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Detalhe do retrato de Johann Sebastian Bach pintado por Elias Gottlob Haussmann.
Detalhe do retrato de Johann Sebastian Bach pintado por Elias Gottlob Haussmann.| Foto: Wikimedia Commons/Domínio público

O século 16 foi um tempo de grande inquietação. Imperadores, reis, generais e papas lutavam entre si, para tentar moldar a Europa moderna. Surgiram gênios como Erasmo de Roterdã, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rafael, Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio, Vasco da Gama e Luís de Camões. Mas este foi um tempo marcado por uma inquietação profunda com a morte, a culpa e a perda de significado. E os escritos de reformadores como Martinho Lutero, Ulrich Zwingli e João Calvino foram uma resposta específica às ansiedades desta época. Eles afirmaram que, para a igreja cristã, as Escrituras Sagradas são a única regra de fé e prática (sola Scriptura), Cristo é o único redentor e senhor (solus Christus) e que a salvação se dá somente pela graça (sola gratia), recebida mediante a fé somente (sola fide).

Um dos principais temas desenvolvidos por estes foi o anseio pela glória de Deus (soli Deo gloria), o que conduziu os reformadores a afirmar um importante princípio: a aceitação do mundo como ele é, criado e sob os cuidados de Deus, mas corrompido pelo pecado e carente de restauração. Eles também afirmaram a noção de que não seria necessário santificar a arte, a música e a ciência, subordinando-as a interesses morais ou religiosos, pois para eles a criação seria uma esfera legítima em si mesma. Assim, o ensino da Reforma permitiu que as expressões humanas se tornassem um empreendimento puramente comum.

Artes, música e literatura

Nas artes, destacaram-se Lucas Cranach, Albrecht Dürer, Hans Holbein, o Jovem, Matthias Grünewald, Rembrandt van Rijn, Pieter de Hooch, Jacob van Ruisdael e Frans Post. Esses artistas combinavam a criatividade pessoal, a experiência humana e a tradição cristã nascida da Reforma em suas pinturas e gravuras, expressando sua fé, nas palavras de John Leith, “de uma forma que a teologia falada ou escrita não pode reproduzir”, ao retratarem em suas obras cenas bíblicas, do cotidiano e paisagens.

Os reformadores afirmaram a noção de que não seria necessário santificar a arte, a música e a ciência, subordinando-as a interesses morais ou religiosos, pois para eles a criação seria uma esfera legítima em si mesma

Johann Sebastian Bach ilustra o impacto da Reforma na música. Quase todas as suas obras têm no seu princípio as letras “J. J.” e, no seu final, “S. D. G.”. No início da obra, Bach pedia Jesu Juva! (“Jesus, ajuda!”) e, depois de escrever a última nota, gravava Soli Deo Gloria! (Glória somente a Deus!). Bach escreveu poucas obras em latim, dentre elas o Magnificat e a suprema Missa em Si Menor. Seu amor pela fé bíblica pode ser percebido pelos trechos de algumas de suas obras, como a Paixão segundo São João, de 1724:

N.o 1. Coral:
Senhor, soberano nosso, cuja glória
reina sobre todo o mundo!
Mostra-nos, por meio da tua paixão,
que tu, o verdadeiro Filho de Deus,
todo o tempo, inclusive na época
da maior humilhação,
foste enaltecido!

N.o 11. Coral:
Quem te golpeou, meu Salvador,
e tão rudemente maltratou? Tu não
és um pecador como nós
e nossos filhos, nenhuma falta
cometeste. Eu, eu e meus pecados,
tantos como grãos de areia há
nas praias, somos os causadores
da pena que te aflige,
do sacrifício que padeces.

N.o 22. Coral:
Graças ao teu cativeiro, Filho de Deus,
recobramos nós a liberdade; a tua prisão
é o trono da graça, o lugar da
liberdade para todos os piedosos; pois
se não tivesse aceitado a escravidão,
a nossa duraria eternamente.

N.o 40. Coral:
Ai, Senhor, faz com que o teu Anjo, no último
momento, leve a minha alma ao seio de Abraão;
que o meu corpo, no seu lugar de repouso,
descanse docemente e sem pesares até
o dia do juízo final! Quando da
morte acorde, que os meus olhos te
vejam com toda a alegria, ó Filho de
Deus, Salvador meu e Trono da Graça!
Senhor Jesus Cristo, atende-me,
louvar-te desejo eternamente!

Bach escreveu música para culto e música instrumental para entretenimento, e os dois estilos refletem a busca pela excelência e a glória de Deus. Clement Marot e Louis Bourgeois, que musicaram os salmos cantados pela igreja reformada em Genebra, também são exemplos de artistas que exerceram sua vocação tanto para o entretenimento quanto para o culto, sem confundir nem subordinar uma esfera à outra. Esses músicos se moviam entre as duas esferas como âmbitos legítimos e divinamente ordenados.

No campo da literatura, surgiram o romance moderno, os estudos históricos e uma variedade de experimentos literários. William Shakespeare, Edmund Spencer, John Donne, George Herbert e John Milton são alguns dos principais representantes da “Era de Ouro” da literatura inglesa, fruto da Reforma.

Educação e ciência

Richard Sibbes escreveu que “a verdade vem de Deus, onde quer que a encontremos, e é nossa, é da igreja... não devemos fazer destas coisas um ídolo, mas a verdade, onde quer que a encontremos, é da igreja; portanto, com uma boa consciência podemos fazer uso de qualquer autor humano”. Se toda verdade vem de Deus, então ela é, em última análise, única, havendo uma inter-relação de todas as áreas do saber. Assim, crendo na revelação geral de Deus por meio da criação, assim como na sua revelação especial na Escritura, os seguidores da Reforma abraçaram o estudo científico do mundo físico.

Na Inglaterra, um clérigo disse ao Parlamento: “Aquele Deus que é sabedoria abstrata e tem prazer em que suas criaturas racionais busquem por ele, e que seus ministros estudem para propagá-la, esperará que sejam pais adotivos do conhecimento”. Portanto, grandes avanços científicos se iniciaram entre os protestantes, na França, na Suíça, nos Países Baixos e na Inglaterra. Sobre esta, Douglas Kelly escreveu: “Um bom número dos membros da Sociedade Real de Londres tinha sido composto de membros da grande Assembleia de Westminster na década de 1640 e alguns dos professores de Matemática e Geometria que estavam vivos naquela época também haviam participado desta grande Assembleia. A doutrina da glória de Deus na criação, que eles sustentavam, foi o que tornou possível à ciência moderna avançar de forma tremenda”. Portanto, uma porcentagem surpreendente de interesse e feitos científicos está enraizada no movimento da Reforma.

Como Reijer Hooykaas coloca: “Essa tarefa de investigação científica não era tida como uma regra opressiva [nas igrejas da Reforma], mas era exaltada como um dever de amor e gratidão. [...] A expressão ‘a cada um segundo os seus talentos’ era utilizada [...] para argumentar que o homem iletrado, que honrava a Deus pelo que seus olhos viam, prestava-lhe uma homenagem igual à do astrônomo, a quem Deus havia dado, em acréscimo, o olho da razão, que lhe permitia enxergar com maior clareza”. Se de fato os reformadores produziram a ascensão da ciência moderna é uma questão de debate, mas que eram favoráveis à ciência, isso é indiscutível.

Crendo na revelação geral de Deus por meio da criação, assim como na sua revelação especial na Escritura, os seguidores da Reforma abraçaram o estudo científico do mundo físico

Na Escócia, John Knox teve a ousadia de advertir o Grande Conselho da Escócia quanto a que “vossas senhorias sejam ao máximo cuidadosos da educação virtuosa e da santa instrução dos jovens desta região”. Assim, o que antes era uma terra de gente iletrada se tornou berço de grandes acadêmicos, e que influenciou decisivamente o Ocidente.

Além disso, algumas das principais universidades europeias – tais como Zurique, Estrasburgo, Genebra, Edimburgo, Leiden, Utrecht, Amsterdã, Oxford, Cambridge e Heidelberg – “foram”, de acordo com Michael Horton, “ou fundadas ou restauradas por aqueles que estavam resolvidos a fazer a teologia da Reforma influir num mundo em mudança”. No norte da América, as universidades de Harvard e Yale foram fundadas nos séculos 17 e 18. Em todos esses esforços, os reformadores lutaram contra a preguiça mental, a complacência, a pretensão da ignorância, as pressões do tempo e a tentação de se acumular dinheiro em vez de investir na educação. Os estatutos do Emmanuel College, da Universidade de Cambridge, sintetizam o espírito que animava esse impulso: “Há três coisas as quais acima de tudo desejamos que todos os alunos desta faculdade atendam, a saber, o culto a Deus, o crescimento da fé e a probidade da conduta”.

Os reformadores entendiam que as Escrituras Sagradas não são um manual de teoria artística, literária, musical ou política; assim, não podem também ser vistas como livro-texto de ciência. Para eles, como Horton escreveu, “tudo nas Escrituras é verdade, no sentido daquilo para o que foi escrito pelo autor original, mas o propósito das Escrituras não é nos contar tudo sobre todas as coisas, mas explicar – na linguagem mais comum e mais básica possível – o progresso da obra salvífica de Deus, em Cristo, através da história da redenção”.

A crença subjacente era que a criação se harmonizava com as Escrituras, já que Deus era o autor de ambos. Assim, sendo uma vez dado espaço à observação empírica para explorar a criação, cientistas como Robert Recorde, Leonhart Fuchs, Thomas Digges, Bernard Palissy e Johannes Kepler ganharam liberdade para seguir sua vocação.

Política

Os reformadores também trataram com máxima seriedade o ensino bíblico sobre o poder civil e as tensões envolvidas entre as esferas da igreja e do Estado ou entre as duas cidadanias do cristão. Lutero foi o primeiro dos reformadores a tratar do assunto em sua obra Da autoridade secular, até que ponto se lhe deve obediência. Foi seguido por Calvino, que abordou a matéria nas Institutas da religião cristã, ao tratar “da administração política”.

O mais surpreendente é que quase todos os reformadores dos séculos 16 e 17 articularam uma teologia do Estado e várias obras sobre esse tema foram lançadas em rápida sucessão nessa época: Martin Bucer, John Ponet, Christopher Goodman, François Hotman, Theodore Beza, George Buchanan, Philippe de Mornay, Johannes Althusius (cuja obra Política tem “a distinção”, segundo Frederick Carney, “de ser uma das contribuições centrais para o pensamento político ocidental”) e Samuel Rutherford.

Os reformadores enfatizaram que não se deve centralizar o poder nas mãos de algumas poucas pessoas, mas dividi-lo entre poderes claramente separados e equilibrados, e entre o maior número possível de pessoas

Como escreveu Daniel Elazar, “a estrada para a democracia moderna começou com a Reforma Protestante no século 16, em especial entre aqueles expoentes protestantes reformistas que desenvolveram uma teologia política que remeteu o Ocidente de volta aos caminhos do autogoverno popular, com ênfase na liberdade e igualdade”. Nesse campo, os reformadores enfatizaram que não se deve centralizar o poder nas mãos de algumas poucas pessoas, mas dividi-lo entre poderes claramente separados e equilibrados, e entre o maior número possível de pessoas. E os governantes devem sempre prestar contas ao povo, que tem o direito e o dever de afastar os injustos e corruptos do poder – inclusive por meio do tiranicídio. Knox e Rutherford “desenvolveram”, de acordo com Kelly, “a ideia de que todas as pessoas são iguais diante da Palavra de Deus e qualquer [governante] que viola os seus direitos é um tirano e o povo tem o direito de derrubá-lo do governo”. Como escreveu Zwingli: “A autoridade temporal [...] pertence ao governo civil [...] a quem todos os cristãos são obrigados a obedecer, desde que não façam nada contra Deus”.

Desse modo, a verdadeira origem do contrato social, garantidor das liberdades fundamentais do ser humano, encontra-se na Reforma protestante e, em última análise, na mensagem evangélica oferecida nas Escrituras e confiada à igreja.

Assim, surgiram influentes políticos cristãos na esteira da Reforma, como Frederico III, Eleitor da Saxônia; Frederico III, Eleitor Palatino; Gaspard de Coligny; Henrique IV de França; Guilherme I, Príncipe de Orange; Maurício, Príncipe de Orange; João Maurício de Nassau; István Bocskay; Gustavo II Adolfo da Suécia; o Lorde Protetor Oliver Cromwell; e os governadores de Massachusetts, John Winthrop, e de Plymouth, William Bradford.

Uma compreensão abrangente da criação

O movimento da Reforma protestante não foi, portanto, somente um movimento de redescoberta do evangelho conforme revelado nas Escrituras Sagradas e com vistas a renovar a igreja. Foi também um amplo movimento de reordenação da sociedade à luz da revelação de Deus em sua Palavra.

Assim, é espantoso, como escreve Michael Horton, “como tantos que acreditavam nada poder contribuir para a sua própria salvação puderam conduzir uma” transformação de longo prazo “na vida pública. [...] Libertados de uma piedade pessoal e introspectiva, esses protestantes deram forma ao sentimento de dever público, ajudaram a lançar reformas democráticas e direitos civis, e deram nova dignidade e direção à vida condigna no lar cristão”.

Passados tantos anos do movimento iniciado por Lutero, os cristãos herdeiros da Reforma continuam sendo chamados a glorificar a Deus em todos as esferas da criação, a partir da vocação e dos dons que o Senhor lhes tem concedido. Os tempos atuais clamam por isso. Urge a necessidade de cristãos exercerem boas influências na sociedade, bem como de produção de qualidade nas diversas áreas do saber. Que os cristãos ouçam esse chamado e vivam de acordo com as palavras de Zwingli: “Você é a ferramenta de Deus. Ele quer desgastá-lo pelo uso e não pela ociosidade. Oh homem feliz, a quem Ele chama para o Seu trabalho!”

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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