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Detalhe da “Criação dos Animais” de Jan Brueghel o Novo.
Detalhe da “Criação dos Animais” de Jan Brueghel o Novo.| Foto: Wikimedia Commons/Domínio público

“Nós compreendemos que, diante dessa calamidade global, ninguém está seguro até que todos estejam seguros, que nossas ações realmente afetam uns aos outros, e que o que fazemos hoje afeta o que acontece amanhã.” (Papa Francisco, patriarca Bartolomeu I e Justin Welby, arcebispo de Cantuária, 7 de setembro de 2021)

“Escolham a vida, para que vocês e seus filhos possam viver.” (Deuteronômio 30,19)

Enquanto o Brasil prendia o fôlego diante do tensionamento entre bolsonaristas e o STF no 7 de setembro – tensionamento que se diluiu rapidamente em pedidos de desculpas e panos quentes –, o mundo e a cristandade recebiam uma mensagem da mais alta importância: Uma mensagem conjunta pela proteção da Criação, reunindo o papa Francisco, o patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, e o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, líder da Igreja Anglicana. Foi uma articulação inédita, destinada a despertar cristãos de todo o mundo para o desafio da crise climática.

O documento é aberto com um grande sentido de urgência e da interdependência de toda a humanidade diante da crise, mas faz referência específica ao “Tempo da Criação”, uma inovação litúrgica recente, introduzida pelo patriarca ecumênico Dimitrios I em 1989, e depois seguida por católicos e protestantes. A estação litúrgica da criação vai de 1.º de setembro a 4 de outubro; e neste ano temos muito a pensar – a estação 2021 acontece entre o assombroso relatório do 6.º Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), publicado em 9 de agosto, e a 26.ª Conferência da ONU sobre Mudança Climática (COP26), marcada para novembro, em Glasgow.

O ser humano, individual e coletivamente, é responsável pelo bom uso e cuidado das dádivas divinas. Nós, ao contrário, temos abusado dos recursos sem pensar no futuro

O que importa lembrar nesse momento, segundo esses líderes cristãos? O primeiro recurso teológico tirado da despensa da igreja é o de “administração”, “mordomia” (stewardship). O ser humano, individual e coletivamente, é responsável pelo bom uso e cuidado das dádivas divinas, sendo o sentido da finitude e da prudência uma chave para a boa administração. Nós, ao contrário, temos abusado dos recursos sem pensar no futuro. E o trio diz explicitamente que nossa crise ambiental resulta diretamente do fracasso em cumprir esse mandato administrativo de “cultivar e guardar” o Éden (Gn 2,15). Trata-se de uma atualização muito apropriada do conceito de mordomia cristã: precisamos pensar em termos de sustentabilidade. E, por não pensar assim, temos amargado consequências.

“Hoje, estamos pagando o preço. O clima extremo e os desastres naturais de meses recentes manifestam renovadamente, com grande força e grande custo humano que a mudança climática não é apenas um desafio futuro, mas um assunto imediato e urgente de sobrevivência. Inundações generalizadas, incêndios e secas ameaçam continentes inteiros. A água tem se tornado escassa e o suprimento de alimentos inseguro, causando conflitos e desalojamento de milhões de pessoas. Já temos visto isso em lugares nos quais as pessoas se apoiam em propriedades agrícolas de pequena escala. Hoje vemos isso acontecer em países mais industrializados onde mesmo infraestruturas sofisticadas não podem prevenir completamente destruições extraordinárias.”

Não é incomum vermos conservadores atacando as advertências sobre a crise climática e relatórios científicos como o do IPCC como se fossem “ecoterrorismo” e indução de “pânico” na população, com o propósito de submeter as massas a “agendas globalistas”. À parte do negacionismo científico recorrente nessas críticas, é patente que a constatação da responsabilidade humana nessa crise e a defesa de um concerto universal para enfrentá-la é um interesse genuinamente cristão e católico no sentido próprio da palavra: católico como é católico o escopo do Evangelho. A convergência de católicos romanos, ortodoxos orientais e protestantes deveria nos fazer pensar seriamente.

Mas voltemos ao documento: segundo ele, todos sofrem com a crise ambiental, mas há uma assimetria nesse sofrimento. Vê-se uma dura justiça nas consequências da degradação ambiental, mas também uma injustiça humana com pessoas pobres e vulneráveis sofrendo muito mais que os outros. E os mais vulneráveis são nossas crianças e adolescentes, com seu futuro seriamente ameaçado; pensando nelas, “devemos escolher comer, viajar, gastar, investir e viver diferentemente, pensando não apenas em nossos interesses e ganhos imediatos, mas também em nossos benefícios futuros”.

Finalmente, os três primazes declaram a existência de um “imperativo de cooperação”. Há uma escolha diante de nós, e a opção correta é pela conversão. Não apenas uma conversão a Deus, mas uns aos outros. “Se pensarmos a humanidade como uma família e trabalharmos juntos para um futuro baseado no bem comum, poderíamos nos encontrar vivendo em um mundo muito diferente”, com florescimento humano, amor, justiça e misericórdia. Para tanto será preciso cooperar: “comunidades, igrejas, cidades e nações”, e aqueles que têm mais recursos e poder econômico têm a maior responsabilidade.

Parece-me inconcebível que cristãos conservadores, por razões políticas, cogitem ignorar ou até desacreditar a mensagem conjunta dos três prelados. Sustentabilidade é assunto de doutrina social cristã

Eu resumiria o argumento em sustentabilidade, responsabilidade social, e cultura de cooperação pelo bem comum. Ou: os deveres para com a terra, com o vulnerável, e com a fraternidade. Num sentido, apenas elementos de teologia moral e social cristã, e nada de mais. A diferença é reunir esses temas a um senso de urgência informado pela ciência e por uma abertura honesta à realidade. O que, como famosamente se expressou o teólogo protestante Karl Barth, nada mais é do que “pregar com Bíblia numa mão e o jornal na outra”. De fato, o texto do documento, no site do Vaticano, traz um destaque para a declaração abaixo:

“É a primeira vez que nós três nos sentimos compelidos a tratar juntos da urgência da sustentabilidade ambiental, seu impacto na pobreza persistente, e a importância da cooperação global.”

Não posso deixar de observar que nessa louvável e oportuna reconciliação de informação científica, sentido histórico e espírito cristão, me parece inconcebível que cristãos conservadores, por razões políticas, cogitem ignorar ou até desacreditar a mensagem conjunta dos três prelados. Sustentabilidade é assunto de doutrina social cristã. Como o é também o tema do “bem comum”, sobre o qual tratamos frequentemente nessa coluna.

Aos leitores evangélicos menciono uma agravante: o físico John Houghton, um dos maiores climatologistas da história moderna, primeiro presidente do IPCC, que compartilhou com Al Gore e o grupo científico do IPCC o Nobel da Paz em 2007, era um fervoroso evangélico presbiteriano. E ele não mantinha sua fé e sua vida científica em compartimentos separados. Houghton também teve participou da Consulta Global Lausanne sobre o Cuidado com a Criação e o Evangelho na Jamaica, em 2012, que se tornou a declaração oficial da World Evangelical Alliance (WEA) a respeito do assunto. O sexto relatório do IPCC, a síntese do consenso científico sobre a mudança climática hoje, foi dedicado a John Houghton.

A convergência entre católicos romanos, ortodoxos orientais, protestantes históricos e evangélicos já é por si um motivo de celebração; uma convergência entre a doutrina cristã e a consciência científica moderna diante do desafio às nossas portas deve ser celebrada com máxima alegria, preservada com a máxima prudência, e empregada com a máxima diligência.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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