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João Pereira Coutinho

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Nós, os decadentes

  • João Pereira CoutinhoPor João Pereira Coutinho
  • 14/04/2020 00:01
Além da cloroquina, muitas outras substâncias estão em teste.
| Foto: Bigstock

Será que engordei durante essa quarentena? Difícil dizer. Não tenho balança. Rebentei com ela, dez anos atrás, durante uma crise bulímica. Mas existem sinais: quando me levanto, descubro que a silhueta do meu corpo ficou cavada no colchão – uns dez centímetros de profundidade, não mais.

Se as coisas continuarem assim, ainda vou dar um contributo inestimável para a física quântica: conseguir, ao mesmo tempo, acordar na cama e no chão. Decadente? Admito. Mas o estado do meu corpo é bastante semelhante ao estado do mundo, pelo menos na tese de Ross Douthat.

Apresentações: Ross Douthat, como colunista do New York Times, é a voz da razão. O seu mais recente livro, The Decadent Society (“A sociedade decadente”), é a prova. Tese dele: desde 1970 que vivemos em estado de decadência. Não inovamos; repetimos. Não avançamos; andamos em círculos. Esse não é o sentimento comum?

A decadência pode durar anos, décadas, séculos. Uma espécie de purgatório, sem grandes alegrias ou tristezas, mas perfeitamente habitável e até confortável

Fato. Temos a sensação de que a velocidade tomou conta de tudo. Aparência. É muito ruído por nada: as mudanças significativas são mais raras. Imaginemos o seguinte cenário: um americano, em casa, em 1890. Subitamente, o mesmo americano é levado para 1950, aterrando no meio de telefones, rádios, geladeiras, lava-louças – e com automóveis cruzando as ruas. É motivo para infarto.

Agora imaginemos o mesmo americano saltando de 1950 para 2020. Excetuando a decoração, o que mudou? Verdade: existe a internet. Impossível negar essa proeza. Mas Ross Douthat pergunta: você preferiria viver no mundo que existiu até 2002 (o que inclui, apesar de tudo, laptop com Windows 98 e até acesso à Amazon), abrindo mão de tudo que veio depois; ou, pelo contrário, você preferiria o mundo pós-2002, com Twitter, Facebook ou iPad, mas sem banheiro em casa?

Eis o ponto do autor: nos séculos 19 e 20, a humanidade conheceu o “sublime tecnológico”. Do caminho de ferro ao avião, da bomba atômica à chegada do homem à Lua, sem esquecer a anatomia de Rita Hayworth (opinião pessoal), o progresso foi gigantesco, alucinante – e sublime. Mas, tirando a internet, onde estão os carros voadores que nos prometeram? Onde está aquele resort turístico em Marte? Onde está a cura do câncer? Onde está a imortalidade?

E, já agora, pergunto: onde estão as vacinas contra os mil vírus que sempre circularam por aí – e que, subitamente, paralisam o mundo e nos obrigam a regressar às quarentenas da Idade Média? Ross Douthat explica: nas décadas de 1990 e 2000, as farmacêuticas gastaram cada vez mais dinheiro em pesquisa, aprovando cada vez menos medicamentos. A partir de 2010, o declínio tem sido ainda mais acentuado.

É também por isso que, suspeita minha, a obsessão corrente com a cloroquina na luta contra a Covid-19 não nasce apenas da ignorância. Também se explica com uma mistura de medo e desespero de que a vacina milagrosa, a existir, não será para amanhã de manhã. E nada atormenta mais os homens modernos do que o reflexo da sua própria impotência.

A obsessão com a cloroquina nasce da ignorância, do medo e do desespero

Como sair daqui? Sim, como reativar o renascimento das artes; a pujança da demografia; a vitalidade das instituições políticas; e, pormenor delicioso, a própria vivacidade da música pop (conta Douthat que, nos últimos anos, as canções que fizeram sucesso revelaram um declínio no número de acordes e até no número de novas transições entre acordes)? Essa, talvez, é a grande observação do livro: a decadência pode durar anos, décadas, séculos. Uma espécie de purgatório, sem grandes alegrias ou tristezas, mas perfeitamente habitável e até confortável, no sentido básico da palavra.

Como o poeta W.H. Auden gostava de recordar, o que nos fascina e aterroriza na história do Império Romano não foi o fato de ele ter terminado; foi ter continuado, durante quatro séculos, sem criatividade, afeição ou esperança. A repetição circular, a sensação de esterilidade tão própria das nossas sociedades afluentes, onde a gritaria política e a pornografia são os tópicos com maior ibope na internet (duas formas de onanismo e nada mais), não tem prazo de validade. Exceto se, pelo caminho, o imprevisto acontecer e o torpor atual se desintegrar, exigindo uma forma diferente de viver e de encontrar respostas. Será que esse vírus e o futuro ainda desconhecido que ele traz no ventre podem ser os bárbaros de que estávamos à espera?

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
14 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
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Comentários [ 14 ]

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  • J

    JULIO CESAR DA SILVA

    ± 0 minutos

    Realmente! Qual será o mesmo nosso futuro, face a possibilidade perene de pandemias? Situação que parece mais catastrófica que as guerras ou o terrorismo;

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  • C

    CARLOS EDUARDO RUIZ TEIXEIRA

    ± 1 dias

    A espiritualidade pode ser o ''novo bárbaro''

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    Antônio Márcio

    ± 3 dias

    Excelente!

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  • M

    Márcio Luis Dutra de Souza

    ± 3 dias

    Ótimo artigo. Nada obstante a evolução tecnológica, questões mais relevantes como a cura do câncer não evoluíram a contento. E ainda tivemos retrocessos como a questão ambiental.

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  • D

    D. L. Paiva

    ± 3 dias

    Tenho comigo que esse vírus também não trará o estrago prometido em termos de vidas humanas, graças a Deus. Mas o estado não-criativo da sociedade se esbarra no fato da capacidade dos sistemas educacionais de despertar o criador dentro de casa aluno, deixando-o apenas curtindo o que já foi criado. Não existe mais grandes invenções, o que existe são melhoramentos das velhas invenções. Raríssimas exceções.

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  • F

    fekrneiro

    ± 3 dias

    Se você contasse para alguém em 1980 que em 2020 o tempo de descida ao litoral para um final de semana de sol é igual ou até maior, ele acreditaria? Daí você diz que o combustível é o mesmo, gasolina, e a estrada é a mesma, apenas o trecho da serra está duplicado.

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  • E

    Evandro

    ± 3 dias

    O mundo se renova sempre. Seja por bem, ou por mal.

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  • M

    Margarete Kolczycki Borges

    ± 3 dias

    Que besterol . Vá encher linguiça!

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  • N

    NILTON KIESEL FILHO

    ± 3 dias

    Erro de avaliação. Cada um fala do seu mundinho, como sempre. Nossos avanços são significativos. A diferença é que hoje todos tem acesso a tudo e aí aparecem as diferenças entre todos. A burguesia não suporta ser contrariada. E não temos mais preponderância de boys da Vieira Souto ou da Faria Lima. Coisa da mídia. Agora é Brasil todo metendo o bedelho e opinando. Vivam os diversos.

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  • S

    Sergio Vianna

    ± 3 dias

    A novidade vem da Entropia. A necessidade do sistema se equiibrar trás a novas forma de agir perante a vida.

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  • S

    Sergio Vianna

    ± 3 dias

    Ué está bíblia. Lamentações e Ezequiel! Teremos a nova Gênese! Seja otimista rapaz!

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  • L

    Luiz Alfredo Viganó

    ± 3 dias

    É masomenso por ai, e nosotros nos encontramos decadentes, quiça obsoletos!!

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  • A

    Admar Luiz

    ± 3 dias

    Essa decadência, meu caro, posso afirmar categoricamente, é culpa desses niilistas esquerdo/progressistas pós modernos. Não só deles, claro. Russel Kirk já no final década de 90 do século passado exortava à geração futura sua remissão pedindo aos rapazes e moças dessa época elevar a condição humana a um nível menos indigno do que Giovani Pico Della Mirandola chamou de "a dignidade do homem". Ora, iniciai por iluminar o local onde vos encontrais; por aperfeiçoar uma unidade humana, a vossa, e por dar auxílio ao próximo, rogava Russel. Cabe a gerações que vem redimir, restaurar o próprio patrimônio - depois de demolirem o legado das gerações anteriores - PARA SALVAR O MUNDO DO SUICÍDIO.

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  • B

    Bruno Daminello Zacarias

    ± 3 dias

    Boa reflexão!

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