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Imaginado para simbolizar a pujança da economia brasileira, o Touro de Ouro na frente da B3 só consegue ser sintoma da jequice e da viralatice inerentes a setores de nossa elite.

Gente que gostaria de ser americana, mas que, por culpa do destino, acabou nascendo no Pindorama.

A obra é uma cópia mal-acabada do famoso Charging Bull, situado em Wall Street, o centro financeiro de Manhattan. Como o dólar está caro, e fica difícil ir à Nova York visitar o original, nos resta essa versão nacional. Mais ou menos como tirar fotos na frente de uma Estátua da Liberdade da Rede Havan.

Parte considerável da esquerda ainda considera que o mercado de capitais representa a suprema opressão da burguesia sobre os miseráveis. É daí que nascem movimentos radicais como o Occupy Wall Street. Não faz muito, integrantes do MTST e da Frente Povo Sem Medo invadiram a Bolsa de Valores de São Paulo. Protestavam contra o desemprego e a inflação. Ao contrário do que sustentam, o livre comércio é altamente benéfico para os mais pobres, e também para a atenuação das diferenças sociais. Há vasta bibliografia, bem como dados estatísticos que sustentam isso.

Mesmo assim, para além da estética questionável e do sentimento de narciso às avessas (para ficar com a frase lapidar de Nelson Rodrigues), o tal Touro de Ouro não poderia vir em hora mais inadequada. Afinal, enquanto os traders fazem fila parar tirar foto ao lado da estatua opulenta, gente comum faz fila para comprar ossos de modo a ter o que comer. O deslumbramento com a própria riqueza num momento de necessidade de grande parte da sociedade ganha contornos de deboche macabro.

Estamos diante de um caso clássico de desprendimento da realidade, de alienação do que se passa no restante do país. Se é injusto condenar o capitalismo pelo infortúnio do humildes, não é injusto condenar o mau gosto dos idealizadores do objeto na escolha do momento para sua inauguração.

Nesta semana, Jair Bolsonaro anunciou que pretende conceder aumento para o funcionalismo federal. É a mais nova despesa pretendida pelo governo. Some-se a ela o valor já reservado para o Auxílio Brasil anabolizado eleitoralmente, a desoneração na folha de pagamentos, o subsídio para os caminhoneiros, as despesas previdenciárias, dentre outras possíveis destinações.

Nem mesmo o espaço fiscal de R$ 91 bilhões gerado pela maquiagem da PEC dos Precatórios é possível acomodar todo o apetite e volúpia voraz pela gastança.

Se depender da vontade do presidente e da genuflexão ideológica de Paulo Guedes, até o furo do teto será furado. É o furo transcendente, o furo metafísico, o furo quântico. Por ele se esvai a expectativa de crescimento da economia, deprimida pela farra fiscal sem paralelos. O Produto Interno Bruno vem sendo revisado negativamente, e analistas e organizações importantes  já especulam um cenário recessivo para o país em 2022.

O Touro de Ouro dos traders, assim como o bezerro dos hebreus, é apenas uma fraude. Afinal, os tempos são mesmo é de vacas magras.

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