Detalhe de "A Ronda Noturna", de Rembrandt van Rijn.
Detalhe de “A Ronda Noturna”, de Rembrandt van Rijn.| Foto: Wikimedia Commons/Domínio público

Não me lembro muito bem o autor da frase “a política é a arte do possível”. Talvez Otto von Bismarck? Não sei. Karl Marx eu tenho certeza de que não escreveria isso. Sei que tem gente que enche a boca para citá-la como sinal de virtude. Enfim, quando penso na ideia de que “a política é a arte do possível”, pelo menos dois autores antagônicos me vêm à mente: Maquiavel e Aristóteles.

O que há em comum em pensadores tão díspares e suas visões de mundo quando o assunto é política? Tenho dois palpites: a política serve a alguns anseios humanos básicos e o caráter imprevisível da ação política. Acho que é isso – corrijam-me os especialistas.

Ninguém consegue ser um observador imparcial da vida política e, ao mesmo tempo, onisciente (capaz de prever o fim da história)

A ciência política, ou, se preferirem, o saber das coisas humanas em sociedade não permite previsões antecipadas do futuro – nem próximo e muito menos remoto. O “possível” da frase precisa ser interpretado como “a consciência do imprevisível”. Não obstante o agir humano vise alguma coisa para além da própria ação: o bem comum, a justiça, a instabilidade ou a unidade de um povo. Ou seja: mediante decisões políticas esperamos um mundo melhor, lá na frente; um mundo que supere o que não está adequado aqui e agora. Política, assim, pode também significar um projetar-se, um ir além, a arte do impossível.

Se otimistas formos, e levarmos essa tese às últimas consequências, utopias. Se pessimistas, distopias. Se colocarmos o pé no chão da história, encontraremos um universo de possibilidades muito concretas. Possível ou impossível? Para onde a história vai? Quem conduzirá seu destino? Tudo depende de como entendemos o “fim da história”. Para criticar reacionários, alguém mencionou que vivemos uma guerra pela eternidade. Porém, só esqueceu de dizer que o eterno abarca crenças tanto do passado quanto do futuro.

Aquele que reflete e escreve sobre crenças e eventos políticos é também um agente político – condição que não escapa nem ao exercício do historiador. Pensar e escrever sobre crenças e eventos políticos equivale à construção de um destino político. Ninguém consegue ser um observador imparcial da vida política e, ao mesmo tempo, onisciente (capaz de prever o fim da história). Em suma, pensar e escrever sobre a política já é, essencialmente, contribuir para os rumos políticos. E cada um traz dentro de si um sentimento profundo – chamarei aqui de “amor” – sobre qual o sentido desse destino.

Sobre essa característica substantiva do saber político, gostaria de registrar o seguinte: não estou me referindo à política como exercício de poder, relação de força legítima, luta do amigo-inimigo, Estado, indivíduo etc. Não estou, portanto, dando uma definição a priori, isto é, conceitual; uma definição de gabinete.

Refiro-me à experiência política como agir humano no interior de uma comunidade maior que a família e a tribo e menor que a Jerusalém Celeste, ou, simplesmente, a experiência da sociedade política cujos membros decidem coletivamente sobre o próprio destino: se amam e, por isso mesmo, se odeiam. Numa palavra: o fazer político significa experiência de tomar decisões com os outros acerca dos rumos dessa sociedade – a sociedade política que nós mesmos constituímos e por ela somos responsáveis.

Nessa perspectiva, devem brotar no coração dois problemas graves: amamos essa sociedade que ajudamos a construir e odiamos toda ameaça à sua realização. Política, desse modo, pode ser também a arte de administrar o amor e o ódio.

Quem grita por aí “eu avisei” ou “você está com as mãos sujas de sangue” só faz isso para exibicionismo moral e para apagar da consciência sua cota de responsabilidade política

Lembrei. A frase é do Bismarck mesmo. Não me ocorre agora qual o sentido que ele quis dar a isso, só sei que política também é a arte do possível e do impossível quando somos capazes de administrar nosso amor e nosso ódio pelo destino da sociedade política que fazemos parte e construímos com os outros. Uma capacidade de lidar com a contingências, com o contraditório e com gente que não compartilha o mesmo senso de destino que nós.

Uma digressão: precisamos entender que a estrutura do conhecimento da ação política não permite previsões. Quem grita por aí “eu avisei” ou “você está com as mãos sujas de sangue” só faz isso para exibicionismo moral e para apagar da consciência sua cota de responsabilidade política. A ideia de previsão (antever o que acontecerá no fim de uma etapa do processo) não faz parte da natureza do conhecimento político. Só é possível “ler” algumas forças em conflito por estarmos dentro do olho do furacão e participarmos da construção de todo o processo da história.

A imprevisibilidade do fim de processos históricos (na verdade não há fim da história, só senso de destino) estrutura o nosso conhecimento do todo. Ações políticas são motivadas por inúmeros componentes não causais, e ter consciência da clareza de uma crença não sustenta com clareza o fim de decisões políticas. Portanto, não se trata de uma tensão entre amor e ódio fora de nós.

Resumindo: ninguém sabe o fim em que vai dar o governo Bolsonaro. E espero que ninguém esteja disposto a matar ou a morrer por isso. Insisto aqui: estou chamando atenção para um detalhe: supor que os sinais estavam dados para alguém capaz de antever a história pelo lado de fora, e não por participar de sua construção, é uma tentativa de se isentar de suas responsabilidades políticas; um jeito perverso de amar a si mesmo e odiar o próximo.

Feliz Páscoa, caros leitores.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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