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atiradora de facas Leo
| Foto: Alessandra Haro. Imagem: Maryane Vioto Silva/ Gazeta do Povo

A curitibana Leonarda Glück, 40 anos, tem pressa. E faz tempo. Pelas suas contas, beirava os 9 anos de idade quando foi apresentada à poesia, dando início a uma jornada sem volta pelas práticas culturais. De lá para cá, nada, ou quase nada, lhe parece estranho. Com um acréscimo – provoca aplausos por onde quer que circule. “O curioso é que, depois de tudo, o meu pior está na poesia. Não mostro para ninguém”, admite, num momento raro em que prefere uma confissão em vez de uma ironia, sua especialidade. Léo, como costuma ser chamada, é uma atiradora de facas. E foi no exercício do ataque que se tornou atriz, dramaturga, encenadora, sonoplasta, iluminadora, maquiadora, produtora e, agora, artista independente, posição que a coloca ainda mais na linha de combate.

“Como é ser doce?”, pergunta-se, em cena, no decorrer do monólogo autobiográfico Trava bruta – montagem que teve duas sessões lotadas num dos auditórios do Teatro Guaíra, durante o último Festival de Curitiba. A frase, por vias indiretas, é uma referência à mãe de Glück, que tinha dificuldade em entender a agressividade da filha adolescente. Tudo indica que conseguiram se acertar, na esfera privada. Ao perceber que estava prestes a completar 25 anos de carreira, Léo decidiu expor também para o público seus segredos de artilharia.

Para tanto, precisou enfrentar um tabu pessoal: à revelia de conhecer muito bem as águas turbulentas nas quais navegam as mulheres trans, resistia à ideia de colocar seus dramas na primeira pessoa. “Não curto me vitimizar, até porque tenho meus privilégios”, diz, lembrando-se como branca, nascida numa família polono-germânica classe média, que a acolheu, entendendo ou não a natureza da caçula da casa. “Um verdadeiro ‘apertem os cintos...”, brinca. Foi de um irmão 19 mais velho, inclusive, que recebeu apoio incondicional durante a carreira. “Ele me apresentou à literatura, e à Madonna”, pontua, em meio aos rituais próprios da gratidão.

A pressa, pelo que consta, já estava lá, a bordo dos primeiros livros lidos. Depois da poesia, veio um estágio nas artes visuais e a descoberta do curso de Teatro do Colégio Estadual do Paraná. Saiu de lá com registro de atriz, rumo à Faculdade de Artes do Paraná (FAP, hoje Unespar), cujas memórias lhe brotam com uma concessão à docilidade. “Não saía sexta à noite só para estar nas aulas de sábado da Margarida Rauen, às 7h10 da madrugada”, distrai-se. Cumpriu todos os protocolos da carreira – encenou Martins Pena, Nelson Rodrigues, Naum Alves de Souza, adaptou Iracema de José de Alencar, cultuou Shakespeare, assinou embaixo do que lhe disseram sobre os clássicos, e assim permanece. Mas antes, durante e depois dessa jornada pairou a suspeita de que faltava uma dramaturgia que falasse dela e das outras Leonardas. Em vez de chorar no meio-fio, vacinou-se contra o ressentimento, começou a escrever e se alistou à meia dúzia de autoras de teatro trans que desafiam a nação. Soma mais de 20 textos encenados. Léo é um fenômeno.

Nessa paisagem, Trava bruta veio como uma imposição do destino. Uma hora teria de contar a própria vida. A surpresa é que à revelia das próprias desconfianças, está sendo “um barato” falar de si, sozinha num palco, entregando à plateia seu deserto particular. O público que a assaltou com pedidos de mais sessões e o diabo, durante o Festival de Curitiba, sabia de antemão se tratar de papa fina. Léo não era apenas uma pessoa que abria a caixa-preta. Era também a filha pródiga. Depois de mais de duas décadas de pista – ora na Companhia Silenciosa, que formou ainda na faculdade e na qual militou uma década, ora no Coletivo Selvática – Glück entendeu que a fase curitibana da carreira tinha acabado. Mudou-se para São Paulo em 2019, sem cerimônia. Mora a três quadras da esquina mais famosa da cidade, a Ipiranga com a São João. “Vou aos teatros e salas de exposição a pé ou de bicicleta”. E faz teatro.

A curitibana não era uma total desconhecida da cena paulista, mas agora havia o bônus de fazer parte da vizinhança. Entrosou-se com o grupo Motosserra Perfumada, enfrentou a fúria de burocratas que a censuraram logo de saída – “um bafo”, diverte-se. Deu o troco ao vencer um edital da Centro Cultural São Paulo – projeto do qual é fã confessa. O exílio em Sampa só não foi mais promissor porque no meio do caminho havia uma pandemia. “Bati a cabeça na parede, literalmente”, lembra, sobre os momentos mais sombrios, a partir de março de 2020, quando não havia muito o que fazer. Restou-lhe terminar Trava bruta, iniciada em 2018. A estreia aconteceu na Sala Jardel Filho, no fim de 2021. O texto é um brinde – por vezes amargo – à festa dos 40 anos de idade e 25 de carreira da Léo. Nasce das fogueiras que pulou e da qual se safou com bravura de combatente.

Mas não tem refresco. A menina sem muito jeito para a doçura cansa de fazer testes para a tevê. Já chegou a perguntar a um selecionador de elenco por que a querem no catálogo se nunca a chamam. Foi um pouco mais malcriada do que isso, é claro. Some-se que nem uma, nem duas vezes, teve de chamar às falas quem a convidou para papeis hipersexualizados e nas raias do deboche. “Sabe fetiche? A gente tem a humanidade retirada. Dão para a gente o que tem a ver com sexo; ou personagem barraqueira. Não dá né? Um monte de propostas eu nego por causa da chacota.”

Em tempo. Leonarda repudia patrulhas e manuais. Não quer decidir quem entra no teatro ou não, mas se soma ao desejo geral da comunidade trans – o de ser chamada para qualquer papel. “Poxa, meu personagem pode ser, sei lá, a dona da padaria”, provoca. “Eu tenho um nome. Ser transexual não é uma característica que precisa vir à tona, sempre”.

Enquanto esse dia não vem, um dos personagens mais admiráveis de Leonarda Glück tem sido o de fada, criada por ela mesma. Ainda nos tempos de recém-chegada a São Paulo, deu início a uma série de textos literários sobre mulheres do mundo contemporâneo. Sua inspiração vem de notícias absurdas do noticiário. As fadinhas ficcionais, nascidas do real, podem estar viradas no saci e endiabradas, boníssimas e fascistas, endividadas ou sortudas. Pois essas mulheres caíram nas graças, em especial quando os textos – que colocam em evidência a Léo escritora – ganharam a parceria da também multiartista Kátia Horn, ilustradora da série.

Tinham trabalhado juntas anteriormente, na montagem de A mesa, no Sesc Ipiranga – texto e dramaturgia de Glück, cenografia de Horn –, mas as fadinhas selaram a amizade uma vez por todas. Falam-se sempre, como ginasianas, tramando fadas com asas de borboleta. Ao todo, ultrapassaram 80 crônicas e não há mais como separar texto e imagem. As duas mães das fadas doidas batalham para que a experiência vire um livro impresso, à moda de um oráculo, para que leitores e leitoras possam escolher a história que mais lhes encanta. É de direito.

O êxito da sociedade com Kátia Horn confirma para Léo que fazer parcerias livres é o melhor dos mundos. Atraída pela solidão da literatura e para a possibilidade de contratos esparsos com as companhias paulistas que a solicitam, não se vê mais engajada em uma única companhia e, por ora, quer dar um tempo à tirania de grupo. “É possível, sim, fazer um bom trabalho de forma avulsa”, diz a mulher que tem peças a escrever e planos de montar O rinoceronte, de Ionnesco, sua paixão confessa. Não duvidem. Ela anda meio pessimista, acha que vamos chegar à 25.ª dose contra o coronavírus e que, com tanto desmatamento, “não vai dar boa”. Vai ter de brigar e correr muito – e nisso ela não é boa. É ótima.

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