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O filósofo conservador Roger Scruton
O filósofo conservador Roger Scruton: vida de trabalho e de sacrifício.| Foto: Divulgação

Roger Scruton não era um filósofo político original. Mas era um grande conhecedor de filosofia, a começar pela filosofia conservadora. Bem sei que essas duas frases, na hora da morte, provocam desmaios entre os fãs. Mas elas devem ser lidas como homenagem, não como crítica.

Na segunda metade do século 20, para ficarmos entre filósofos conservadores, Michael Oakeshott (morto) ou John Kekes (ainda vivo e ativo) são filósofos originais, que trouxeram ao conservadorismo dimensões até então inexploradas. O ceticismo de Oakeshott ou o pluralismo de Kekes são construções intelectuais refinadíssimas sobre a natureza humana – e sobre a natureza da política. O papel de Scruton foi mais modesto e, por isso mesmo, mais influente entre os leigos: ele aplicou velhos conceitos da gramática conservadora aos problemas da pós-modernidade.

O maior de todos esses problemas foi designado pelo autor como “cultura de repúdio”: o pensamento revolucionário, que Scruton testemunhou no Maio de 1968, em Paris, repudia toda a tradição moral e institucional de uma sociedade democrática, em busca de uma quimera em que os homens se encontram radicalmente livres. Para Scruton, essa promessa ignora que a liberdade real, por oposição a uma liberdade fantasiosa, necessita de tudo aquilo que os revolucionários destroem (lei, autoridade, tradição moral etc.). O resultado desse repúdio, que teve no Maio de 1968 feições burlescas, adquiriu contornos trágicos nos grandes movimentos totalitários do século 20.

Os textos de Scruton despertavam perguntas, às vezes incômodas para o marasmo da academia. Sem surpresas, a universidade sempre o repudiou pela ousadia. Problema dela, não de Scruton

Mas a “cultura de repúdio” não se manifesta apenas nas grandes rebeliões. Na segunda metade do século 20, houve um repúdio mais sutil a que Scruton deu o nome de “oikophobia”. É, literalmente, um “medo da casa”, entendendo-se por casa o Estado-nação. Para Scruton, a União Europeia pretende suplantar essa realidade pela afirmação vigorosa de que o nacionalismo é uma relíquia venenosa da história. Ledo engano, avisava o autor. Para começar, imputar ao nacionalismo todas as tragédias da Europa moderna seria como acusar o amor de fomentar a violência doméstica (Chesterton dixit).

O nacionalismo, entendido aqui como lealdade pré-política que expressa um sentimento de pertencimento a uma língua, cultura, religião, memória histórica etc., é inapagável. Mais ainda: ao ter permitido a emergência do Estado-nação, com uma ordem legal que se assume como territorial (e não religiosa ou tribal), essa lealdade é uma condição necessária para a existência da democracia. O regime democrático é uma forma de “gerir descontentamentos”. Mas só é possível fazer essa gestão quando, apesar das diferenças, um povo se reconhece como parte de uma experiência histórica comum.

Por outro lado, a erosão do elemento nacional não será apenas uma ameaça ao funcionamento e à legitimidade democráticos. Uma sociedade que se baseia no repúdio desse “sentimento de pertencimento” não pode estranhar quando esse vazio cultural e espiritual é preenchido por outras lealdades. A radicalização das comunidades muçulmanas na Europa explica-se também pela ausência de uma identidade nacional forte. Privados dessa identidade, os mais jovens procuram uma outra identidade no radicalismo da religião. Será por isso, pergunto eu, que o extremismo que vejo na Europa não acontece nos Estados Unidos, onde ainda existe um sentimento patriótico robusto?

Os textos de Scruton, sempre claros e elegantes, tinham essa vantagem: despertar perguntas, às vezes incômodas, para o marasmo da academia. Sem surpresas, a universidade sempre o repudiou pela ousadia. Problema dela, não de Scruton, que respondia às limitações dos seus críticos com trabalho sério e muita ironia.

Como afirmava Scruton, as sociedades humanas só são toleráveis com as virtudes do perdão e da ironia. Perdoar significa sacrificar o ressentimento e quebrar o ciclo da violência (a influência de René Girard é evidente). O pensamento totalitário, que é sempre o pensamento dos ressentidos, nunca quebra esse ciclo; apenas o alimenta continuamente. A ironia lembra aos homens a natureza transitória das suas certezas – ou, como Burke lembrava há mais de dois séculos, caminhar em segurança é termos noção da nossa própria cegueira.

Disse cegueira? Nem de propósito. Sei que uma parte da direita brasileira transformou Scruton em pai de santo. Nada contra. Mas, quando a vingança e o dogmatismo ocupam o lugar do perdão e da ironia, talvez não fosse inútil aos pequenos bolcheviques de direita ler Scruton pela primeira vez.

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