i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?

João Pereira Coutinho

Foto de perfil de João Pereira Coutinho
Ver perfil

Nada de novo sob o sol

  • João Pereira CoutinhoPor João Pereira Coutinho
  • 10/03/2020 00:01
Nada de novo sob o sol
| Foto: Fabio Abreu/Thapcom

A classe trabalhadora está a morrer nos Estados Unidos. Corrijo. Não está a morrer, está a matar-se. “Mortes de desespero”, eis a expressão que estudiosos como Anne Case e Angus Deaton pesquisam há vários anos. Os instrumentos do fim são conhecidos. Armas. Álcool. Drogas. Vale tudo para acabar com vidas de naufrágio.

Aliás, não apenas a classe trabalhadora. Informa o New York Times, a partir das pesquisas do casal Case e Deaton, que o cenário é idêntico para a classe média branca sem formação universitária. O desespero mata com igual intensidade. E de onde vem esse desespero? Sim, a desigualdade crescente. Sim, a falta de serviços públicos de saúde. Sim, o outsourcing industrial que a globalização trouxe no seu rastro.

Se a depressão, como dizia Freud, é a incapacidade de projetarmos um futuro para nós, há uma parte da América que está coberta por essa nuvem negra. A violência contra os próprios é uma saída. Outra é acreditar em políticos redentores que sejam capazes de tornar a América grande outra vez. Quem não entende o fenômeno populista como um fenômeno intrinsecamente revolucionário, lamento, passou ao lado dessa história.

Éric Vuillard vê nas guerras dos camponeses do século 16 o espírito que preside a muitas das rebeliões populistas do nosso presente

O escritor francês Éric Vuillard não passou. Já falei de Vuillard a propósito do seu A Ordem do Dia, uma novela breve sobre a ascensão de Hitler ao poder (prêmio Goncourt em 2017). Vuillard é essa estranha combinação: ensaísta, historiador, romancista. Certo é que essa literatura “mestiça” transporta uma força meditativa que se ajusta aos problemas do nosso tempo.

O seu mais recente livro, La Guerre des Pauvres (“A guerra dos pobres”), confirma o que digo. Superficialmente, o tema que ocupa Vuillard perde-se na memória do século 16. E a figura central – Thomas Münzer (1489-1525) – tem interesse para teólogos ou especialistas sobre a Reforma Protestante. Mas Münzer, aquele rapaz que viu o pai ser enforcado pelas autoridades feudais germânicas (curioso: Lênin, que admirava Münzer, também ficou indelevelmente marcado quando jovem ao testemunhar a execução do irmão pelas autoridades do czar), chamou a si uma tarefa radical: convocar os miseráveis para um ajuste de contas com os príncipes.

Nas palavras de Éric Vuillard, Münzer sentia “uma sede de pureza”, uma intolerância face à “imundície” do poder, uma exasperação face ao “gentil povo cristão” que, pela sua passividade, se limitava a repetir os versículos em latim sem compreender o que dizia. A Bíblia deveria ser vertida na língua vulgar; o conhecimento deveria ser extensível aos maltrapilhos; e a eles deveria ser confiada a espada para punir os enganadores de Cristo.

A violência foi a etapa seguinte. Exércitos de gente pobre destrói e saqueia as cidades e os seus palácios. Cabeças rolam, cabeças são expostas em piques. Mas tudo termina em Frankenhausen, na batalha do mesmo nome, quando as forças militares de Philip de Hesse e de George da Saxônia massacram os camponeses. Münzer seria capturado e teria o mesmo destino do pai.

Na pequena e preciosa obra de Vuillard, Münzer não é apenas apresentado como um revolucionário protestante, interessado em salvar os espíritos pela força da fé e da espada. Ele ocupa um lugar primeiro na longa lista de revolucionários políticos que tiveram na Revolução Francesa o seu apogeu. Mas não só. Vuillard vê nas guerras dos camponeses do século 16 o espírito que preside a muitas das rebeliões populistas do nosso presente.

Encontramos as mesmas figuras alucinadas que, movidas por um desejo de pureza irreal, se lançam contra as “elites” dissolutas ou corrompidas. Encontramos o mesmo ódio ao “velho discurso” das elites, com a diferença de que, agora, não é o conhecimento bíblico que deve ser democratizado; é todo o tipo de conhecimento, vertido no caos moral e epistemológico da internet. Encontramos o mesmo apelo ao “verdadeiro povo”, por oposição a um povo falso ou vendido, que não merece sobreviver no novo reino dos justos. E encontraremos a mesma destruição desencantada, os mesmos exércitos de seguidores atraiçoados e os mesmos salvadores reduzidos à condição paradoxal de homens “frágeis e violentos”, “inconstantes e severos”, “enérgicos e repletos de angústia”.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
4 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 4 ]

Máximo 700 caracteres [0]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Termos de Uso.

  • M

    Marçal

    ± 3 horas

    Excelente artigo, como de costume, deste autor. Vale pelo eruditismo e clareza nos pontos de vista. Três frases lapidares que encaixam perfeitamente no nosso momento: "Encontramos as mesmas figuras alucinadas que, movidas por um desejo de pureza irreal, se lançam contra as “elites” dissolutas ou corrompidas." "Encontramos o mesmo ódio ao “velho discurso” das elites, com a diferença de que, agora, não é o conhecimento bíblico que deve ser democratizado; é todo o tipo de conhecimento, vertido no caos moral e epistemológico da internet." "Encontramos o mesmo apelo ao “verdadeiro povo”, por oposição a um povo falso ou vendido, que não merece sobreviver no novo reino dos justos."

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • W

    WILSON MUGNAINI

    ± 5 horas

    Segundo o historiador Toynbee, "as sociedades são fadadas a obedecer um ciclo, que as leva irremediavelmente a decadência, ao colapso e a morte, após o que a Historia iria recomçar seu ciclo em outras paragens." Acredito que a minha geração não viverá esse processo, mas ele irá (ou terá que acontecer), visto que não se vê perspectivas de alterações pela negociação, pelo uso racional da política. Aqui no Brasil, por exemplo, alguém acredita que o nosso sistema de privilégios acabará por iniciativa dos privilegiados que, por acaso, passarão a ter vergonha do que usufruem? Políticos e outros?

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • P

    PAULO SOUZA

    ± 7 horas

    De certo modo esta era a expectativa do povo judeu quando viu a ascensão de Cristo na sua missão terrena, Judas sendo um dos expoentes entre os sedentos por uma revolução. O problema é enxergar Jesus apenas como personagem histórico e no seio da cristandande, apenas como um místico doador de bençãos e não pelo que Ele dizia de si (sou o grande "Eu Sou", Deus, blasfêmia para os judeus, causa da sua "morte", uma entre outras tantas razões, como não assumir a liderança da esperada revolução). A pergunta dEle ainda ecoa no ar: E vós quem dizeis quem eu sou? Há nEle esperança para este mundo e para o vindouro, em continuação. Ele virá novamente, agora em sua majestosa divindade: não temam!!!

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • A

    ARIEL TEIXEIRA

    ± 7 horas

    O conservadorismo do j p Coutinho devia deixar algum espaço para a esperança

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

Fim dos comentários.