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João Pereira Coutinho

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Prognóstico reservado

  • Por João Pereira Coutinho
  • 26/11/2019 00:01
Placas de identificação dos prisioneiros judeus no campo de concentração de Auschwitz
Placas de identificação dos prisioneiros judeus no campo de concentração de Auschwitz| Foto: Pixabay

De vez em quando, nas minhas aulas de História Contemporânea, pergunto aos alunos: alguém sabe qual era a porcentagem de judeus na totalidade da população alemã quando Hitler subiu ao poder? Começam os palpites: 25%? 50%? 70%?Dou uma ajuda e avanço com um número: falamos de 572 mil pessoas, mais coisa, menos coisa. Mesmo assim, as cifras continuam estratosféricas: 20%? 15%? Quando revelo que a porcentagem era de 0,8% o espanto da moçada é tangível.

Entendo esse espanto. Se nós ficarmos apenas pelos delírios antissemitas da época (os judeus dominavam governos, negócios, mercados financeiros, indústrias de guerra etc.), até acreditamos que eles eram majoritários. Não eram. Em 1933, só na Polônia (10%) ou na Hungria (5%) a população judaica se elevava um pouco acima da insignificância. Os judeus eram uma gota no oceano europeu.

O antissemitismo da década de 1930 era apenas mais um capítulo de uma história antiga: uma história que, segundo o historiador Paul Johnson em ensaio clássico sobre o tema (The Anti-Semitic Disease), começa em Alexandria, no século 3.º a.C., e que foi sempre adquirindo novas camadas e feições até os nossos dias.

O antissemitismo virou banalidade: 24% dos europeus adultos continuam a navegar essas águas infectas

De assassinos de Cristo a raça inferior e impura, sem esquecer a acusação coletiva que hoje paira sobre todos os judeus quando o assunto é Israel (até sobre os antissionistas!), estamos sempre na presença de uma “doença intelectual”, na definição de Johnson. É uma doença que existe e persiste sem haver nenhuma razão palpável que a justifique. Ainda nas palavras do historiador, a história do antissemitismo é “um dicionário de non sequiturs e antônimos”, ou seja, meros devaneios ou preconceitos que se anulam mutuamente.

Exemplifica Johnson: “Os judeus estão sempre a exibir-se; eles são herméticos e sigilosos. Eles não se integram; eles integram-se bem demais. Eles são demasiado religiosos; eles são demasiado materialistas e uma ameaça para a religião. Eles são incultos; eles têm demasiada cultura. Eles evitam o trabalho manual; eles trabalham em demasia. Eles são avarentos; eles são gastadores. Eles são capitalistas incorrigíveis; eles são comunistas natos”.

Lembrei de tudo disso quando lia o mais recente estudo da Liga Antidifamação (ADL) sobre a presença de antissemitismo no mundo. A ADL confrontou 18 países, Brasil incluso, com 11 proposições clássicas do antissemitismo soft e hard. Na primeira categoria estão afirmações aparentemente anódinas de que os judeus se acham melhores do que os outros ou, em alternativa, de que só se preocupam com os seus. Na segunda categoria está, mais uma vez, a litania da dominação judaica global – da política à mídia, da economia à indústria de guerra. Só uma das asserções seria impensável em 1933: a de que os judeus falam demasiado do Holocausto. Em 1933, lógico, esse Holocausto ainda estava em preparação.

Os resultados são tristes e, à sua maneira, banais, porque o antissemitismo virou banalidade: 24% dos europeus adultos continuam a navegar essas águas infectas. Isso na Europa Ocidental. Quando viajamos para leste, o número sobe para os 34%. Mas é sobretudo quando olhamos para alguns países da região – a Polônia, a Hungria – que o retrato adquire cores sinistras. Na Polônia, o antissemitismo conquista 48% da população adulta. Na Hungria, 42%. E, quando olhamos para as respostas dos inquiridos, parece que poloneses e húngaros são particularmente sensíveis ao tema do Holocausto: para eles, os judeus dedicam demasiada atenção ao assunto. O que permite conjecturar que, se o Holocausto fosse esquecido, talvez o mundo se esquecesse também do papel que poloneses e húngaros “gentios” tiveram no processo.

E o Brasil? Poucas razões para festejar, bom povo: a situação é semelhante à europeia (25% partilham opiniões antissemitas). Pode parecer pouco, sobretudo quando olhamos para a vizinha Argentina (30%, uma surpresa para mim). Mas é um crescimento de 9% quando comparamos os resultados de 2019 com uma enquete anterior de 2014. O que explica essa subida? Responda você, leitor.

Comecei com uma pergunta, termino com outra: qual a porcentagem de judeus na população total europeia em 2019? Não perca tempo, eu respondo já: uma estimativa realista não ultrapassa os 0,2%. Saber que um em cada quatro europeus acredita que 0,2% da população controla as alavancas do poder é a prova definitiva de que a doença antissemita sobreviveu a 1945.

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Comentários [ 11 ]

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  • U

    Ulisses

    ± 0 minutos

    Uma prova de que a razão ainda vai demorar para nos comandar. Uma prova de que nossas crenças se materializam nas nossas ações. Uma prova de que é muito importante nos preocuparmos com o pensar na medida em que o pensamento orienta nossas ações. Enfim, há cura para essa doença, mas na ignorância profunda em que decidimos viver, essa cura está distante. A lei do mínimo esforço e da "felicidade" a qualquer preço não vai nos iluminar, nem nos tornar mais fortes e corajosos para enfrentar os verdadeiros problemas. Na fraqueza terceirizamos a culpa... na fortaleza e coragem assumimos responsabilidades.

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  • L

    Lcar

    ± 3 dias

    O que me chamou a atenção foi que se trata de prevenção que começou em Alexandria no século 3º AC, ou seja, antes mesmo da acusação de assassinos de Cristo, evento infausto que certamente agravou a ideia negativa anterior (parti pris).

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  • Á

    Álvaro Rui Ferreira Neves

    ± 4 dias

    Se houve aumento foram os professores e a mídia não mostrando os ataques que Israel sofre e mostrando as crianças feridas , usadas de escudo pelos terroristas, quando Israel ataca. Porque no ambiente cristão brasileiro apostaria num aumento de admiração pela cultura que forneceu as bases.

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  • R

    Renovação

    ± 4 dias

    Abominável e inaceitável constatar que ainda existem tantos ignorantes e preconceituosos em pleno século 21.

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  • C

    Carlos Alberto Fernandes de Oliveira

    ± 4 dias

    Precisamos de mais Professores assim no nosso país. Deixar de lado militância ideológica e mais conhecimento de história. Parabéns a Gazeta por ter colunistas inteligentes e capacitados !!

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  • S

    Senor Rodriguez

    ± 4 dias

    Aqui no Brasil o antissemitismo aumentou por conta do discurso esquerdista que criminaliza Israel. Mas isso já vai mudar...

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  • M

    Marcos Aurélio Zamith Fernandes

    ± 4 dias

    O tema é interessante. Acho que vale a pena mais publicações a respeito. Seria relevante considerar as funções desempenhadas por judeus ricos (https://youtu.be/t2BwbOptezE), se ocorre coesão entre eles (conservadores, ortodoxos, reformistas, liberais), o papel de judeus por trás das grandes revoluções (protestante, francesa, comunista - vide Ricardo Albanés (A Civilização e o Comunismo Marxista), que cita judeus). Deixo a sugestão para futuras análises.

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  • A

    André

    ± 4 dias

    Muito bom!

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  • A

    Admar Luiz

    ± 4 dias

    Boa Coutinho, preconceitos, ignorância, desinformação, inveja, eis o que baliza essa constatação. Obrigado por nos informar que na Alemanha de 1930 apenas 0.8% da população era de judeus, ou exatamente 572 mil pessoas. E o delírio antissemita - como vc chama - dominava as mentes à época de que os judeus comandavam tudo: governos, negócios, bancos, etc, etc, grande engodo. Como se nora pela pesquisa recente a ignorância e o preconceito vigoram ainda. E isso até no Brasil, que dizem ser o país do bem, né? Como dizia aquele bordão do Odorico Paraguaçu: "A ignorança é que atravanca pogresso". Eita!

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  • M

    Míriam Malaguti

    ± 4 dias

    E o simples fato dessa doença ter sobrevivido é grave e preocupante, principalmente num momento em que tudo virou culpa do outro...

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