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Foto de Abrão Assad ao lado de Jaime Lerner.
Abrão Assad e Jaime Lerner, na inauguração do segundo trecho da Rua das Flores, em 1973.| Foto: Gilberto Pires/Arquivo

Naquela manhã, ele caminhava no Bosque do Papa. Lucimar, ao cumprimentá-lo, disse ser minha sobrinha. Sorridente, Jaime exclamou: Ah, sim! O Abrão é o meu quarto melhor amigo! Penso eu que os seus três primeiros melhores amigos seriam, por ordem alfabética, Caio, Deiró e Lechinski.

Amizade à parte, muito mais que bons amigos fomos, isto sim, parceiros de fé antes mesmo dele ser prefeito. Juntos, conquistamos prêmios em diversos concursos nacionais e internacionais de Arquitetura e Urbanismo. No entanto, quando fomos convidados para solucionar o intrincado problema de mobilidade da cidade de Xangai, nem mesmo o “Destrofagador de Bertuges”, dispositivo por ele inventado para combater causas impossíveis, deu conta do recado.

Postal enviado por Jaime Lerner a Abrão Assad.
Postal enviado por Jaime Lerner ao amigo arquiteto Abrão Assad, em 1971.| Reprodução

Mas Jaime Lerner sempre teve uma boa estrela; então, por sorte ou destino, assumiu a Prefeitura de Curitiba! Naquele início dos anos 1970, nossa cidade desabrochava timidamente, muito comedida e sem grandes atributos. Por isso, não tendo quase nada… foi possível fazer tudo! Ter um bom arquiteto prefeito fez, sim, toda a diferença.
Assim sendo, religiosamente, Jaime saía de sua casa na Rua Bom Jesus e, antes de ir ao IPPUC, ali perto, passava no meu escritório, na João Gualberto, para acompanhar o desenvolvimento do projeto da Rua XV, e observar os protótipos ali instalados, nos jardins do antigo casarão.

Antes do projeto da Rua das Flores, fiz lá também o projeto do Teatro do Paiol em apenas quinze dias, todo a mão livre em função da urgência de se iniciar a obra de reciclagem daquele antigo depósito de pólvora, que corria risco iminente de desabamento de sua estrutura. As circunstâncias políticas de então expunham o cargo de prefeito a uma delicada e frágil estabilidade. Acredito que o sucesso da XV tenha-lhe sido favorável.

A chance de poder fazer, e o que, e como fazer… e rápido fez, sim, toda a diferença; e era o que nos movia! Jaime sempre dizia: é preciso fazer acontecer!

Ilustração dos projetos realizados por Abrão Assad em Curitiba.
Ilustrações dos projetos arquitetônicos em Curitiba assinados por Abrão Assad. Em cima, da esquerda para a direita, o Teatro Paiol, a Rua das Flores e as estações tubo. Embaixo, no mesmo sentido, a Rua 24 horas, o Jardim Botânico e o Paço Municipal, hoje Museu Paranaense.| Reprodução

Sendo assim, pude, ao longo destes 50 anos, com a equipe do meu escritório, realizar como arquiteto, urbanista e escultor, importantes projetos que deram cara a Curitiba, tais como o Teatro do Paiol, primeira obra autorizada pelo prefeito Jaime Lerner em 1971; a emblemática Rua das Flores em 1972; o restauro do histórico Paço Municipal (Museu Paranaense) em 1973; a revolucionária Estação Tubo em 1989; a tribal Rua 24 Horas em 1990; e, em 1991, o admirável Jardim Botânico.

Nada disso foi por acaso ou por mera coincidência! Como autor destes projetos tive clara intenção de criar para Curitiba nos anos 1970 equipamentos urbanos que a tornassem aprazível e identificável. Nos anos 1990, com recursos tecnológicos mais sofisticados, foi possível desenvolver novos projetos com a intenção de motivar e definir nossa arquitetura, até então sombria e, principalmente, suprir e enriquecer a demanda urbana.

Croqui do Jardim Botânico, por Abrão Assad.
Croqui do Jardim Botânico de Curitiba, assinado por Abrão Assad e realizado durante o mandato de Jaime Lerner como prefeito.| Reprodução
Croqui do Jardim Botânico, feito por Abrão Assad.
Mais um croqui do Jardim Botânico de Curitiba, assinado por Abrão Assad.| Reprodução

Tais equipamentos foram concebidos em aço e vidro, com o principal objetivo de edificar espaços leves e transparentes e, assim, não tolher a paisagem urbana, tornando-os ícones de toda a cidade e símbolo do lugar.

Jaime dizia bem-humorado que formávamos um dueto. Fizemos belas parcerias; ele prefeito, eu arquiteto; ele papel, eu lápis! Plantamos boas sementes. É preciso cuidar dos frutos e atentar para as ervas daninhas. Também valorizar e preservar o que deu certo, pois não se rasga um retrato de família!

Um croqui da Rua das Flores onde aparecem Jaime Lerner e Abrão Assad.
Croqui da Rua das Flores no final da década de 1970. Jaime Lerner representado ao centro (com a mão na cintura) e Abrão Assad próximo ao bondinho (de terno).| Reprodução

Jaime realizou todos os seus sonhos; os melhores como o nosso melhor prefeito, dando a nós seu maior legado! Vamos brindar em dezembro os 50 anos do Teatro do Paiol e no ano que vem os 50 anos da Rua das Flores. Em respeito à memória deste grande visionário curitibano, estarei sempre atento para o que der e vier! Valeu, amigo Jaime!

*Abrão Assad é arquiteto, urbanista, designer e escultor.

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