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A Paulo Guedes restou apenas o repertório das palestras, que continua dando, ainda que para plateias cada vez mais céticas e menos empolgadas. Ele ainda tem a capacidade de gerar efeitos, entretanto. Outrora, quando ainda era Posto Ipiranga, sua voz continha um encantamento absoluto. Quase como a do mago Saruman, de o “Senhor dos Anéis”. O personagem criado pelo linguista J.R.R Tolkien usava a retórica como ardil, causando a indução e o desengano pelo deslumbramento.

“Os que escutavam aquela voz incautos raramente admiravam-se, já que pouco poder restava nelas. Na maior parte só recordavam que era um deleite ouvir a voz falando, que tudo o que dizia parecia sábio e razoável e despertava neles o desejo de, por rápida concordância, parecerem sábios eles mesmos. Quando outros falavam, pareciam rudes e impolidos por contraste; e, se contradiziam a voz, a ira se inflamava nos corações dos que estavam sujeitos ao seu encanto (…) Para muitos, o simples som da voz bastava para mantê-los subjugados; mas para aqueles que ela conquistava, o encanto perdurava enquanto estavam longe, e ouviam sempre aquela voz macia sussurrando-lhes e estimulando-os”. Traduzida para o mundo real, essa passagem do livro poderia muito bem servir de descrição para o efeito que Guedes exerce sobre aquela gente que adulava o touro dourado da B3.

No último dia 30 de novembro, o ministro da Economia participou de um evento na Câmara Brasileira da Indústria da Construção. Disse que a economia brasileira está “condenada” a crescer em 2022, e que “as previsões de que não vai ter crescimento são exageradas”. Não se sabe se alguém presente acreditou no que foi dito, mas dois dias depois a realidade se impôs quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apresentou os números do PIB do 3° trimestre: queda de 0,1%, o que representa retração na comparação com os três meses anteriores.

Eis que a tão falada “retomada em V”, propalada em prosa e verso por Guedes, vai se convertendo em recessão técnica em V. É um prodígio que em pleno ano que seria de recuperação o Brasil tenha um resultado negativo como esse. E não, não se trata de uma realidade global. Na América Latina no mesmo período, o Chile cresceu 5,7%, e a Colômbia 4,9%. Segundo projeção da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o PIB do país será inferior ao do restante do mundo tanto em 2021 quanto em 2022.

Ao contrário do que o bolsonarismo tenta vender, a depreciação geral dos indicadores econômicos não é fruto da pandemia ou do “fique em casa”, e sim das escolhas do governo, que só pensa na agenda eleitoral. Nos últimos meses, o Palácio do Planalto, em sociedade com o centrão fisiológico, promoveu a aceleração da devassa sobre a âncora fiscal. A PEC dos Precatórios, aprovada no Congresso Nacional, institucionalizou o furo no teto de gastos e também estabeleceu um precedente que, na prática, anula os avanços promovidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Governado por caloteiros e gastadores contumazes, o Brasil vê crescer a incerteza sobre seu futuro. Diante dos indicadores alarmantes, o Ministério da Economia culpou São Pedro e argumentou que “mais importante” é a “qualidade” do crescimento. Qualidade num crescimento de - 0,1%? Não faz o menor sentido. Alguém aí consegue ouvir a voz de Paulo Guedes ao fundo sussurrando suas falsas expectativas? Mesmo diante do desastre consolidado em números, há ainda quem se encante com o palavreado do conjurador da Escola de Chicago.

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