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Revi essa semana o famoso debate do 2° turno da eleição presidencial de 2006 que contrapôs Geraldo Alckmin e Lula pela primeira vez. Sob enorme tensão, o encontro dos então concorrentes fora precedido por um episódio insólito e nebuloso: a descoberta de um dossiê fajuto que buscava implicar José Serra no escândalo da máfia dos sanguessugas, esquema de corrupção em se fraudava a venda de ambulâncias. A Polícia Federal interceptou integrantes da quadrilha em um hotel em SP. No local foram apreendidos fotos, um DVD e também 1,7 milhão em espécie, sendo uma parte em reais e uma parte em dólares. Em depoimento, o advogado e ex-policial Gedimar Pereira Passos, que foi segurança de Lula, afirmou que fora “contratado pela Executiva Nacional do PT” para comprar documentos contra tucanos, e que teria sido contatado por Freud Godoy, assessor pessoal do candidato petista.

A primeira pergunta de Alckmin para Lula foi exatamente sobre a montanha de dinheiro. “Olhe nos olhos do povo brasileiro, candidato Lula, e responda: de onde veio o dinheiro?”. Lula tergiversou e não respondeu. Em 2015 a denúncia viria a ser arquivada, mas nunca houve uma explicação para origem daqueles recursos empilhados em cima de uma mesa. Com o decorrer do tempo, a história caiu no esquecimento. Inclusive para Alckmin, que pretende voltar a se encontrar com Lula, mas agora em um contexto mais harmonioso: ambos foram convidados para um jantar com políticos promovido por um grupo de advogados. Serão as estrelas da noite, já que há uma articulação crescente para que componham uma chapa presidencial.

À época chamado de “fascista” pelos setores mais radicais do lulopetismo, Alckmin agora ressurge como sonho de consumo para ser vice. A manobra é astuta, uma vez que daria a Lula alcance e viabilidade entre o eleitorado de centro, necessário tanto para atrapalhar o crescimento de uma terceira via quanto para vencer Jair Bolsonaro. O ex-governador de São Paulo serviria como uma espécie de nova carta ao povo brasileiro.

Empurrado para fora do PSDB por João Doria, de quem foi padrinho político, Alckmin parece ter gostado da ideia a ponto de ter colocado a pretensão de voltar a disputar o Palácio dos Bandeirantes em segundo plano. Mas será que seu descontentamento é bom conselheiro?

Apesar do esforço de muitos, a eventual aliança com Lula não será encarada como um entendimento com alguém com quem tinha mera divergência de opinião. Naquele debate de 2006, ambos trocaram acusações pesadas de acobertamento de casos de corrução. Alckmin bateu no esquema do Mensalão, e Lula falou do arquivamento de CPIs no governo paulista.

Há em curso a tentativa de passar uma borracha no passado e normatizar a aproximação política dos antigos adversários. Não será fácil. Em 2017, quando foi alçado à presidência de seu ex-partido, Alckmin disse que “depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder, ou seja, ele quer voltar à cena do crime”. Quem diria que em 2022 o plano do petista poderá ser viabilizado tendo esse mesmo Alckmin como principal cabo eleitoral?

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