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Das coisas que perdemos pelo caminho (parte 1)
| Foto: Foundry Co/Pixabay

Sei que nos tempos que correm acreditamos viver apenas em uma única dimensão: a material, natural, carnal, que apreendemos pelos sentidos e elaboramos pela razão. Talvez até exista outra que transcenda tudo isso, que podemos pressentir, mas não enxergar, tocar, medir. Por isso, se existe, parece ser mais uma possibilidade, um talvez sobre o qual pensamos quando há um espanto, ao qual fazemos perguntas como “por quê?”, “qual o sentido disso?”, e por aí vai.

Pense na morte, por exemplo. Como não se perguntar: “existe algo depois?” Não só isso. Pense na morte de jovens pais levados pela Covid-19 que, sem essa porcaria de vírus, estariam perfeitamente saudáveis. Como não se indignar com a injustiça para com os filhos desses pais? Como não se perguntar qual a razão para algo assim acontecer? Como não sentir uma sede de explicação que ao menos dê algum sentido em forma de consolo?

Ou seja, acreditemos ou não nessa dimensão transcendente, mesmo como uma hipótese ela já nos aparece como sendo a quem direcionamos perguntas como estas e mais aquelas, dentre outras: “de onde viemos?”, “para onde vamos?”, “por que nasci?”

Por mais que tenhamos empurrado os limites do mundo conhecido para os confins do universo, da perspectiva em que estamos na Terra, o céu que vemos segue sendo símbolo do que haveria para além do que conhecemos

Falar em nascer, você já viu aquele meme de dois bebês gêmeos no útero, com um deles perguntando: “será que há vida depois do parto?” Às vezes o outro responde: “Não, ninguém voltou para contar”. Gosto deste meme. Porque nos desloca por instantes para uma perspectiva sobre o transcendente que faz vê-lo como uma realidade tão evidente, tão óbvia, tão mais rica que a dúvida sobre sua existência se torna tola.

E se formos como esses bebês, com a natureza em torno a nos conter como um “útero”? Por mais que tenhamos empurrado os limites do mundo conhecido para os confins do universo (será que são os confins mesmo?), da perspectiva em que estamos na Terra, o céu que vemos segue sendo símbolo do que haveria para além do que conhecemos. E o quanto, do que conhecemos, não devemos à observação do céu?

O movimento aparente do sol, por exemplo, demarca o que é o dia, as estações, o ano. Sua maior ou menor proximidade faz toda a diferença. Quanto mais próximo, mais quente, luminoso e vivo tudo fica; quanto mais distante, mais frio, escuro e a natureza como que se recolhe. Imagine o medo que as primeiras gerações humanas não sentiam quando o outono avançava, anunciando o inverno, com o sol parecendo cada vez mais distante, as noites mais longas, a terra coberta de neve.

Até chegar a mais longa de todas as noites, ali pelo dia 21 de dezembro para o Hemisfério Norte e 21 de junho para o Hemisfério Sul, quando há o marco do início do que chamamos de inverno. É quando ocorre um solstício, cuja palavra vem da junção de Sol mais Sistere, que significa “aquele que não se move”. Não se move porque o sol parece parar no céu no ponto mais distante da Terra, durante alguns dias, quando então começa a retornar, reaproximando-se.

Ao mesmo tempo que os negacionistas de Cristo recusam o significado cristão do Natal, nem desconfiam que o simbolismo das festas pagãs no solstício de inverno nos direciona para a mesma realidade espiritual em que a luz vence as trevas

Isso era tão impactante que não há registro de comunidade humana que não realizasse alguma festa para comemorar que o sol não havia desaparecido ou ficado parado para sempre longe de nós. É a festa que os negacionistas de Cristo alegam que a Igreja teria “roubado” dos pagãos. Acho engraçado. Acho engraçado porque, ao mesmo tempo que recusam o significado cristão do Natal, nem desconfiam que o simbolismo das tais festas pagãs nos direciona para a mesma realidade espiritual em que a luz vence as trevas.

Ou seja, nossos rituais de passagem, sejam quais forem, do que hoje chamamos de “fim-de-ano” relacionam-se muito mais com essa dimensão que nos transcende que com a material que nos contém. Mas pelo caminho da modernidade tudo foi se perdendo, sendo descarnado de sentido e significado, com os ritos se tornando ineficazes, estéreis, coisas que cumprimos como quem bate ponto no emprego.

É só quando algo nos ameaça ou tira do “útero” confortável de nossa vida material moderna, como a pandemia fez nesses últimos dois anos, que voltamos a experimentar a realidade dessa dimensão transcendental, sentindo o “terror cósmico” de uma noite longa demais, deixando-nos com perguntas como “até quando?”, cujas respostas as estrelas somente entregam aos poetas.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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