i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?

João Pereira Coutinho

Foto de perfil de João Pereira Coutinho
Ver perfil

A arte da guerra

  • João Pereira CoutinhoPor João Pereira Coutinho
  • 25/02/2020 00:01
Parte dos frisos do Parthenon conservados no Museu Britânico, em Londres.
Parte dos frisos do Parthenon conservados no Museu Britânico, em Londres.| Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo

Quem rouba deve devolver o roubo. Há premissas morais que são cristalinas. Se os nazistas roubaram arte em abundância (e roubaram), essas obras devem ser devolvidas aos proprietários. O mesmo vale para a pilhagem soviética, de que se fala menos, mas que aconteceu em proporções gigantescas. Mas será que podemos aplicar igual raciocínio às estátuas de mármore do Parthenon que estão no Museu Britânico, em Londres?

A polêmica está instalada: nas negociações pós-Brexit entre a União Europeia e o Reino Unido, a república helênica exige que as famosas figuras retornem à Grécia. Não é pretensão original. Desde 1832, quando o país se tornou independente dos turcos otomanos, as autoridades de Atenas têm batalhado essa guerra. Até agora, sem sucesso.

O que fazer com os milhares de artefatos que estão nos museus do Ocidente? Devem ser mantidos em Londres, Paris e Nova York? Ou devem ser devolvidos às terras de origem?

Ponto prévio: saber se as figuras devem ficar em Londres ou em Atenas é uma questão a ser resolvida entre as partes. Não tenho preferências. Pessoalmente, como consumidor de arte, o que me interessa é que as figuras estejam disponíveis para os interessados. Mas a polêmica serve, sobretudo, para iluminar uma questão mais ampla: o que fazer com os milhares de artefatos que estão nos museus do Ocidente? Devem ser mantidos em Londres, Paris e Nova York? Ou devem ser devolvidos às terras de origem?

Mergulhar nessas águas é mergulhar no vespeiro do ressentimento cultural. Mas há princípios que, repito, me parecem pacíficos. O que foi legalmente adquirido deve ser legalmente conservado, porque os museus não são apenas vitrines da pirataria histórica. Por outro lado, se é possível estabelecer, com o mesmo rigor, que houve crime na apropriação de certas obras, o produto da pilhagem deve ser devolvido aos proprietários legítimos.

Acontece que os mármores do Parthenon não se incluem nessa segunda categoria de forma tão pacífica. Aliás, talvez se aproximem mais da primeira: quando Thomas Bruce removeu as famosas estátuas do Parthenon, ele terá tido autorização dos otomanos, que em inícios do século 19 administravam a região, há 350 anos. Nesse sentido, os mármores do Parthenon não são comparáveis aos bronzes do Benin, centenas de esculturas ou placas que o exército britânico roubou em 1897, quando destruiu o reino respectivo.

Mas a questão não é apenas legal. A socióloga Tiffany Jenkins, que dedicou ao problema um dos melhores estudos recentes (Keeping their Marbles, Oxford University Press), formula uma pergunta ainda mais radical: será que os mármores são “gregos”? O que significa “Grécia” no contexto da discussão?

Se falamos da Grécia Antiga, falamos de uma coleção de cidades-Estado, muitas delas em rivalidade permanente. Os mármores foram esculpidos por Fídias, na cidade-Estado de Atenas, uma realidade política e histórica distinta da Grécia de hoje. Por outras palavras: não existe uma linha direta entre Péricles, o estadista ateniense do século 5.º a.C., e o premiê Kyriakos Mitsotakis, eleito em 2019. Projetar no passado construções políticas contemporâneas (e, no caso da república grega, recentes) é erro de anacronismo.

Mas os mármores não são “gregos” num sentido ainda mais profundo: porque eles se tornaram patrimônio da humanidade. Como a filosofia de Platão ou o teatro de Sófocles. A discussão sobre a província onde nasceram certas obras, como se geografia fosse destino, assume aos olhos de Jenkins uma natureza, digamos, provinciana.

Os mármores ficam tão bem no Museu Britânico como no belíssimo Museu da Acrópole, erguido em 2009

Repito: o que foi claramente roubado deve ser devolvido. Repito ainda: os mármores ficam tão bem no Museu Britânico como no belíssimo Museu da Acrópole, erguido em 2009. Mas até nesse quesito Tiffany Jenkins tem dúvidas legítimas. No Museu da Acrópole, onde já se encontra uma parte dos mármores do Parthenon, a devolução das figuras permitiria olhar o conjunto, ou o que restou desse conjunto, no seu habitat natural.

Mas também existem vantagens em conservar uma parte dos mármores em Londres: quando visitamos o Museu Britânico, podemos cartografar a arte que influenciou os gregos (egípcia, persa, assíria etc.) bem como a arte que os gregos influenciaram (a começar pela romana). Existe nos grandes museus uma dimensão de continuidade e evolução históricas que é preciosa para qualquer interessado em arte.

Porque essa é a questão central que o livro de Jenkins levanta com lucidez e coragem: o que é mais importante? A mera geografia da obra? Os orgulhos nacionalistas de políticos ou governos? Ou é mais importante saber onde a obra pode ser melhor preservada, exibida e compreendida? Qualquer debate sério sobre a matéria não pode fugir a essas questões politicamente incorretas.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
5 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 5 ]

Máximo 700 caracteres [0]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Termos de Uso.

  • L

    Lucas Monteiro

    ± 5 horas

    Uma questão muito séria e que vale a pena ser debatida. Para mim a conservação da obra é preliminar, e a questão do orgulho nacionalista deve se dar no campo da memória da obra... Com certeza é melhor preservá-la e manter sua história viva do que somente colocá-la em sua geografia original e correr o risco de uma má exposição, ou qualquer coisa do tipo.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • M

    Marçal

    ± 8 horas

    Obrigado JP Coutinho. Como refresca a mente ler um artigo que não seja político e cheio de comentários mal educados e obtusos. Eu não tenho uma opinião firme sobre o seu tema, mas valeu a discussão. Parabéns.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • I

    Isabelle Marques

    ± 9 horas

    Um filme muito interessante, que aborda o roubo de arte na era nazista, denomina-se "A dama Dourada". Retrata a história real de uma senhora judia polonesa que vive refugiada nos EUA desde a época nazista. Ela processo o Estado da Polônia para reaver as obras de Gustav Klint, feitas sob encomenda para sua família, sendo a principal delas a que dá nome ao filme "A dama Dourada", uma pintura de sua tia. O processo judicial ´, até hoje, um dos maiores sobre restituição de arte, no mundo.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • A

    Allan Martins dos Santos

    ± 13 horas

    Se o Museu de Londres quiser ele pode ficar com toda a arte do Romero Brito.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • C

    Carlos Alberto Tanaka

    ± 1 dias

    Ao ser apresentado a um dilema mundial, no qual não se discute a capacidade das partes de bem manter o patrimônio cultural, mas apenas questões de direito de posse, passo a rememorar a tragédia que foi o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 2018. O Brasil é insuperável ...

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]