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Amor de mãe
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima

Há um ano, a historiadora carioca Marise Felix, 64 anos, prepara uma festa de casamento, com a fúria de Mrs. Dalloway. Divide a tarefa com um grupo de amigas. Não sabem o que é sossego. Quem casou provou a lenha que é. São semanas para definir, custear e fechar qual vai ser a decoração – mesmo que modesta, nunca pode ser menor que a dos salões do Titanic. A escolha do bolo tira o sono – nem frufru demais, nem chulé. Quem tiver uma receita do equilíbrio, por favor, avise.

Não bastasse, é preciso encontrar um DJ que entenda de Roberto, de Cássia Eller e dos standards americanos; inventar um buquê sem ostentação, mas que seja motivo de conversa nas rodas por pelo menos duas semanas – como aquele feito de arrudas, usado pela Adriane Galisteu. Não se deve descuidar dos arranjos de lapela. São onipresentes. Parecem ser o único detalhe em que os convidados reparam, uma fonte de cochichos. Daí serem tão bem cuidados, seja nos casórios alternativos, feitos no mato em meio a coroas de miosótis, ou nos enlaces da high society, na Igreja de Santa Terezinha. Casar é insano. Tanto mais se o casamento é coletivo. E se, além de coletivo, formado por noivos e noivas da comunidade LGBTI. Eis o caso.

No início do milênio, Marise descobriu que uma de suas filhas era lésbica. A história – um conto da vida como ela é – foi narrada nesta coluna em 26 de fevereiro de 2009, há exatos 11 anos. Do rol de soluções disponíveis no mercado de pais à beira de um ataque de nervos estava: espernear como uma mamma italiana, ameaçar se matar como uma mãe judia, chorar um Tejo inteiro como uma mãe lusitana. O plano B era cortar a mesada, deserdar, procurar a cura gay... Felix fez jus ao nome “feliz” e preferiu a saída mais amorosa.

Casar é insano. Tanto mais se o casamento é coletivo. E se, além de coletivo, formado por noivos e noivas da comunidade LGBTI

Não só se armou de abraços para sua guria como tirou o fiofó da cadeira. Não ia apenas acolher a filha, queria defendê-la. Foi quando descobriu o grupo Mães pela Diversidade – hoje com 3 mil membros espalhados pelo país. Fez cursos de capacitação, pintou, bordou e se tornou, em Curitiba, um braço da organização. Aqui são cerca de 50 mulheres alistadas, meia dúzia delas em linha de frente (na foto deste texto – Marise, Margarida de Quadros e Denise Vilarinho).

O que fazem? Das tripas coração. Oferecem cursos e oficinas e ombro amigo para pais e mães de primeira viagem – seus filhos acabam de sair do armário. Participam de congressos. De debates sobre políticas públicas. Batem ponto em passeatas. Gritam palavras de ordem, como fizeram há pouco num encontro com a parnanguara Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do governo Bolsonaro, cujas posições são públicas e lamentáveis. Ponha-se na conta uma aparição relâmpago de Marise no folhetim eletrônico Amor de Mãe... As Mães pela Diversidade são ardidas como pimenta – e preparam um casamento como ninguém.

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A ideia de organizar um enlace coletivo para casais homoafetivos não é original. A inspiração vem do Recife, onde o evento soma três edições. A adesão dos pernambucanos é inspiradora para outras praças, que tentam copiá-la. Por lá, até a roupa dos noivos e noivas vem à custa de patrocínios, bancados por simpatizantes, avessos à babaquice. “O povo doa corte de cabelo, buquê, bolo, festa. Em Curitiba a coisa é mais devagar”, reconhece a divertida Marise.

Ela não está sozinha na lida. “Quando a gente apresenta a proposta do casamento coletivo LGBTI e pede ajuda, a tendência das pessoas é recuar. Alguns negam com um sorriso, sabe? Mas não é raro mudarem de postura e oferecerem parceria”, comenta o advogado parnanguara Rafael Kirghhoff, 37 anos, da Anajudh – Associação Nacional de Justiça e Direitos Humanos, ONG que na capital paranaense congrega oito advogados, uma defensora pública, um juiz, um promotor e começa a ganhar lastro nacional.

Rafael, a propósito, se tornou ativista meio que ao acaso. Por volta de 2013, namorava um espanhol que lhe sugeriu que fizessem aulas de dança de salão. Topou. E descobriu que, nas trocentas academias do gênero em atividade na capital paranaense, nenhuma permitia homem dançar com homem. Surpreso, procurou o pesquisador Toni Reis, criador do Grupo Dignidade. Contou o ocorrido e ganhou um amigo. Incentivado por Reis, Rafael conseguiu que uma academia baixasse a guarda e abrisse um horário para casais homoafetivos. Na esteira, passou a pesquisar a homofobia no mundo. Hoje, ganha seu pão de cada dia no direito civil, e o divide no voluntariado em direitos humanos.

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A Anajudh é uma das tantas instituições que saíram de braço dado com o Mães pela Diversidade. As hierarquias dos grupos envolvidos no casamento variam. Vão da Defensoria Pública do Estado do Paraná, na figura do advogado Thiago Hoshino, passam pelos órgãos como o Instituto de Registro Civil das Pessoas Naturais do Paraná, o Irpen; pelo Transgrupo Marcela Prado e pela APP Sindicato de Professores. Some-se o Voluntários do Arco-Íris e a loja de noivas A Bossa do Pano. Por fim, o restaurante Quintal da Maria, sede do festerê marcado para a tarde do dia 6 de março, uma sexta-feira. Não se pode dizer que dentro de todas essas entidades a aceitação tenha descido de tobogã. Foi preciso bater o pé e vencer pelo convencimento.

As resistências são mais ou menos previsíveis. Para alguns, casar de véu e grinalda soa como uma atitude tradicional demais para um grupo que, historicamente, chutou a porta. O que o festejado ativista gay norte-americano Harvey Bernard Milk acharia disso? Para outros, a luta a ser enfrentada seria conseguir espaço nos casamentos coletivos promovidos pela prefeitura – coisa linda de se ver, mas por ora destinada a casais homem-mulher. Uma das críticas mais ácidas à proposta é a que a enxerga como um privilégio, que mais acentua do que atenua a discriminação histórica aos homossexuais.

Tudo isso nada mais é do que um exercício de felicidade, simples assim. Homens e mulheres de boa vontade sabem do que se trata

Rafael Kirghhoff admite que essas controvérsias pulsam fora e dentro do movimento LGBTI. Mas a balança pende para a defesa do casamento à moda, também para casais nada convencionais. “Digo que é um pouquinho de privilégio num histórico de exclusão. Não estamos falando de uma população que sempre teve acesso a esses direitos. O que estamos mostrando é que tais direitos existem e que vamos celebrar essa conquista.” O momento – gritam as mães em coro – pede. Sabe mãe? Pois é.

O grupo entende que está em curso uma operação desmanche. Nesse cenário, o casamento LGBTI coletivo é um ato político. “A gente quer fazer barulho para chamar atenção para esse retrocesso todo. O discurso de ódio foi apropriado e usado para agredir nossos filhos”, argumentam. Citam em detalhes casos de violência contra gays, lésbicas e transexuais, os midiatizados e os ignorados. Listam os ataques às conquistas já estabelecidas, alcançadas à base de muita lenha. E o fato de que, apesar dos avanços legais, com a morte de um dos parceiros, numa relação homoafetiva, continua havendo o não reconhecimento dos familiares sobre a herança. Um perrengue... “É comum, ainda, que alguém da família, que nunca teve contato com o casal, pegue tudo o que os dois juntaram”, pontua Rafael.

A propósito, o Brasil admite a união estável entre pessoas do mesmo sexo e, por força da Constituição, a iguala ao casamento. O reconhecimento foi automático e pacificado em instâncias como o Conselho Nacional de Justiça e Supremo Tribunal Federal. OK – o Partido Social Cristão (PSC) bate as tamancas para a decisão, mas os cartórios não podem fazer recusas. Mais uma vez fica a pergunta – seria preciso uma cerimônia pública, se legalmente não há escapatórias? Para as Mães pela Diversidade, a Anajudh e outras organizações, sim. A cerimônia promove um reconhecimento social dessas uniões, minando a discriminação cada vez mais crescente.

Antes que a conversa suba o palanque, as mães – envolvidas que estão com os preparativos – alardeiam que não há nada mais bonito que um casamento. Esse em particular. Pais e irmãos, não raro com dificuldade de aceitar e entender a condição dos seus parentes, vão poder presenciar as falas do juiz e da celebrante convidada, a líder negra Iyagunã Dalzira, a Yá, escolhida pelos noivos e noivas. Depois da celebração – que acontecerá no salão do APP Sindicato – haverá festa no restaurante Quintal da Maria. Tudo isso nada mais é do que um exercício de felicidade, simples assim. Homens e mulheres de boa vontade sabem do que se trata.

Dia desses, Marise colocou no Face que procurava um DJ, e explicou o motivo. Nem piscou, recebeu mensagem da DJ Anny. “Sempre aparece quem queira ajudar”, avisa a festeira, de olho na lista das noivas e noivos, que anuncia com solenidade. São eles: Isabel Cortes da Silva Ferreira e Xênia Karoline Mello; Geórgia Laís Xavier e Lian Voigt Lara; Dayana Brunetto Carlin Santos e Leonete Maria Spercoski; Daniel Alver Pereira e Rafael da Luz Correa; Gizele Dias de Castro e Hellen Fernanda Davide.

Que os deuses todos digam amém.

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