Bolsonaro é recebido com festa no aeroporto de Aracaju nesta segunda-feira (17) para inauguração de uma termoelétrica: aprovação ao seu governo subiu de 30% para 37% em agosto.
Bolsonaro é recebido com festa no aeroporto de Aracaju para inauguração de uma termoelétrica.| Foto: Alan Santos/Presidência da República

Não é difícil perceber o quanto o sentido do termo conservadorismo pode ser esticado a ponto de se tornar tão vago quanto inútil para descrição da realidade política. Sem dúvida, Bolsonaro ganhou as eleições se aproveitando de um ambiente em que conservadores já não tinham mais vergonha de dizer seu nome. Hoje, seu estilo de governo se afasta da tradição conservadora para se aproximar mais de um estilo populista.

Nesta semana fiz quatro perguntas para Paulo Dantas, estudioso de ciência política formado pela Escola de Gestão da École des Hautes Études Commerciales de Montreal, da Universidade de Montreal, e em Ciências Políticas pela Universidade Laval. Ele vive em Montreal desde 2009, é um ativo mentor para novos imigrantes na Câmara de Comércio de Montreal, mantém o canal Sapere Aude no YouTube e acaba de lançar o livro Conservador ou Populista: Como compreender os conceitos, estratégias e técnicas do populismo bolsonarista na era das redes sociais.

Embora o título do livro já manifeste seus objetivos, gostaria de saber como você chegou ao tema e por quê?

O fenômeno conhecido como bolsonarismo, que foi amplificado pelas redes sociais como um movimento conservador, conseguiu evocar o ressentimento dos então chamados “cidadãos de bem” através do carisma e patriotismo de Jair Bolsonaro, acompanhado de promessas simples para questões complexas, expressadas com jargões populares.

"A maneira como o populismo bolsonarista exerce uma obediência antecipada e um culto à personalidade demonstra a fragilidade ideológica desse movimento"

Paulo Dantas

Observando atentamente o debate político no Brasil, ficou muito claro que muitas pessoas que acreditaram no movimento conhecido como bolsonarismo se autodenominavam automaticamente como conservadoras. Porém, nas suas atitudes, especialmente nas redes sociais, a ausência dos pilares do conservadorismo era cada vez mais clara e evidente. Em razão disso, vi a necessidade de esclarecer a diferença, de maneira clara e objetiva, entre o populismo e o conservadorismo.

Pilares básicos como pragmatismo, respeito à tradição e a imperfeição humana foram substituídos pelas técnicas do populismo como a demonização do oponente político e teorias da conspiração.

Como diferenciar um conservador de um populista, sobretudo no contexto da ascensão do Bolsonaro ao poder?

Um conservador tem a tendência natural de rejeitar a ideia de revolução, seja ela qual for, para alcançar seus objetivos; na maioria das vezes é a favor do debate, e tende a sempre aplicar um ceticismo político. A maneira como o populismo bolsonarista exerce uma obediência antecipada e um culto à personalidade demonstra a fragilidade ideológica desse movimento.

Essa fraqueza é constatada pela restrita visão de alguns conceitos políticos como a liberdade de expressão e pensamento. Enquanto o filósofo Stuart Mill acreditava que uma das liberdades básicas é a liberdade de pensamentos e ideias, no bolsonarismo, seguindo os conselhos do articulador ideológico Olavo de Carvalho, o importante é eliminar do debate público as vozes que possam ser uma potencial ameaça.

O que as redes sociais significaram não só para a candidatura como para a manutenção do próprio governo Bolsonaro?

É sempre importante salientar que o bolsonarismo funciona dentro de um conceito de guerra virtual e ameaça constante, muito antes da sua candidatura. O bolsonarismo dispõe, há muito tempo, de uma máquina de propaganda informal e potente, muitas vezes disfarçada de “mídia independente”, que efetua uma verdadeira blitzkrieg (guerra-relâmpago) para tentar controlar as narrativas nas redes sociais, criando o efeito de “consenso fabricado” – termo esse criado pelo grande jornalista Walter Lippmann, no livro Opinião Pública.

Por meio de uma narrativa agressiva, Bolsonaro e sua equipe conseguiram refletir nas redes sociais os anseios mais profundos de uma certa “maioria silenciosa”. A utilização de bots, trolls, fake news, desinformação, memes, influenciadores e canais sensacionalistas ajudou e tem ajudado até hoje a ocupar o espaço entre os jornalistas e o gatekeepers nas redações, ou seja, o hack gap.

"O populismo é uma patologia das democracias que existe há séculos e não vai desaparecer num futuro próximo"

Paulo Dantas

A tentativa constante de controle de narrativas é um grande desafio para as mídias tradicionais que estão em um jogo desigual, competindo com canais influentes que não respeitam as regras básicas do jornalismo. Como dizia Churchill: até a verdade colocar as calças, a mentira já correu o mundo todo.

Que tipo de ameaça o populismo pode oferecer à democracia? Ele poderia ser pensado como um efeito da própria democracia?

Uma das grandes ameaças para as democracias, como já documentou o cientista político Cas Mudde, é a separação da sociedade em dois grupos antagonistas e homogêneos. A ideia de que existe o “cidadão de bem” contra a “elite corrupta” reforça ainda mais a necessidade de um líder outsider que pode nos salvar das conspirações do establishment. Infelizmente o populismo é uma patologia das democracias que existe há séculos e não vai desaparecer num futuro próximo.

Segundo um relatório do Instituto Tony Blair, líderes populistas têm o potencial de corroer os sistemas de pesos e contrapesos, atacam direitos individuais e tentam restringir a liberdade de imprensa. Mas o fator de maior risco nos dias de hoje é a soma do poder das novas tecnologias com as técnicas do populismo. Eventos como o Brexit, o Cambridge Analytica e as eleições americanas de 2016 demonstram como bilionários são capazes de influenciar eleições por meio de técnicas como o microtargeting, e influenciar pessoas por meio dos seus maiores medos e anseios, podendo assim abrir ainda mais as portas para líderes populistas.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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