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Fórmula de Krauss: ”A felicidade são os outros”
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima

Este é um texto sobre Guilherme Krauss, 32 anos, um jovem adulto cujo trabalho é promover a felicidade. Estranho para você? Pois nem imagine o quanto foi para ele, uma vez que não se encaixava, digamos, no layout do ofício. Tímido incorrigível, solitário diletante, melancólico patalógico... Fazia o tipo que sentia urticárias ao ver pessoas dando risadas. Mais parecia uma encarnação extemporânea dos leitores de Bom dia, tristeza, da existencialista francesa Françoise Sagan. “Eu via beleza na tristeza”, confessa.

Ainda hoje, Krauss se surpreende com a leitura dos textos cometidos na adolescência, quase psicografias dos ditos mais pessimistas de Jean-Paul Sartre. Algo como: “O verdadeiro milagre da vida é não nascer”. Tantos e tantos, os escritos à beira do abismo deram origem a um livro, Rejeitos, ainda hoje inédito e editado de forma mais-do-que-original: as páginas são amassadas e colocadas numa lata de lixo made in China. Fez algumas dezenas de cópias, hoje guardadas na casa do pai. Não as lançou por escrúpulo, mas por falta de tempo. O relógio correu veloz para esse moço.

Quando chegou aos 25 anos – já formado em Publicidade e Propaganda e com uma folha corrida pontuada por “quase” tudo que um publicitário poderia sonhar –, Guilherme entendeu que chegava a hora de se aposentar. Realizou o desejo aos 27, quando passou a se apresentar como um foragido da profissão que adotou ainda cedo, num ensino médio profissionalizante. A “felicidade” estava a caminho, um pouco por insatisfação com as noites sim, noites também passadas nos sofás das agências onde atuou; um pouco por acaso.

Não era seu projeto se alinhar ao fenômeno mundial de estudos da felicidade, Índice de Felicidade Bruta (FIB) e variantes. Aconteceu

Guilherme Krauss era um piá do bairro Portão, aluno do Colégio Bagozzi, quando a irmã – quem sabe para animá-lo a sair do quarto e tomar um pouco do sol – sugeriu que ele deveria ser publicitário quando crescesse. Motivo obscuro: vivia às voltas com desenhos das Tartarugas Ninja. Gostou tanto da ideia que tempos depois surpreendeu os seus, numa festa de família, ao encarnar o “tímido espalhafatoso”. Sem mais, abordou um parente publicitário de renome, Hiram Souza, avisando que um dia iriam trabalhar juntos. Por pouco não lhe tiraram a febre. E a febre foi longe. Nem uma paixão posterior – a banda de hardcore Bimotor, via qual descobriu ter molejos nas pernas – o afastou do perfeccionismo profissional, motivo para tanto olho gordo. Pode-se dizer que poucos empresários do ramo em Curitiba não cobiçaram ter Guilherme Krauss nas suas fileiras. Vide seu currículo. Entre idas e vindas, ganhou chefias, sociedades e até benesses de trabalhar em casa e aparecer quando quisesse. Mas nada que o demovesse sair de cena, assim que o pano começou a cair.

Parte dessa súbita passagem pelo Mar Vermelho se deve a uma amizade. A escalada de Guilherme está colada à de um colega da faculdade, Ricardo Dória – seu oposto em temperamento. Formam o sóbrio e o solar. Juntos provaram da escalada súbita no mundo da propaganda. Juntos desceram a ladeira, à cata do que, na opinião deles, valesse uma vida. Dória abriu a Aldeia Coworking – logo alçada a uma referência no ramo – e ganhou o mundo. Krauss deu baixa na carteira de trabalho, arrumou a mochila e comprou passagem para um lugar com mais névoa, frio e cinza do que Curitiba: Londres. Deu no que deu: fez um curso cujo tema era a “solidão”, na The School of Life, do filósofo franco-suíço Alain de Botton. Passou noites descalço, tomando vinho, com gente de tudo que é canto. Voltou para casa estranhamente animado. “Entendi que queria ser como o Botton, só que com mais cabelo e menos sério”, brinca, com humor desajeitado, parte de seu charme.

Krauss, Dória e a maior parte da humanidade tinham informações pacas, mas eram mancos em lidar com lições básicas feito amor, alteridade, amizade e a dita felicidade

Guilherme é um varetão, como se diz – muito alto, magro, dono de uma barba negra e cerrada que lhe rouba uns anos de juventude. Tem fala rápida e precisa, herança do longo estágio nas hordas dos encabulados. “Sou emocional. Mas me enxergam como regrado”, corrige. De vez em quando, nos brinda com um sorriso de muitos dentes – como se o lustre acendesse. Os paletós bem cortados lhe caem como num cabide e são um dos poucos resquícios que sobraram dos tempos da publicidade. O outro é a recorrente frase “esse é o click". Faz parte do clube daqueles caras que as senhoras gostariam de ter como genro. Vai precisar de umas tantas encarnações para perder a aura de bom moço, que lhe persegue mesmo quando sai da casca, apanha o microfone e mantém a audiência refém das suas qualidades de jovem aposentado: sem pedantismos, transita pela filosofia, psicologia, cultura pop, dilemas do mundo do trabalho e pela felicidade – palavra que carrega no bolso. Justo ele, que ironia.

Não era seu projeto se alinhar ao fenômeno mundial de estudos da felicidade, Índice de Felicidade Bruta (FIB) e variantes. Aconteceu. Ao voltar de Londres, convocou o amigo Ricardo Dória e abriram em 2012 a Grande Escola, hoje na Rua Saldanha Marinho, versão pocket da School of Life de Botton. A iniciativa colou. No começo, o projeto oferecia em média 15 minicursos por mês, “de tudo o que é coisa” que coubesse no conceito de bem-viver. Podia-se aprender de fazer drinques a conversar. A experiência serviu para confirmar o que Krauss & Dória suspeitavam logo aos primeiros sinais de ressaca na publicidade – eles e a maior parte da humanidade tinham informações pacas, mas eram mancos em lidar com lições básicas feito amor, alteridade, amizade e a dita felicidade. A palavra, claro, era uma pedra no sapato, tamanha sua associação com uma linda jovem sorridente saindo de um shopping cheia de sacolas.

Há uma massa de brasileiros que se arrastam todos os dias para chegar ao trabalho, por não encontrarem a menor graça nas oito horas de expediente. Querem mais, assim como Guilherme

Não bastasse ter de perseguir a felicidade genuína, encontrou mais um alçapão: o mundo do trabalho. Numa dessas mexidas no tabuleiro, já numa separação amigável com Dória, viu-se às voltas com mais uma empresa, a Humans at Work. Num estalar de dedos, estava no meio de uma roda de trabalhadores, conversando a todo vapor, como se fosse ele o cara mais popular do colégio. Virou palestrante. Vê-se enfiado em empresas das mais diversas naturezas, seis palestras por semana, Paraná adentro. Nessas investidas, traduz um pouco do muito do repertório da Grande Escola – à qual se mantém fiel –, mas, sobretudo, descobre o que centenas de pessoas comuns entendem por felicidade e o que fazem para conquistá-la. “Não tem definição, tem ação incessante, tem o se fazer feliz pelo outro”, repete, escorado em Aristóteles, o pensador que mais o consola. “Chega a ser engraçado”, reconhece o Quixote.

Meses atrás, Guilherme Krauss – que nem à idade de Cristo chegou – se emocionou com o rumo das reviravoltas. O lançamento do seu livro Toda segunda-feira é um pequeno réveillon demorou três horas, tamanha a fila. Foi na Livraria da Vila, seu esconderijo frequente. “Achei que vinha só a família.” Aluno de Sérgio Menezes, como faz questão de frisar, aprendeu a penar na mineração e extração de frases. Ficou bom no treco. Desenvolveu até um sintoma físico. “Quando acho que a ideia é boa, me dá um formigamento embaixo da costela, um negocinho aqui ó”, mostra. E confidencia: “Descobri que sou autor, mas fiquei com medo de virar brega”. É que conhecidos se cutucaram ao ver seu livro no setor de autoajuda da livraria.

Passou. Nos últimos tempos, além das palestras, Krauss dividiu eventos com o poeta Fabrício Carpinejar e com a múlti Fernanda Young – que mudou de endereço semana passada. Em novembro, será a vez de partilhar o microfone com Monja Coen. No mais, anda com ciscos no olho, de tanto ler as mensagens que os leitores lhe enviam por e-mail – a maioria oriunda da rede de 7 mil tietes, para os quais manda crônicas semanais. Os relatos ilustram que há uma massa de brasileiros que se arrastam todos os dias para chegar ao trabalho, por não encontrarem a menor graça nas oito horas de expediente. Querem mais, assim como ele, um dia, ao apagar a luz e bater a porta da última agência em que se empregou.

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