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O senhor sabe o que o silêncio é?
| Foto: Ana Maria Senff

O silêncio começa sendo ausência. Ausência de sons, ruídos, rebuliços. Para quem vive na barulhada das cidades e congestionado também por dentro com a incessante vida virtual das redes sociais, o silêncio se torna sinônimo de descanso. Mas, de tão raro hoje em dia, tornou-se estranho experimentá-lo. Não demora e o que era alívio vira angústia do ser sozinho, quando a ausência de quase tudo revela a presença de um todo nada.

Meditava eu nessas coisas dias atrás durante uma viagem de ônibus de mais de sete horas em estrada de chão e outras não. Fui ao coração do sertão, cortesia da agência de viagem Nomad Roots, criadora do projeto Volta ao Mundo Literária, um clube do livro em que tenho a honra de fazer a mediação das leituras desde o seu início, lá se vão seis anos. A razão da viagem foi termos lido Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, que neste ano completa 65 anos de sua publicação.

Eu, particularmente, reli a obra duas vezes nos últimos meses. A cada releitura mais me convenço de que é a maior e melhor obra da literatura brasileira. Só conheço dois tipos de leitores deste livro: os que desistem por ser difícil (e é) e os que terminam apaixonados por ele. É quando você conhece melhor os apaixonados que começa a entender a grandeza do grande sertão roseano. Como a história do alemão Willi Bolle, que se mudou para o Brasil por causa do livro.

Só conheço dois tipos de leitores de Grande Sertão: Veredas: os que desistem por ser difícil (e é) e os que terminam apaixonados por ele

Lembrei-me de Willi na viagem, pois uma de suas histórias com o livro se deu quando viajou pela primeira vez ao sertão mineiro e, da janela do trem, foi achando tudo muito familiar. Até que se deu conta de que assim era por causa do livro. E é mesmo. Eu nunca tinha ido, e no que cheguei era como se de lá nunca tivesse saído. Não à toa foi criado o Parque Grande Sertão: Veredas, uma grande área de sertão preservado nas terras da trijunção de Minas, Bahia e Goiás. Faz muito sentido a homenagem ao livro, que fez pelo sertão mais do que qualquer governo.

Está no fim da época da seca por lá. A última chuva foi em abril. Mas nem por isso não há água, como se vê na foto que ilustra este texto. Sou eu ali, lendo Guimarães ao nascer do sol na Lagoa das Araras. Estranho tanta água no sertão, não? Falar nele é falar de deserto. E, de fato, parece mesmo. Em torno, por lonjuras mil, o amarelo empoeirado do capim e da areia recobre de secura quase tudo. Mas há também oásis sertanejos, como este que é nascente do Rio Formoso, cujo curso vai formando dezenas de veredas cercadas por buritis por todos os lados, com águas não apenas cristalinas, mas geladas, mesmo em meio a um sol de 40º.

Outro contraste é o do verde teimoso de algumas árvores neste pálido cenário. Como conseguem ter folhas, às vezes flores, até frutos? Porque o Cerrado tem uma floresta debaixo do chão, aprendi lá com os biólogos que trabalham de guia na pousada em que fiquei, a Trijunção. Se por cima as árvores são quase todas anãs, por baixo suas raízes alcançam de três a cinco vezes o tamanho do tronco, conseguindo encontrar água no profundo da terra, brotando no verde das folhinhas resilientes ao sol escaldante.

Voltei de lá pensando no quanto isso é simbólico. Quando achamos que tudo é um deserto de dor, sofrimento, de secura aparentemente sem fim que dá vontade de virar um retirante da vida procurando abrigo em qualquer outro lugar, menos no nosso, não conseguimos enxergar a floresta invertida que nos sustenta, que às vezes brota em folhinhas de lágrimas que um dia dará sorrisos aos cachos.

Mas para enxergar é preciso silenciar. Não o silêncio da ausência, muito menos o da angústia do vazio, mas daquele que vem dessas profundezas da alma revelando a presença de “algo mais”. Ler a obra-prima de Guimarães Rosa é mergulhar nessas funduras, descobrindo que o sertão é dentro da gente mesmo, com Riobaldo nos conduzindo mais adentro, transformando seu monólogo num diálogo com o leitor que, quando percebe, já caiu de amores, sem saber dizer bem amor pelo quê.

Não é o amor por um livro, personagens, nem pelo amor do amor de Riobaldo e Diadorim, mas amor que a tudo abarca e transcende. Amor metafísico, talvez? Bem, o próprio Guimarães Rosa, em cartas aos tradutores de sua obra, colocava o valor metafísico-religioso como sendo mais importante do que tudo ali. Não seria a obra, então, uma forma de oração? “Mas ninguém não pode me impedir de rezar: pode algum? O existir da alma é a reza... Quando estou rezando, estou fora de sujidade, à parte de toda loucura. Ou o acordar da alma é que é?”, disse Riobaldo no meio do redemoinho de sua fala.

Quando achamos que tudo é um deserto de dor, sofrimento, de secura aparentemente sem fim, não conseguimos enxergar a floresta invertida que nos sustenta

Rezar é o acordar da alma. E vice-versa. E quando rezamos, que acontece quando acontece? Um encontro, daí uma comunhão. Aos de fé, com Deus; aos que acham que não, com aquele “algo mais”. E aí o indizível só se faz visível a quem tenha comungado também, no seu silêncio que já se desfez da solidão. Encontrar alguém assim é como se deparar com um buriti, sinal não só de água no sertão da vida, mas de proximidade da vereda, que mais que um oásis se revela um rumo, um caminho, uma travessia, última palavra do romance.

Apaixonar-se por Grande Sertão: Veredas é encontrar esse rumo, já fazendo a travessia para dentro da alma e para além dela. Para usar um trecho de outra obra do autor, do conto Minha Gente: “Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão”, disse um dos personagens, ao que outro respondeu “Por que você não diz: o Brasil?” O outro concordou. Era mesmo. E foi assim que de lá voltei, encharcado desse sertão e enfim entendendo a resposta de Riobaldo à pergunta que ele mesmo se fez: “O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais”.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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