Uma das teses centrais do bolsonarismo é que a Covid-19 veio para ficar, e que devemos aprender a conviver com ela. Bolsonaro vem insistindo nisso desde março de 2020, quando tivemos o primeiro registro de contaminação no Brasil. A partir disso ele semeou a falsa dicotomia entre a proteção das vidas e a preservação da economia, atribuindo aos outros a intenção de deliberadamente boicotar seu governo, atrasar o avanço do país e fechar postos de trabalho. Se as pessoas vão se contaminar de um jeito ou de outro, por que impor medidas restritivas?

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Para validar isso, houve até a perversão do conceito de imunidade rebanho.  Com a doença solta e contaminando as pessoas, logo a maioria da população seria exposta e ganharia resistência de modo que a pandemia se encerraria de forma natural. É por isso que Bolsonaro chegou a dizer que a melhor vacina é o vírus.

Ora, tendo em vista o alto grau de transmissibilidade da Covid-19, se prevalecesse essa ideia, mesmo a minoria dos contaminados que fossem a óbito já seria um conjunto elevado de pessoas. Se a letalidade da doença é cerca de 2,9%, quanto isso representaria dentro de um universo de 210 milhões de pessoas? É só fazer o cálculo para chegar à conclusão óbvia de que seria uma política genocida que acarretaria no sacrifício de milhões de vidas.

A única imunidade de rebanho que pode ser atingida é com a ampla vacinação da população. E nesse aspecto, o governo Bolsonaro se coloca não como solução, mas empecilho. O fracasso na celebração de contratos com laboratórios colocou o país no fim da fila de fornecimento global. Bolsonaro e seu Ministro da Saúde parecem ver maior risco nas cláusulas contratuais da Pfizer do que nas novas cepas do coronavírus que varrem o Brasil levando a uma mortandade inédita.

Na última semana, novas medidas restritivas foram tomadas por governadores de modo a frear o avanço da pandemia no país. O sistema de saúde entrou em colapso na maioria das capitais brasileiras, inclusive nas mais desenvolvidas. Enquanto isso, no Palácio do Planalto, Bolsonaro divulgava fake news sobre a utilização de máscaras e mistificava sobre o repasse de verbas da União para os entes federados. Em outras palavras: boicotava medidas sanitárias básicas e lavava as mãos em relação a sua própria responsabilidade de governante, como se distribuir os recursos que por direto são de outros fosse um gesto de caridade.

O governo Bolsonaro se eximiu de seu papel de coordenar os esforços nacionais de combate à pandemia. Apostou na guerra política permanente, como se fosse ele o alvo de uma conspiração de eventuais concorrentes na eleição de 2022. Estados e Municípios foram abandonados à própria sorte. De tal modo que agora buscam formas de adquirir vacinas por conta própria.

Essa semana foi divulgado o resultado consolidado do PIB em 2020. Com menos 4,1%, trata-se da maior queda da história.  Se não atuarmos contra o vírus por meio da imunização em massa, o ano de 2021 tenderá a repetir esse desempenho desastroso.

Salvar vidas é a melhor e única proteção para a economia. Afinal, a atividade econômica é, essencialmente, uma ação humana, para ficar com a expressão usada por Ludwing Von Mises em sua obra magna. Como falar em crescimento do PIB com um vírus descontrolado matando mais de mil pessoas todos os dias? Como falar em desenvolvimento com a força de trabalho paralisada pelo crescimento do contágio? Como falar em investimentos e criação de negócios sem qualquer perspectiva de estabilidade e previsibilidade?

É preciso combater a ideia macabra de uma peste normatizada. Não existe convivência possível entre estado pandêmico e economia pujante. O coronavírus precisa ser controlado, e não virar novo imperativo categórico da nossa sociedade, como desejam os negacionistas no poder.

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