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Muito tem se falado a respeito de transformação digital e inovação. Existem, inclusive, inúmeros títulos cunhados para fomentar a adesão ao novo, diferente, moderno e disruptivo.

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O cardápio de opções é vasto, mas as escolhas devem ser conscientes. Dentre os itens da mágica receita para que a transformação digital não aconteça, destaco: coloque um Head de inovação que nunca inovou; encontre um Líder de IA que nunca rodou um algoritmo; crie programas de inovação aberta e mantenha a empresa com mentalidade fechada; lance pilotos para explorar startups com promessas de contratos que nunca ocorrerão; desenvolva iniciativas de Hackathon ou Datathon, lance problemas das áreas de negócio e pegue algumas ideias de forma quase que gratuita; para fechar, crie um "Espaço de Inovação" com mesas de sinuca e com petiscos à vontade; digitalize processos no modelo AS-IS; abuse dos jargões Analytics, Artificial Intelligence, Open-Innovation, RPA e muitos outros disponíveis.

Pronto, sua organização acaba de ser elevada ao patamar de empresa inovadora. Fácil, não é mesmo? O problema é que, imediatamente após essas medidas, começam as perguntas:

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• Quantos algoritmos de Inteligência Artificial temos em produção e qual o ROI dessas iniciativas?
• Se somos inovadores, por que nossos melhores talentos estão deixando a organização?
• O espaço de Inovação virou sala de descanso para o pós-almoço?

Em minhas reflexões, as organizações acabam adentrando em um abismo de futurismo e tendências sem validações prévias.

Já que o mercado está fazendo, então vamos fazer também

Existem ainda os Early Adopters, ou os casos dos Fake Innovation Adopters, que se dizem inovadores pois deixaram os colaboradores trabalharem de bermuda.

Há uma linha tênue entre inovar e transformar-se. Nem tudo está perdido. Após entendermos o que não deve ser feito, ou pelo menos sem uma estratégia bem definida, vamos elencar alguns pontos de como colocar a transformação digital para acontecer.

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Pessoas, Cultura e Tecnologia

Primeiramente, inovação e transformação digital não acontecem sem o apoio de três pilares fundamentais: Pessoas, Cultura e Tecnologia, existencialmente nessa ordem.

A sociedade se transmuta rapidamente. Não são somente os hábitos de consumo que mudaram, o modelo de pensamento, a percepção do todo como indivíduo e, acima de tudo, o propósito de cada um de nós vem alterando cada dia mais as estruturas nas empresas e no mundo.

As pessoas continuam sendo o maior ativo de uma organização, e suas ideias são o combustível para todas essas transformações

Inovação com pessoas, cultura e tecnologia

Vamos começar pelas Pessoas

Estimule programas de ideias entre seus colaboradores, motive, reconheça, valorize, ouça e retenha os talentos. Quem sabe um deles não traga algum ponto de vista que possa ser aproveitado em uma reunião com a área de negócio e daí surja um plano que possa ajudar a economizar milhões para a sua empresa?

Proporcione um ambiente verdadeiramente aberto à inovação, fuja dos padrões, do tradicional e não tenha medo de ficar preso às antigas amarras de controle de ponto ou taxa de produtividade. É claro que essas são questões importantes, mas, com os pilares alinhados, a mágica flui de maneira natural – afinal, não basta uma empresa dizer que é, se as pessoas não acreditarem genuinamente nisso, para que assim seja verdade.

Cultura é importante

Outro ponto que é indissociável de qualquer estratégia de transformação e merece destaque é a CULTURA empresarial. Permitir uma abordagem mais casual nas vestimentas não vai proporcionar um ambiente mais leve para a inovação por si só, embora possa destravar gatilhos criativos.

O DNA da empresa é que necessita de alterações urgentes em suas estruturas moleculares. Nesse sentido, a transformação digital não acontece sem uma estratégia de alto escalão definida, com uma área de RH totalmente ativa e focada que transmita segurança, treinamentos constantes e a mensagem de que aqui somos realmente diferentes e não apenas cumprimos protocolos.

Se for para implementar um programa de Café com o Presidente, por exemplo, esteja atento para que as soluções e ideias apresentadas pelo menos sejam ouvidas. Para ser realmente eficiente e eficaz, a inovação precisa ser um dos valores da organização e permear todos os níveis.

O último, mas não menos importante pilar, é a Tecnologia

Não existe transformação digitalizando processos ou então implementando soluções caríssimas que não tragam o retorno esperado.

As áreas de tecnologia deixaram de ter um papel de suporte e passaram a desempenhar um papel muito mais estratégico junto às áreas de negócio. Face a isso, fique atento ao óbvio.

Em um primeiro momento, a automatização de um processo com melhoria prévia pode significar muito mais que complexas abordagens para a implementação de tecnologias disruptivas.

Transformação digital também segue um roadmap, possui diferentes níveis de maturidade, portanto tenha em mente que, com a estratégia correta, ficará muito mais fácil justificar uma abordagem com Inteligência Artificial, por exemplo. Implementar a automatização de um processo já é oneroso por natureza, sendo que ter uma IA para uma tomada de decisão – cuja formulação é difícil de ser abstraída pelas áreas de interesse – é o grande ponto. IA não pode ser só mais uma commodity, mas sim criar valor como uma camada de negócio, e aqui é onde se costuma errar.

Pessoas inquietas e motivadas, com um propósito coletivo, munidas de uma cultura que apoie as mudanças e valorize a inovação, e de ferramentas tecnológicas que facilitem os processos são engrenagens fundamentais para esse motor chamado transformação.

Antes de uma organização se considerar extremamente inovadora ou ter passado por um profundo processo de transformação digital deveria se perguntar:

Quanto contribuímos para esta nova sociedade? Ou então: como estou preparando meu negócio para o futuro de maneira realmente sustentável?

Estou realmente preparado para compreender e filtrar a avalanche de novas tendências e comportamentos que já são aplicados hoje em dia?

Lembre-se de que lançar um novo aplicativo para seu mobile não vai contribuir de maneira tão efetiva como já contribuiu um dia e fique atento ao MEC2P: Mobilidade, Experiência, Coletividade, Personalização e Propósito.

*Leandro Eschiavi é Superintendente de Dados e Tecnologia na HDI Seguros. Formado em Ciência da Computação pela UMESP – Universidade Metodista de São Paulo, tem MBA em Gestão Estratégica de TI pela FGV – Fundação Getulio Vargas. Possui mais de 18 anos de atuação na área de tecnologia e experiência na gestão de projetos inovadores, no Brasil e exterior.