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Pandemia mudou a ideia do que significa morar numa cidade.
| Foto: Lineu Filho/Arquivo Tribuna do Paraná

Assim como na música, que se dá pelo conjunto de notas e silêncios, a harmonia e o ritmo das cidades são escritos através de seus espaços cheios e vazios, de suas construções e seus intervalos.

Nas cidades, seus arranjos bidimensionais e tridimensionais formados por sua geografia desvelada, pela composição de seus espaços públicos, pelo desenho de suas ruas e edificações, maiores e menores, com diferentes usos para atender diferentes interesses e demandas, somados as suas pessoas, que com elas carregam sonhos e imaginação, arte e conhecimentos diversos, fazem gerar uma nova composição. São como partituras urbanas, sinfonias tocadas pelos movimentos da dinâmica do cotidiano.

Como uma caixa de ressonância, que amplifica a vibração das cordas, uma trama urbana harmônica, formada por diferentes gentes, diferentes usos e diferentes densidades, trazem resultados sinérgicos, muitas vezes exponenciais na produção de conhecimento, nas áreas de inovação e arte, na qualidade de vida de suas pessoas.

Cada projeto habitacional, condomínios fechados ou extensos programas habitacionais, uma vez construído com ruas iguais, casas iguais para famílias de mesma renda, sempre monotônicos, representa não só uma perda de oportunidade para elevar os níveis de qualidade de vida às vizinhanças, mas principalmente, representa o impedimento para que a cidade possa exercer seu papel constitutivo, primeiro e último, que é abrigar a possibilidade da convivência dos diferentes.

O mesmo acontece com bairros de vocação única, como áreas centrais e bairros predominantemente habitacionais. Os primeiros trazem o desperdício de suas infraestruturas, serviços e comércios instalados, os últimos, exigem deslocamentos permanentes para o acesso a bens e serviços urbanos, gerando perdas significativas na força vital das pessoas.

2020 será lembrado como o ano que parou o planeta, que impôs o isolamento social, que fez mudar o como e onde trabalhar, que levou as pessoas para dentro de seus lares, que transformou ruas e cidades em desertos.

Porém, poderá ser lembrado como o ano que nos obrigou a pensar como podemos melhorar nossas cidades, como podemos reformatar nossas ruas e espaços públicos, como podemos reocupar os espaços corporativos agora ociosos, como levar mais serviço e comércio para perto de nossas casas.

Teremos um novo normal ou voltaremos ao antigo normal? Qualquer que seja o futuro, as questões impostas em 2020 geraram reflexões importantes que deverão estar na pauta urbana daqui para frente.

JAIME LERNER é arquiteto e urbanista.
VALÉRIA BECHARA é arquiteta e sócia do escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados.

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