Detalhe de "O remorso de Orestes", de William-Adolphe Bouguereau.
Detalhe de “O remorso de Orestes”, de William-Adolphe Bouguereau, com as Eríneas, ou Fúrias, atormentando o personagem mitológico.| Foto:

Abro este texto com pesar: o debate público morreu. Em respeito à razão, não ouso mais falar em debate racional como referência ao que se discute, hoje, no debate público. Razão? O que é ter razão? Seja qual for o tema, o debate público foi sepultado. Assim, prefiro a quase redundante expressão “discórdia erística”. Pelo menos no nível da discussão pública, o que sobrou não é nada além de discórdia. Quanto à tomada de decisões políticas, a história é outra. A tal da estupidez e o tal do vírus agradecem alguns políticos.

Não faz o menor sentido a gente falar em argumentos racionais se o parceiro da discussão, nosso pouco estimado interlocutor – alguns preferem coroá-lo com as aspas –, insiste em não compartilhar de alguns pressupostos morais e cognitivos. Todo debate precisa partir de um lugar comum, pelo menos provisoriamente. Discutir é um jogo de verdades. Há regras incontornáveis. O exercício racional do debate precisa muito mais do que o impecável brilhantismo de um raciocínio. A discórdia erística dispensa tudo isso. Ressentida, sua ambição é destruir e se vingar.

Tudo bem, discordar das questões fundamentais (crença em Deus, sentido e destino da vida humana, liberdade, natureza do bem, da verdade e da justiça) não impediria ninguém de compartilhar conhecimento em outros assuntos. Querem um exemplo clássico? Um físico não precisa concordar com os delírios de Newton sobre Deus para saber que ele é um gênio da física.

Como seria possível o debate racional se aqueles que falam só falam a partir de suas experiências irredutíveis e inegociáveis de certezas?

Opa, não precisaria até então. Hoje precisa, já que o debate racional está morto e a discórdia erística exige cumplicidade completa da alma. Fundamentalistas não pensam diferente e vão sempre arrumar um jeitinho de falar em nome da (que ironia!) razão. A discórdia erística é a padroeira de fundamentalistas.

Para refrescar a memória, Eris é uma deusa na mitologia grega; é a deusa da discórdia, ligada diretamente ao caos, ao ódio e à ruptura. Trata-se da filha primogênita da noite, Nyx. A palavra “erística” também pode ser associada às Erínias, as deusas da vingança, segundo o poeta Hesíodo.

Bom, a existência do debate racional exige senso mínimo de comunidade moral. A coesão interna de uma comunidade de falantes, seu ethos, não consiste apenas em falarmos o mesmo idioma. Só mais uma curiosidade: em grego o termo éris (ódio)é substancialmente distinto do termo eros (amor). Portanto, discursos de ódio ou discursos de ruptura e discórdia (éris) ainda assim são discursos – instrumentalmente racionais. Em outras palavras: ter muita razão nem sempre é sinal de virtude.

Prossigamos. Para existir concórdia é preciso existir cultura, senso de cuidado, valores superiores etc. O excesso de discórdia erística, no debate público, é sintoma de um problema muito mais sério: a degradação da experiência de comunidade moral (insisto no termo). Amar a humanidade, mas tratar o próximo como um número na planilha do Excel para mim é um exemplo claro dessa degradação. Entre nós aqui, sabe aquele idoso que estava com “o pé na cova” e virou estatísticas desse tal vírus que não mata, mas joga uma “pá de cal”? Então...

A discórdia erística, uma disputa marcada por diferenças irredutíveis sobre quaisquer tópicos possíveis, domina o espaço púbico. No atual ambiente da discórdia, os falantes partem, cheios de luz e agarrados às suas certezas, de seu confortável lugar de fala. Partem, nesse sentido, de suas experiências pessoais e círculos afetivos de certezas e não estão dispostos a abrir mão dessa posição de autorreferência afetiva.

Como conversar com alguém que não está disposto a negociar suas opiniões?

Como seria possível o debate racional se aqueles que falam só falam a partir de suas experiências irredutíveis e inegociáveis de certezas? “Sinto a verdade, logo existo”. Argumentos racionais – não esse racionalismo sentimentalista – só fazem sentido se o parceiro do debate estiver disposto a aceitar um eixo de experiência comum: a suspensão das certezas é um começo cognitivo. Só que compartilhar um mesmo estado moral e mental de ignorância referente a um determinado assunto exigiria a renúncia àquele emaranhado de sentimentalismo – constrangedoramente, diga-se de passagem – oco.

O lugar de fala, centro gravitacional de toda experiência privativa e vínculos afetivos, destrói a possibilidade de consenso racional porque o sujeito da experiência não está disposto a ceder nadinha em pontos fundamentais. Como disse, isso não é a causa, mas o sintoma da degradação social cuja discórdia terminará de enterrar – opa, jogará uma pá de cal.

O filósofo Vladimir Safatle, sem querer, apresentou a melhor síntese do atual estado de coisas quando diz que a política é, sem seu fundamento, a decisão a respeito do que é inegociável. Trata-se da afirmação taxativa do que não estamos dispostos a colocar na balança. Óbvio que, do ponto de vista filosófico e político, eu não concordo com ele, mas reconheço os méritos. De qualquer forma, como conversar com alguém que não está disposto a negociar suas opiniões? Chegou a hora de encomendar uma missa para um fiel defunto envenenado pela estupidez.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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