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Jardim Botânico é um exemplo de acupuntura urbana, ação que promove a saúde da cidade.
| Foto: Hully Paiva/SMCS

Este famoso enunciado da década de 1970 desde então tem sido repetido com diversos alcances e significados. O mais óbvio, que devemos nos preocupar com os dilemas planetários e, ao mesmo tempo, agir concretamente no microcosmo de cada dia – a somatória dos grãos de areia pode mover montanhas.

Utopia ou ilusão? Como urbanista e várias vezes prefeito de Curitiba, tenho cá comigo que não só temos grãos de areia ao nosso alcance, como também a capacidade de modelar estes grãos em luminosos exemplos de mudanças e transformação.

Pensemos: a maioria da população mundial vive nas cidades; se pudermos realizar pequenas mudanças em cada uma delas, será meio caminho andado. Aqui entra um conceito simples, porém estratégico, o das ‘acupunturas urbanas’. O princípio de recuperar a energia de um ponto - ferido ou não - por meio de um simples toque, irradiando uma revitalização da área ao seu redor e o despertar de novos olhares das pessoas.

O planejamento urbano abrangente (think global no âmbito da cidade) sempre será importante para as cidades no médio e longo prazo, mas não gera transformações imediatas. Quantas obras importantes levam demasiado tempo, às vezes atravessando mandatos e gerações?

Muitas cidades estão doentes, algumas em estado terminal, e assim como a medicina necessita da interação entre médico e paciente, em urbanismo também é preciso fazer a cidade reagir. Sempre me perguntei por que determinadas cidades conseguem fazer transformações positivas, encontro variadas respostas, mas uma delas é comum a muitas cidades inovadoras: porque nelas se propiciou um despertar, uma centelha e a subsequente irradiação – uma verdadeira acupuntura urbana.

Um grande exemplo aqui em Curitiba é a ‘Ópera de Arame’, síntese de uma boa acupuntura urbana: obra barata e rápida, levantada em 60 dias; curou uma ‘ferida urbana’ – uma antiga pedreira desativada; tornou-se símbolo e endereço do Festival de Teatro, hoje entre os mais importantes do País, dando impulso extraordinário à vida cultural; revitalizou toda a vizinhança; e, principalmente, presenteou a população com um cenário especial de convivência e encontro.

Exemplo inusitado é a estufa do nosso Jardim Botânico: você já se deu conta como ela é pequena, mas notável? Virou símbolo natural da cidade, cartão- -postal, cenário predileto das noivas, ‘luminária de Curitiba’, enfim - faz um bem danado para as nossas almas...

O mundo está repleto de boas acupunturas urbanas, sejam obras físicas ou ações imateriais; intencionais ou espontâneas; de cunho cultural, artístico, ambiental ou de resgate histórico; com toque de genialidade ou com surpreendente simplicidade. A adesão da maioria dos cidadãos de Curitiba ao ‘Lixo que não é Lixo’ é prova que podemos, sim, começar em casa.

Mas as melhores acupunturas urbanas são, de longe, os gestos de amor à cidade de cada habitante... tomo aqui a liberdade de citar trechos do último capítulo do meu livro ‘Acupuntura Urbana’:

‘Que tal se cada agulhada da acupuntura for um gesto de amor à sua cidade? Comece desenhando a sua cidade. Desenhe a sua vizinhança e marque aquelas pessoas que você conhece. Cumprimente-as pelo nome (...). Compre nos armazéns e locais onde os donos e famílias estão atendendo, pegue o ônibus próximo e cumprimente o motorista, o cobrador e os vizinhos (...). Você tem uma turma de bate-papo, um café ou bar que é seu ponto? Ótimo (...). Você tem na memória a cidade como ela era, você não faz questão de junk-food, assiste a filme em um cinema de rua, comenta depois com os amigos num restaurante? Meus parabéns! Você é um cidadão curado pela acupuntura urbana.

Boas agulhadas a todos neste Natal!

Jaime Lerner, com créditos aos arquitetos Domingos Bongestabs (Ópera de Arame) e Abrão Assad (Jardim Botânico); e ao engenheiro Nicolau Klüppel, in memoriam (‘Lixo que não é Lixo’)

contato@jaimelerner.com

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