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São Francisco de Assis prega aos pássaros em detalhe do painel “São Francisco recebe os estigmas”, de Giotto.
São Francisco de Assis prega aos pássaros em detalhe do painel “São Francisco recebe os estigmas”, de Giotto.| Foto: Wikimedia Commons/Domínio público

Podem evangélicos ser ambientalmente responsáveis? Penso que o sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, publicado em 9 de agosto, demonstra que sim. Por incrível que pareça, esse relatório – o mais importante resultado científico da ciência climática hoje – foi dedicado a Sir John Houghton, um... evangélico!

O relatório ambiental da década

O relatório IPCC-AR6, produzido pelo Intergovernamental Panel of Climate Change, reúne o mais amplo e fundamentado consenso sobre a mudança climática até o momento. O trabalho envolveu mais de 2 mil especialistas, os maiores climatologistas do mundo, e citou mais de 14 mil artigos científicos. O resumo para formuladores de políticas públicas contou ainda com as reações de 47 governos. Trata-se da ciência de ponta no assunto.

Entre as mais claras conclusões do relatório figura a de que a mudança climática está mesmo ocorrendo de forma acelerada, sem sombra de dúvida, e que terá enorme impacto adverso sobre as nossas sociedades. Nos mais diversos cenários teremos um aumento de no mínimo 1,5ºC até 2030, e talvez mais do que isso, com desastrosos resultados: tempestades e inundações em alguns lugares, como a América do Norte e Europa, e graves secas e crise hídrica em outros, como o Brasil; mortandade de insetos afetando diretamente a produção agrícola, e de recifes de corais; derretimento rápido do permafrost, e subida do nível dos oceanos; e diversos outros efeitos deletérios. Se nenhuma providência for tomada, o aquecimento global pode atingir estratosféricos e calamitosos 4,5ºC até o fim do século.

Houghton não apenas adotava a tese antropogênica para a mudança climática, mas adotava uma leitura especificamente teológica para isso. Segundo ele, “cuidar da terra é uma responsabilidade dada por Deus”, e “não cuidar da terra é um pecado”

Mas além disso o relatório argumenta que a evidência de correlação entre emissões de gases de efeito estufa e essa mudança climática é robusta o suficiente para falarmos com segurança sobre influência humana. O documento afirma que “em 2019, as concentrações atmosféricas de CO2 foram mais altas do que qualquer momento nos últimos 2 milhões de anos”; que “a temperatura da superfície global subiu mais rápido desde 1970 do que em qualquer período de 50 anos ao menos nos últimos 2 mil anos”; e que “as temperaturas na última década (2011-2020) excederam as do mais recente período quente... cerca de 6.500 anos atrás”. O relatório atribui 1,1ºC do aumento de temperatura, desde 1850, à atividade humana, resultando em alterações climáticas irreversíveis no curto prazo.

As conclusões do painel reforçam um consenso já existente sobre o assunto; na página da Nasa sobre a mudança climática global se encontra disponível para todos a informação sobre esse consenso – 97% dos climatologistas que publicam regularmente em revistas de impacto concordam sobre a mudança climática e sobre a influência humana, ainda que em graus diferentes. E 18 das maiores sociedades científicas do mundo têm pronunciamentos a respeito. O mais importante de todos, naturalmente, é o do próprio IPCC.

O homem por trás do relatório

A bem da verdade, Sir John Houghton não foi diretamente responsável pelo sexto relatório; ele já havia se aposentado quando os trabalhos se iniciaram, e faleceu de Covid-19 em abril do ano passado, aos 88 anos. Mas sem ele não haveria relatório nenhum, nem o próprio IPCC. Houghton foi uma das peças-chave na criação do IPCC em 1988, servindo como presidente e vice-presidente do grupo de trabalho que levantou a base científica da mudança climática no campo da física, de 1988 a 2002. Houghton era um cientista de primeira linha, membro da Royal Society e professor de Física Atmosférica na Universidade de Oxford. Assim, o sexto relatório foi dedicado à sua memória.

Mas o caso é que o homem não era apenas um evangélico nominal. Era aquele tipo fervoroso de crente; dizia que a decisão de seguir a Cristo foi a escolha mais importante de toda a sua vida, segundo reportou seu obituário no jornal The Guardian. Nascido na Igreja Batista, fez questão de associar sua carreira científica com o testemunho cristão. Foi associado à Christians in Science, colaborou com o Faraday Institute for Science and Religion, em Cambridge – a “mãe” espiritual da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência – e escreveu sobre a relação entre o cristianismo e a física moderna. Pelo menos um de seus livros populares, Deus Joga Dados?, foi publicado em português (Hagnos, 2003). Quando faleceu, Sir John Houghton era presbítero em uma igreja presbiteriana.

E o que um cientista dessa estirpe pensava sobre as raízes da crise ambiental? Houghton não apenas adotava a tese antropogênica para a mudança climática – e devo dizer, aqui, que sua autoridade científica excedeu em muito a de alguns acadêmicos celebrados no Brasil por negacionistas climáticos –, mas adotava uma leitura especificamente teológica para isso. Segundo o homem, “cuidar da terra é uma responsabilidade dada por Deus”, e “não cuidar da terra é um pecado”. A responsabilidade ambiental seria parte de uma ética cristã integral.

Faz sentido, enfim. Se o ser humano é, segundo a teologia cristã, uma espécie de “sacerdote” da Criação e “vice-rei” com Deus, seria de esperar que seus desmandos gerassem efeitos deletérios. Houghton fala em uma “parceria com Deus”, num artigo da The John Ray Initiative. Isso dava à sua investigação da crise climática uma tonalidade de teologia moral aplicada. Em suas palavras: “Há algo no trabalho da ciência climática que revela a consequência dos nossos pecados, erros daqueles no poder, e que nos convoca a encarar isso, mas também a tomar consciência de que uma alternativa é possível – uma alternativa aos nossos pecados”.

Natureza e imaginação evangélica brasileira

O feliz exemplo de Sir John Houghton nos leva ao tutano do artigo: o que devem os cristãos brasileiros e, particularmente, meus correligionários evangélicos pensar a respeito da questão ambiental?

Em janeiro deste ano publiquei um artigo na Gazeta citando um interessantíssimo estudo científico pela brasilianista Amy Erica Smith (da Iowa State University) com Robin Veldman, publicado no prestigiado Journal for the Scientific Study of Religion, com o título “Ambientalistas evangélicos? A evidência brasileira”, segundo o qual o evangélico típico tem atitude mais positiva para com o meio ambiente do que o resto da população:

“A suposição de que a doutrina evangélica conduz a atitudes antiambientais se sustenta no contexto brasileiro? Nossos dados confirmam que a filiação evangélica e pentecostal não está associada com diminuição da preocupação ambiental no Brasil, como é o caso nos EUA. De fato, em algumas análises, ela está positivamente correlacionada com atitudes ambientalistas (...) outro contraste em relação aos Estados Unidos emergiu: evangélicos e pentecostais brasileiros criticaram a destruição humana do ambiente como pecaminosa, e reconheceram a responsabilidade humana de reverter essas tendências (...) Finalmente, evangélicos e pentecostais também contrastaram com seus contrapartes americanos quanto à compreensão da responsabilidade humana pelo clima e as mudanças ambientais. Brasileiros simultaneamente aceitaram explanações religiosas e científicas/mundanas para essas mudanças, e não apresentaram maior probabilidade de preferir soluções extramundanas em relação a soluções mundanas.”

Se o ser humano é, segundo a teologia cristã, uma espécie de “sacerdote” da Criação e “vice-rei” com Deus, seria de esperar que seus desmandos gerassem efeitos deletérios

Minha impressão geral é idêntica; corresponde aos resultados de Smith e Veldman. No entanto, há poucos dias, divulgando o relatório do IPCC e uma palestra que ministrei a respeito (“Uma resposta cristã à crise ambiental”), deparei-me com inusitada resistência de alguns correligionários evangélicos, mais alinhados com a direita política, à ideia de que a natureza seria a “nossa irmã”. Alguns deles, preocupadíssimos com o risco de panteísmo, ou de excessos poéticos, acusaram “revisionismo”. E nem mesmo mencionar, entre as fontes dessa linguagem, os nomes relativamente ecumênicos de G. K. Chesterton, C. S. Lewis e Francis A. Schaeffer apaziguou os espíritos. Aliás, alguns até embatucaram, surpresos; mas outros dobraram a aposta. Ora vamos, o que há de errado com essa linguagem? Ouçamos Chesterton, um de meus romanistas preferidos, em Ortodoxia:

“O ponto principal do cristianismo era este: que a natureza não é a nossa mãe: a natureza é nossa irmã. Podemos sentir orgulho de sua beleza, uma vez que temos o mesmo pai; mas ela não tem autoridade sobre nós; temos de admirá-la, não de imitá-la”

O que nosso amado escritor propõe é compreendermos que a natureza não pode fazer as vezes de luz divina, substituindo a revelação do Verbo em Cristo, mas tampouco pode ser ignorada, numa espécie de angelismo moderno, como se nós não pertencêssemos a ela de algum modo. Partilhamos da criaturidade com a natureza; somos feitos do mesmo pó que os outros animais. Essa relação equilibrada é, eu creio, o que falta a muitos cristãos. Temendo o risco do paganismo, de confundir Deus com a natureza, ou de dissolver nela a dignidade humana, alguns se elevam em arrogância contra a natureza, como fosse uma ferramenta em seu bolso. Hipertrofiam o discurso do mandato cultural de Gênesis, como se a ordem bíblica para cultivar e guardar o jardim legitimasse o uso instrumental que a cultura secular moderna dá a natureza.

A natureza não pode fazer as vezes de luz divina, substituindo a revelação do Verbo em Cristo, mas tampouco pode ser ignorada, numa espécie de angelismo moderno, como se nós não pertencêssemos a ela de algum modo

Para todos os efeitos, apesar do discurso de que a criação é “de Deus”, a natureza se tornou quase nada para muitos cristãos. Mantemo-la como uma noção oca, um conjunto vazio que não evoca nenhum sentimento e nenhuma indignação diante da relação predatória da civilização contra ela, e nenhum sentido de obrigação. E, se sugerimos que é preciso cuidar de nossa “irmã”... “cuidado!” “Alto lá”. Ora, cuidado com o quê?

O medo de alguns evangélicos não é, realmente, de qualquer panteísmo. O que eles temem mesmo é São Francisco de Assis, o irmão dos pássaros. Podem evangélicos ser irmãos dos pássaros?

Em 1970, quando ainda estávamos na aurora do movimento ambientalista moderno, o evangelista e apologista reformado Francis Schaeffer (fundador da comunidade L’Abri, missão cristã à qual sou filiado) escreveu o livro Poluição e Morte do Homem, convocando os cristãos a uma transformação em sua relação com a natureza. No livro ele refuta a tese do historiador Lynn White de que a culpa da crise ambiental seria dos cristãos, publicada num famoso artigo da revista Science em 1967. Para White, Francisco de Assis, com seu amor pela natureza, seria um maravilhoso exemplo de atitude sadia para com a natureza, mas infelizmente um herege.

É claro que Francisco de Assis não era um herege, nem para católicos, nem para evangélicos. A encíclica Laudato Si’, entre os documentos mais recentes da Igreja Católica, está aí para confirmar. E no campo evangélico temos Schaeffer, um dos patronos do evangelicismo moderno, admitindo que as raízes de nossa crise moral e ambiental estão no desprezo pela natureza, desprezo esse profundamente enraizado na sociedade norte-americana. E a certa altura, mesmo sendo um calvinista, Francis Schaeffer propõe o modelo de Saint Francis:

“Quando encontramos a formiga no passeio, evitamos pisar nela. É uma criatura, como nós mesmos; não é feita à imagem de Deus, mas é igual ao homem, no que tange à criação. A formiga e o homem são ambos criaturas.

Nesse sentido o uso de São Francisco do termo ‘irmãos dos pássaros’ não apenas é teologicamente correto, mas algo a ser intelectualmente pensado e praticamente praticado. Mais, deve ser psicologicamente sentido quando eu encaro a árvore, o pássaro e a formiga. Se isso foi o que a banda The Doors quis dizer quando falou sobre ‘a nossa bela irmã’, isso teria sido belo. Usada corretamente no enquadramento cristão, essa expressão é magnificente. Por que temos cristãos evangélicos ortodoxos produzindo tão poucos hinos colocando esse belo conceito em um contexto teológico apropriado?”

Alguns evangélicos se sentem mal com a ideia da natureza como “irmã” porque, na linguagem de Schaeffer, não se sentem psicologicamente próximos da criação de Deus. Não é apenas um problema de linguagem teológica; é um problema de pathos

No entanto, se dissermos hoje que “a natureza é a nossa irmã”, alguns evangélicos estranharão a expressão. É claro que isso reflete, em alguns casos, a ignorância; mal sabem que G. K. Chesterton, C. S. Lewis e Francis Schaeffer se referiram a ela assim. Em outros casos, trata-se de um tipo de medo defensivo, de um espírito de trincheira. Mas penso que algo mais está acontecendo: alguns evangélicos se sentem mal porque, na linguagem de Schaeffer, não se sentem psicologicamente próximos da criação de Deus. Não é apenas um problema de linguagem teológica; é um problema de pathos. Pois todo mundo sabe o que é ter uma irmã. E essas coisas se sabem com o coração.

E, antes que o leitor incréu sorria diante de minhas invectivas, lembro que a atitude instrumental e afetivamente distante da natureza não é o problema dos evangélicos, mas dos modernos. Indivíduos devidamente laicos e acostumados a tratar os fatos do mundo como coisas sem sentido e sem destino não têm, francamente, direito a resmungos.

Mas o que está errado do lado religioso? Os evangélicos têm uma teologia da natureza ruim ou são infiéis à sua teologia evangélica da natureza? Podem os evangélicos ser irmãos dos pássaros?

O modo correto de tratar cada criatura de Deus sempre começa com a pergunta: o que essa criatura significa para Deus?

Se nos voltarmos às raízes do cristianismo, é certo que podem. A fé cristã anuncia, desde o primeiro artigo do Credo Apostólico: “Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador dos céus e da terra”. Crer em Deus é crer no Criador, e isso significa viver em um universo pessoal, no qual tudo o que existe, existe por causa da pessoa divina. Viver nesse universo significa reconhecer que as coisas do mundo não são fatos brutos, coisas sem sentido e sem propósito. Tudo o que existe, existe por alguma razão.

Isso não significa que nós sabemos a razão exata de cada coisa. Os seres criados não vêm com plaquinhas penduradas neles! Mas está tudo bem, porque o mundo não gira ao nosso redor. O mundo foi feito por Deus e para Deus, e gira ao redor Dele. Então, mesmo que não saibamos articular precisamente todos os sentidos e fins de cada criatura, temos o dever de buscar em Deus a sabedoria para compreender suas criaturas e respeitá-las; pois elas têm dono e destino. O modo correto de tratar cada criatura de Deus sempre começa com a pergunta: o que essa criatura significa para Deus? Por que essa pedra, esse pássaro, essa árvore, essa montanha ou essa estrela estão aí? E, sabendo disso, como eu devo ver e tratar cada criatura de Deus?

Uma nova mentalidade nesse campo nos tornaria “psicologicamente” próximos da natureza. Produziria uma espiritualidade criacional, tendo em suas raízes a gratidão e o louvor a Deus pelas suas criaturas. Pois a glória de Deus se manifesta por meio das coisas que foram criadas, como ensina a Bíblia. Uma espiritualidade criacional envolveria a gratidão diária pela dádiva da criação: pela lua, pelas estrelas, e pela luz do sol que nos desperta de manhã; pelo ar, pela água, pelo chão que pisamos e pelo café da manhã; pelo planeta, pelos montes, pelas árvores, e pelos animais, que nos alegram e nos servem de muitas formas; pelas outras pessoas, mesmo com seus defeitos, e pelos sinais da imagem divina que elas ainda manifestam; pelos nossos casamentos, filhos, pais e famílias; e por todas as coisas boas criadas pelas mãos humanas, e que só existem porque o nosso Criador criou através delas.

Uma espiritualidade criacional e uma correspondente ética do cuidado nos tornariam especialmente sensíveis a um relatório como o do IPCC

Mas a gratidão seria apenas o primeiro efeito; o segundo efeito seria o cuidado. Uma ética do cuidado é o que emerge de uma verdadeira visão da beleza e da fragilidade das coisas – ou seja, da criaturidade das coisas e da glória divina que brilha nelas. Na verdade, não é preciso ser cristão para ver em si mesmo esses efeitos; o que o cristianismo faz é traçar a ligação dos fatos do mundo e desses sentimentos espirituais e morais à sua origem divina, e mostrar ao sujeito a correlação entre Jesus Cristo e os lírios do campo.

Mas o escândalo acontece quando os cristãos, eles sim, que deveriam contemplar essa conexão, fracassam em fazê-lo, reduzindo-se a pagãos adoradores da natureza ou aos seus modernos predadores antropocêntricos.

Uma espiritualidade criacional e uma correspondente ética do cuidado nos tornariam especialmente sensíveis a um relatório como este do IPCC. E aqui cabe uma nota de gratidão: em seus melhores momentos, e com a mente desanuviada, os evangélicos podem, sim, ser irmãos dos pássaros e de todo o planeta. E é por isso que o sexto relatório do IPCC foi dedicado a um evangélico.

No entanto, resta ainda um enigma: se os resultados de Smith e Veldman estiverem corretos, o evangélico brasileiro típico não estaria tão distante, nos sentimentos, de Sir John Houghton. Mas alguns, especialmente os mais ativos no debate público, estão bem distantes. E, aparentemente, o que está corrompendo sua alma, nos EUA e também aqui, é o debate político. A sede de polarizar está se sobrepondo à imaginação teológica sadia e natural. Nesse caso, não é por serem excessivamente religiosos ou fundamentalistas que alguns evangélicos resistem à responsabilidade ambiental, desconfiando de São Francisco ou de John Houghton. Suspeito que a verdade seja exatamente o oposto: não se trata de excesso de evangelho, mas da sua falta.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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