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Se há Esperança, precisamos plantar árvores
| Foto: eko pramono/Pixabay

O filósofo americano Nicholas Wolterstorff escreveu, em certa ocasião, que o otimismo não é necessário para ter propósitos e agir no mundo, mas a esperança, pelo contrário, é indispensável. O socorrista do Samu não precisa ser otimista para tentar salvar alguém retirado das ferragens de um automóvel acidentado; precisa apenas julgar que há uma pequena probabilidade de salvamento, e isso será suficiente para que ele faça o melhor possível. Por outro lado, se suas ações se baseassem no otimismo, ele jamais se arriscaria a fazer atendimentos sem alta probabilidade de sucesso.

Isso não significa que o otimismo não possa ser útil, em alguns casos; mas é certamente acessório. Essencial é a esperança: sem ela o resgate é cancelado e passamos à limpeza da estrada.

“Trabalhar pela justiça não requer, em meu julgamento, o otimismo; frequentemente alguém trabalha pela justiça, e é chamado a fazê-lo, em situações como a do socorrista de ambulância que tenta ressuscitar seu paciente sem expectativa de sucesso. O que esse trabalho requer é a esperança – esperança de um tipo peculiar.”

Não é só a luta pela justiça que pressupõe alguma esperança, alguma visão realista ou utópica de um futuro possível, mas a luta por quaisquer bens e valores nesse mundo de Deus

O argumento de Wolterstorff é de que lutar, não pela justiça em uma demanda particular, mas pela justiça mais ampla, a justiça “no mundo”, é uma expectativa distintamente cristã ou, no que se refere à grande e hegemônica narrativa do moderno Estado Democrático Liberal de Direito, um empréstimo judaico-cristão, uma versão secularizada da grande esperança bíblica de uma reconciliação divina e universal.

A grande diferença, nessa passagem à modernidade secular, é que as esperanças modernas supõem, de algum modo, que forças internas à natureza e à história finalmente nos conduzirão ao nosso destino bem-aventurado, como um desdobramento orgânico, um florescimento de potenciais já presentes no mundo, segundo o princípio aristotélico da plenitude. Essa é a lei dura de todas as utopias políticas, que assim ocultam, com maior ou menor sucesso, as suas almas prometeicas. Ela habita o espírito do progressismo e do tecnicismo moderno.

Não preciso lembrar que na perspectiva cristã há um abismo infinito entre nós e o paraíso. Podemos melhorar nossas vidas, mas um mundo novo só pode ser uma Nova Criação, e o “Novo Homem”, ho kainos anthropos, como dizia o apóstolo Paulo, só Deus pode criar.

Mas chega de filosofia da história. Nosso assunto por esses dias tem sido a questão ambiental, e quanto a ela também não é possível agir sem esperança. Não é só a luta pela justiça que pressupõe alguma esperança, alguma visão realista ou utópica de um futuro possível, mas a luta por quaisquer bens e valores nesse mundo de Deus. Sustentabilidade e conservação ambiental exigem esperança.

Naturalmente, algumas pessoas não se importam muito com a questão climática porque não acreditam que a crise seja real, ou entendem que o ser humano não tem influência suficiente para causar ou evitar mudanças climáticas. Essa é uma questão de natureza científica, e não moral (muito embora tais negações, quando baseadas num espírito anticientífico, sejam moralmente questionáveis), e assumindo benignamente que algumas pessoas pensem assim, hoje, por não entender como a ciência moderna funciona, ou por nada conhecerem além de entrevistas negacionistas no Jô Soares, ou, talvez, por terem uma honesta e plausível divergência com o discurso hegemônico, poderíamos dizer que para tais pessoas a questão da esperança não figura nesse campo, não tem serventia à discussão.

Mas esse não parece ser o caso da maioria dos brasileiros. E, segundo mencionamos em nossa última coluna, para muitos deles há, pelo contrário, uma expectativa bastante catastrófica de que o nosso mundo perecerá numa grande conflagração apocalíptica, sendo uma grande parcela dessa crise feita de desastres climáticos de proporções globais. E aí surge a questão: se Deus há de destruir o mundo pelo fogo em um juízo final, qual é o ponto de lutarmos para frear a mudança climática e as extinções em massa?

Pessoas sem Deus, mas de bom coração podem ser moralmente melhores que fundamentalistas apocalípticos, mas não são muito mais coerentes que eles

É nesse ponto, curiosamente, que a “esperança cristã” em um paraíso futuro, uma “Nova Criação” na qual habita a justiça, começa estranhamente a se parecer com uma desesperança. Uma desesperança, ao menos, no futuro deste planeta e na utilidade de nossos esforços para cuidar dele. E, antes que os desprezadores cultos se manifestem, devo lembrar que na ausência ou inexistência de Deus, uma vida humana, animal ou vegetal vale tanto quanto um cascalho, e que nosso planeta será engolido pelo Sol em cerca de 5 bilhões de anos. Assim, pessoas sem Deus, mas de bom coração podem ser moralmente melhores que fundamentalistas apocalípticos, mas não são muito mais coerentes que eles.

Mas voltemos ao ponto: será mesmo essa a esperança cristã? É claro que não é. O pessimismo apocalíptico que se tornou popular no século 20 não reflete a esperança cristã clássica, muito menos a fé presente nas Escrituras bíblicas. Basta considerarmos alguns dogmas centrais do cristianismo. A Encarnação, por exemplo; não implica ela que Deus se casou com a matéria? E mais, até: Deus se uniu ao fluxo de vida biológica deste planeta. Com tudo o que sabemos hoje sobre a evolução da vida e a interdependência biológica em nossa biosfera, isso traz implicações extraordinárias.

Eu gostaria de chamar a atenção do leitor para o tema bíblico da ressurreição de Cristo. O túmulo vazio indica haver, a despeito da descontinuidade, uma continuidade entre a vida presente e a vida na Nova Criação de Deus. Os cristãos não aguardam a “vida após a morte”, como o bispo N.T. Wright gosta de se expressar, mas a “vida após a vida após a morte”. A esperança cristã aguarda um mundo renovado, não substituído. Como isso se dará, não fazemos a menor ideia, mas isso não é essencial; o túmulo vazio abre um horizonte novo, que toca a história, mas que não resulta de suas possibilidades internas.

Volto a Wolterstorff: se há esperança, temos um motivo para agir. E aqui recuperamos o verdadeiro sentido da escatologia cristã: não se trata de uma especulação curiosa e macabra sobre os modos pelos quais Deus fritará suas criaturas rebeldes, como frequentemente resultam as escatologias pessimistas que discutimos em nosso último artigo. Trata-se, antes, de uma antevisão da vitória de Deus, antevisão essa que abre horizontes de paciência e perseverança. O ponto da escatologia cristã é explicar por que não devemos nos cansar de fazer o bem.

A despeito de minhas repetidas leituras desse longo capítulo bíblico sobre a fé na ressurreição dos mortos, o capítulo 15 da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, não foi de uma vez que fui acordado para as suas implicações éticas. O sono do pessimismo escatológico anuviava as minhas vistas. Mas enfim tomei consciência dessas implicações espetaculares:

“Mas, quando o que perece se revestir do que é imperecível, e o que é mortal se revestir do que é imortal, então se cumprirá a palavra escrita:
A morte foi engolida pela vitória.
Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.
Mas graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.
Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre atuantes na obra do Senhor, sabendo que nele o vosso trabalho não é inútil.” (1 Coríntios 15,54-58)

O amor não contempla resultados imediatos, mas o próprio bem e a fidelidade divina

Que visão é essa, do nosso apóstolo? Que, de algum modo que escapa às criaturas, as boas obras dos cristãos fazem parte do futuro que Deus está a trazer. Não no sentido de que elas efetivamente causam esse futuro divino, mas que elas são também tocadas, lembradas e incorporadas por ele. Isso significa que, no horizonte da esperança, vale a pena buscar o bem porque Deus tem um compromisso com ele, e não porque sejamos grandemente eficientes.

Isso tem implicações, por exemplo, para a questão ambiental. Na perspectiva cristã, o fato de termos boas chances de desacelerar a crise climática e a extinção em massa não deixa de ser uma fonte de esperança imediata, num sentido lato, e que pode justificar a ação responsável. Mas, mesmo que tais cálculos pragmáticos falhassem, ainda haveria razões de ordem superior para o cuidado do planeta e de suas criaturas. Porque o amor não contempla resultados imediatos, mas o próprio bem e a fidelidade divina.

Se o túmulo vazio é a esperança de que a própria criação será “libertada do cativeiro da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus”, como diz Paulo em sua Carta aos Romanos, sabemos que nossos trabalhos em sustentabilidade e conservação, se feitos em nome de Cristo, não são inúteis. Nenhuma luta pela justiça e pela proteção do jardim de Deus será inútil no horizonte da esperança. Diz N.T. Wright:

“Negar uma paixão cristã pelo trabalho ecológico, por colocar o mundo em ordem à medida que nos é possível neste momento, é negar a bondade da criação, o poder de Deus na ressurreição e no Espírito ou, possivelmente, negar a ambos...”
“Não sei como uma árvore que plantei hoje terá ligação com as árvores maravilhosas que estarão no mundo recriado de Deus. Não sei como meu esforço pela justiça para os pobres, pelo perdão de dívidas globais, reaparecerá nesse novo cosmos. Contudo, sei que o novo mundo de Deus de justiça, alegria e esperança para toda a terra começou quando Jesus saiu do túmulo na manhã de páscoa... A sua ressurreição e o dom de seu Espírito significam que somos chamados a criar sinais reais e eficazes da criação renovada de Deus, mesmo no meio da era presente.”

Para além da ciência e do negacionismo científico, para além das opiniões corretas ou incorretas sobre o estado da criação, cristãos podem concordar que amar e cuidar do jardim de Deus sempre vale a pena

Acompanho o bispo Wright aqui. Corretamente compreendida, a esperança cristã cria, na verdade, um imperativo pela sustentabilidade e pela conservação. Ela garante que nossos esforços não serão inúteis, independentemente de sua eficiência imediata. Isso não elimina a consideração responsável pela eficiência imediata, mas cria uma redundância moral que é de grande importância; um motivo espiritual e supracientífico para uma ética do cuidado. Ela significa que, para além da ciência e do negacionismo científico, para além das opiniões corretas ou incorretas sobre o estado da criação, cristãos podem concordar que amar e cuidar do jardim de Deus sempre vale a pena.

Como diz Wright, “O que estamos esperando? Jesus está voltando. Vamos plantar essas árvores”. Essa é uma mensagem que precisa ser levada a cada cristão contemporâneo, católico ou evangélico. Atos de serviço e cuidado das criaturas de Deus não são apenas expressões de amor, mas demonstrações da esperança cristã. E nosso país carece desesperadamente dessas demonstrações.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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