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Foto de Gabriela Biló/ Estadão
Foto de Gabriela Biló/ Estadão| Foto:

Sérgio Moro demitiu-se do cargo de reserva moral de um projeto imoral. A opinião do eleitorado sobrevivente agora se divide entre os bolsonaristas da realpolitik e os lavajatistas categóricos. Desde a campanha, as tribos guerreavam juntas. Hoje, guerreiam entre si. Disputam o controle narrativo da vingança e administram a massa falida do mandato.

O rompimento (que muitos percebiam inevitável) faz de Bolsonaro vítima do que tem de pior: sua própria biografia. Está entregue e reduzido a si mesmo. Com isso, o governo – na versão em que foi eleito – acabou. O que continua é o instinto de sobrevivência travestido de baixa política.

Mas e o próprio Sérgio Moro nessa história? Santo não é. Emprestou a um candidato de veleidades fascistas o prestígio acumulado na Operação Lava Jato. Foi o avalista de votos e credibilidade de quem não merecia votos nem tinha credibilidade. A relação, mais que de coincidência ideológica, era de cumplicidade fisiológica. Um novo jeito de fazer o velho.

Portanto, o chefe do Executivo sai aleijado dessa batalha fratricida, mas o ex-ministro também tem pecados veniais e capitais a confessar e a expiar. A última coisa de que precisamos é esculpir, das sobras de um totem recém destruído, outro novíssimo ídolo.

Tentado três vezes no deserto da política brasileira, Moro não resistiu.

A primeira tentação veio à tona com o material do site The Intercept. Houve comprometimento, sim, da operação. Ainda que eu aposte na responsabilidade objetiva de Lula e do PT nos crimes de que foram acusados, direito se faz com provas irrefutáveis, com presunção de inocência, com garantias legais e com processo insuspeito. No zelo de fazer justiça, não fez direito. Com isso, penhorou sua imparcialidade e injetou ânimo num organismo doente. O irônico resultado do jacobinismo lavajatista: Lula está solto, o Brasil está preso a Bolsonaro.

Então, bastou esperar o inevitável convite de um governo que se aproveitara justamente de seu trabalho. Convite feito, convite aceito. Em novembro de 2018 critiquei a decisão. Legal, mas nada ética. Moro colocou sub judice suas verdadeiras intenções. Poderia cair a qualquer momento, ou meter-se nas reviravoltas de que a política é feita. Deu no que deu. Foi a segunda tentação.

Até que foi tentado uma terceira e última vez: ao romper o tempestuoso casamento entre a fome da hipocrisia com a vontade de punir, abriu fogo. Acusou o mandatário de crimes. Confirmou interferências graves. Cuspiu no prato do qual fartamente comera. Saiu maior do que o chefe somente porque o chefe é pequeno demais para ombrear com alguém.

O ex-presidente em exercício terá muito a explicar nas próximas semanas, e o tique-taque do impeachment já vai acordando a vizinhança. Mas o presidenciável em campanha foi sócio de quem acusa. Foi companheiro de armas. Tapou os ouvidos quando poderia ter escutado. Emudeceu quando deveria ter gritado. Fez vista grossa quando precisava arregalar os olhos. Desconversou quando era seu dever admoestar.

“Dois errados não fazem um certo”, dizia minha mãe.

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