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Goura
| Foto: Foto: Lineu Filho/Arquivo Tribuna do Paraná | Arte: Daniel Nardes/Gazeta do Povo

Numa tarde qualquer, quando o mundo ainda era aquele outro, agora uma lembrança, encontrei Jaques Brand no biarticulado. Quebrou a rotina. Quem conhece o Jaques, sabe. Ele é um senhor papo – sem falar de seus dotes de astrologia. Suspeito que sabe o signo das pessoas só de bater uma chapa com os olhos. E para que não fique a impressão de que se resume ao cara que fala dos tangos e tragédias a que são dados os librianos, por exemplo, reforço que é fino poeta, jornalista, pesquisador, leitor contumaz, um homem ilustrado, acrescido de altas voltagens de sedução. Uma amiga me confidenciou que, na juventude, ela e umas tantas gurias da cidade puxariam nos dentes um vagão de trem por ele. Não duvido.

Mas aconteceu que no encontro que durou três ou quatro estações-tubo, apenas, Jaques não falou dos astros ou das artes, mas do deputado estadual Jorge Brand, o Goura, seu filho, nascido de uma parceria bem-sucedida com a psiquiatra Margarida Oliveira. Primeiro soltou uma blague, como é de praxe aos sedutores. Acusou que eu era “o culpado” do sucesso do menino Jorge, seu guri. Rimos feito bobos. “Você o inventou”, decretou. Depois saiu com a boa nova, razão deste texto. Talvez não com essas palavras, disse que havia um “efeito Goura” na Assembleia Legislativa, assim como se deu na Câmara de Vereadores. Agricultura urbana, segurança alimentar, parto humanizado, ciclovias, dentre tantas flores, aparecem cada vez mais nos discursos dos outros políticos. Defendeu que era bom sinal. E desceu no ponto do Passeio Público, com a elegância de quem usa suspensórios comprados na Casa Edith.

A notícia é mesmo de lascar. Como se dizia, “as palavras convencem, os exemplos arrastam”. Confesso que fiquei pensando – até chegar à estação Coronel Dulcídio – que seria bom ter sido o inventor de um político assim, como brincou o pai da criança, Jaques Brand.

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Por volta de 2002-2003, soube que Jaques e Margarida tinham um filho Hare Krishna. A informação me atiçou as lombrigas. Pelo menos três gavetinhas da memória se abriram juntas. No meu tempo de piá, a filha de uma vizinha do Novo Mundo “virou Krishna” e todo mundo se agarrou numa novena para pedir aos céus “que ela desvirasse”. Falava-se em lavagem cerebral e na tristeza de encontrarem a moça vendendo incenso na Rua das Flores. E não adiantava se consolar com o fato da top model Maria Stella Splendore, ex-Denner e ex-namoradinha do Roberto Carlos, também ser Krishna. Via-se a conversão como uma desgraça à moda reverendo Moon, e pronto. Nunca mais soube da vizinha; e da Maria Stella Splendore, pelo que li num jornal, deduzi que se tratava de uma Krishna de butique. No mais, bobagem ter medo dos krishnas depois de assistir a Hair, de Milos Forman, infinitas vezes.

Por essas e outras, achei que o menino Jorge/Goura renderia um ótimo perfil. Fui para o garimpo atrás dele e deu certo. Antes, consegui levá-lo para uma conversa com alunos e alunas de Jornalismo da PUCPR, universidade na qual trabalhava. Foi um acontecimento vê-lo cruzar o hall do Bloco Laranja, vestido a rigor, debaixo do olhar dos seguranças. Jovem, inteligente, e de bata salmão – salvo engano – Goura proporcionou a primeira conversa de todos nós sobre o Hare Krishna. Quando ele se foi, as jovens estudantes me cercaram. Alta tensão. Disseram em coro que lavariam e passariam a bata de graça – que eu avisasse o convidado sobre o surto de apaixonite coletiva que tinha causado. Acho que nunca lhe disse nada, pois o tempo deu de oferecer assunto mais importante do que falar do frisson provocado por seus olhos verdes. Não sei quantas vidas Goura viveu depois do sonho Krishna – uma experiência que guardou para si, mas lhe deu um novo nome, o que já me parece bastante.

O tal perfil do gurizão classe média, filho de uma médica e de um jornalista, nunca saiu. Acasos. Impossível e enfadonho contar aqui das entrevistas sobre outros temas, dos encontros para saber da construção da Praça de Bolso do Ciclista, no Centro Velho, e das vezes em que compartilhei o telefone, para que outros o entrevistassem e fossem para a lista das “mais lidas”. Acho que fiquei para trás. Depois do retrato feito por uma amiga, a repórter Flávia Schiochet, publicado em 2015 na Gazeta do Povo, aventurar-se por aí pareceu sem sentido. Flávia conseguiu traduzir a alma do cara, restando para os demais a posição de observadores. Inclusive dos números: Jorge teve 6.573 votos para vereador; 27.490 votos para deputado estadual e segue o baile.

Ainda na primeira década do século 20, o filósofo, mestre em Schopenhauer, professor de ioga, ciclista e agricultor de jardins libertários nos canteiros de calçadas, se tornou uma figura conhecida em Curitiba. Houvesse um álbum, haveria o Zequinha vestido de Goura. Ele diz que não, que tem chão, mas a sensação é de que todo mundo sabe quem é o cabra. Integrante fundador de coletivos como o Interlux e do Ciclo Iguaçu, não demorou a ser apontado como um sujeito “que devia se candidatar”. Ao ouvir isso, muita gente, recordo, soltava um sonoro “faz-me rir”. O deboche era seguido de um desaforo qualquer sobre os moços brancos e bem-nascidos do Juvevê-Cabral, a chamada turma do Goura – em tese formada por uns deslumbrados com as ciclovias de Amsterdã. Pois quem ria eram eles. As bicicletadas reuniam mais e mais gente. E a “turminha” conseguia adesão dos candidatos a prefeito para que comprometessem com modais alternativos de mobilidade. Leia-se: bike. Curitiba não virou Amsterdã, mas aqueles entusiastas não habitam o passado, como se jurava de pés juntos que iria acontecer.

A frase é manjada, mas resta dizer que Goura representa um grupo do qual hoje pouca gente desdenha – a não ser que seja sem juízo. Muitos nem sequer imaginavam que houvesse tanta densidade nos debates sobre transporte público e meio ambiente urbano – para citar dois temas que mexem com a cabeça dessa rapaziada. A atração que sentem pela pauta do cicloativismo e da alimentação é instantânea e engajada. Tanto que já perdi as contas das vezes em que o Goura – mas também o Fernando Rosenbaum e a Patrícia Valverde, para citar dois ativistas, falaram para estudantes. É bonito de ver. Talvez seja parte do “efeito Goura”, do qual fala Jaques.

“Tá bom”, como diriam alguns, não se pode ser ingênuo. O oportunismo político não conhece vacina. Mas dá um bocado de satisfação ver eleitos da direita e do centro às voltas com o debate da “pobreza menstrual”, para citar um case. Não é todo dia que milhares de homens são obrigados a se dar conta de que as mulheres menstruam. Depois de tanto chorar, ainda vamos rir do século 21.

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O último encontro com Goura foi ano passado, numa casa com quintal, no bairro São Francisco, sede de sua comitiva na eleição para a prefeitura de Curitiba, pelo PDT. Teve 110.977 votos e ficou em segundo lugar. Somava 40 anos, um rosto jovem na política. Falei-lhe do encontro com Jaques e do tal “efeito Goura”. Talvez tenha se sentido desconfortável com a expressão, mas não negou que existe hoje, na Assembleia Legislativa, uma bancada informal da bike, formada por gente de tudo que é paróquia partidária. O mesmo se diga de outros temas que antes pareciam de interesse apenas de homens com rabinho de cavalo. “Para mim esse efeito é quase um mantra: boas ideias não têm dono”, disse, se demonstrar uma gota de ciúme com as apropriações.

Para respaldar que está com a “mente quieta, espinha ereta e coração tranquilo” citou o poema “A máquina do mundo”, de Drummond. Ficou de responder depois se houve o dia e a hora em que entendeu estar em missão. Talvez tenha sido com a deliciosa intervenção urbana “Música para sair da bolha”, que nos idos de 2000 e caquinhas convidava motoristas a saltar do carro na hora do rush e curtiu um som. Ou quando a Praça de Bolso do Ciclista saiu da planta. Talvez ao ver o Jardim de Sofia, feito de árvores plantadas na teimosia, ganhar placa e reconhecimento no Centro Cívico. Ou ao contabilizar o aumento das ciclofaixas e a área lenta implantada na gestão Gustavo Fruet, da qual participou. Quanta história depois de ir em cana por pintar uma ciclofaixa no Juvevê. Pois é. Virou colecionador de instantes mágicos. Eis Jorge, o Goura.

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