro da comissão.| Foto: Jane de Araújo/Agência Senado

Eu sempre me considerei um conservador e continuo me considerando. Nesse sentido, nunca gostei das ideias revolucionárias, que formam a base das ideologias de esquerda. Da mesma forma, nunca tive simpatia por ideias reacionárias, que formam a base de algumas vertentes da direita. Poderia dizer que sou aristotélico no tocante à ideologia política: a virtude está entre dois vícios, e os vícios são personificados pelo revolucionário e pelo reacionário. Em outras palavras, meu entendimento político da realidade tem migrado do eixo esquerda-direita para o eixo revolução-reação, e cada vez mais me recolho ao conservadorismo, deixando os outros rótulos para trás.

O Brasil é governado hoje por um político representante da direita, não há dúvidas disso. Infelizmente, é da direita reacionária e retrógrada. O conservadorismo brasileiro nunca chegou ao poder e, provavelmente, jamais chegará. Nosso povo, como bem se viu e se vê, gosta mesmo é de extremos, de paternalismo, de Estado forte, de soluções mágicas, de pensar no curto prazo, de jeitinho, de levar vantagem, de ser “mandado”. E nenhuma dessas coisas tem a mais remota conexão com o conservadorismo.

Dito isso, e constatada a triste realidade, não poderia me livrar de opinar sobre algo que aconteceu na semana que passou; algo que, para mim, ultrapassou o ponto de não retorno. Depois dessa semana, posso dizer com confortável convicção que a direita reacionária brasileira conseguiu se provar moralmente inferior à esquerda, que há tempos vem descendo o abismo de abjeção e falta de princípios. Minha convicção vem de um ponto único: a esquerda revolucionária é, por natureza, anticristã, e por isso age em total sincronia com seus princípios quando promove a destruição dos pilares morais pelos quais nós, conservadores, tanto prezamos. A direita reacionária, ao contrário, se declara cristã e moralmente superior, e justamente por isso sua derrocada moral é tão mais terrível que a da esquerda. Se ainda restar dúvida do que é pior, basta nos lembrarmos do tratamento que Jesus Cristo deu a pecadores comuns e a fariseus, os pecadores religiosos.

Jamais pensei que os bolsonaristas pudessem ser tão baixos

Mas, enfim, qual foi o acontecimento terrível que me fez escrever este texto? Foi o conjunto de desdobramentos do depoimento de Hans River na CPMI das Fake News. Para quem não sabe, o referido depoente disse que Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha de S.Paulo, ofereceu-se sexualmente em troca de informações para uma matéria investigativa. Patrícia, assim que soube do depoimento, apressou-se em apresentar todas as trocas de mensagens de texto e áudio com Hans, desmentindo-o. O próprio presidente da CPMI, senador Angelo Coronel (PSD-BA), declarou que o depoente mentiu, deixando claro que considera a versão da jornalista verdadeira. Note-se que Hans nada apresentou para corroborar sua história, reforçando ainda mais a névoa de desconfiança em torno de seu depoimento.

Embora Hans pareça ser o mentiroso desse caso, não foi ele que cruzou os limites da razoabilidade. Hans não transita nas redes sociais empunhando a espada justiceira da direita true-templária-terrivelmente-cristã. Quem faz isso são os influenciadores mais fiéis de Bolsonaro, além do próprio presidente e seus filhos. E foram justamente esses, e mais uma miríade de apoiadores que fazem coro com eles, que não pensaram duas vezes antes de inundar as redes sociais com memes, vídeos e textos abjetos sobre a jornalista da Folha. Allan dos Santos, por exemplo, tuitou uma imagem de uma prostituta abordando um motorista, com o título “FODA DE SÃO PAULO”, e retuitou diversas ofensas veladas à jornalista, sempre na mesma linha da prostituição. O canal Hipócritas foi além e gravou vídeo em que um homem pede um furo a uma prostituta, confundindo-a com uma jornalista. O deputado Eduardo Bolsonaro disse que não duvidava que a jornalista tivesse se oferecido sexualmente em troca de informações. E a cereja do bolo foi Jair Bolsonaro que, poucos minutos antes de eu concluir este texto, falou em público (e em tom de deboche) sobre Patrícia Campos Mello: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”.

Preciso confessar que jamais pensei que essa turma fosse tão baixa. Acostumado à baixeza dos petistas que nos governaram por tanto tempo, e à de seus militantes – impossível esquecer de Marco Aurélio “Top Top” Garcia, de Lula e as mulheres de grelo duro, dos crucifixos enfiados nas vaginas, da defesa apaixonada do aborto etc. –, nunca concebi que o pessoal do outro lado pudesse se comportar exatamente da mesma maneira, e de quebra usar uma pele de cordeiro pendurada na “bio” do Twitter. “Conservador, cristão, pai e pela família”, “Deus acima de todos, justiça e honra”, “Direita de verdade, sem frescura, por Deus e por minha pátria” – essas descrições são apenas alguns exemplos do que se pode encontrar nos perfis de apoiadores do governo que despejaram todo tipo de ofensas à jornalista e a qualquer um que discorde de sua visão tacanha de mundo em que Bolsonaro reina na Terra e um deus que inventaram reina nos céus. O farisaísmo da direita reacionária brasileira é inédito, superior ao original, da época de Cristo. Quando confrontados com sua hipocrisia, refugiam-se na única passagem bíblica onde Jesus se mostra irado, aquela dos mercadores no Templo. Ignoram todo o restante da trajetória de mansidão, humildade e gentileza do Filho de Deus. Ignoram que Jesus comeu com os pecadores e condenou os que se achavam justos. Ignoram que Ele salvou a prostituta e condenou a turma que tentava apedrejá-la.

Sinceramente, não sei o que será do Brasil. Quando as opções que temos são revolucionários que odeiam a moral judaico-cristã de um lado e reacionários que usam essa mesma moral para justificar sua torpeza do outro, a verdade é que estamos sem opções. No território do meio alinham-se os tucanos e sua covardia, os emedebistas e seu fisiologismo, os novistas e sua insipidez, e mais um monte de figuras batidas da política nacional. Não há líderes; não há nem a visão longínqua de um estadista. Chegamos ao deserto da moral e acabamos de descobrir que o oásis que muitos acharam ver não passava de miragem. É desolador. É triste demais.

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