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O mergulho num lago gelado
| Foto: Felipe Lima

Reconheço que se tornou lugar comum, neste espaço editorial, incentivar os leitores a escreverem. Acontece nos inícios de ano, esse grande feirão de bons propósitos, que fervilham quais fogos de artifício na noite de ano-novo. Já falamos aqui sobre produzir cartas à mão, datilografar numa velha Olivetti emprestada da avó; e lembro um longo motivacional sobre a arte dos ensaios – bem acolhido entre alguns leitores, apesar do exotismo do tema.

De fato, impressiona a percepção crescente de que o desejo de escrever – um conto, uma poesia, um relato... – caminha cada vez mais, a passos de dança, com a coragem em fazê-lo. Sim, coragem. A ensaísta norte-americana Susan Sontag – biografada em trabalho parrudo de Benjamin Moser, recém-publicado no Brasil pela Companhia das Letras – comparava a escrita a um mergulho num lago gelado. A metáfora dispensa explicações. E é corolário dessa afirmação que muitos de nós, diante do desejo de reunir palavras e expressar ideias, tenhamos ficado inertes, em cima de uma pedra, assistindo feito pamonhas à água fria que corre para o mar. Quem nunca?

Não restam dúvidas – se causa temor o esforço que a escrita pede (impossível esquecer as narrativas dos jornalistas da mítica revista Realidade, de que perdiam dois quilos ao finalizar uma reportagem), o pânico é ainda maior diante do que podemos descobrir sobre nós, assim que nos pomos a escrever. Num dos tantos trabalhos que Sontag deixou, são notáveis os que exploram a escrita como um julgamento de si mesmo. Difícil não sangrar.

Escrever é um ato vital, estejam os textos condenados ao fundo das gavetas ou não

Por ironia, a intelectual foi uma fina combatente do conceito, bastante cultivado, de que escrever é padecer – sem certeza do paraíso. Recusou sem pudores a máxima cunhada por Samuel Johnson ainda no século 18: “O que é escrito sem sofrimento é lido sem prazer”. Não há garantias de que ao fim de uma grande jornada, que pode custar alguns quilos, como se sabe, o resultado seja merecedor de aplausos. Muitos escribas passaram noites sem dormir, em cima de romances que não foram lidos nem sequer pelo amor de mãe. Pior. Não raro, o esforço é o próprio inimigo da estética, privando o texto de oxigênio – elemento que se nutre, inclusive, da imperfeição estilística. Não fosse assim, Jorge Amado seria um autor de quinta categoria.

Leio agora – e recomendo – o livro Metrópole à beira-mar, do jornalista Ruy Castro, sobre o Rio de Janeiro dos anos 1920. Numa das passagens mais apimentadas, Castro explora a relação tumultuada entre o prolífico, redundante e festejado Coelho Netto e o atormentado Lima Barreto, dois dos muitos personagens da arena cultural carioca de então. Todos sabemos a qual dos dois pertence uma cadeira de honra na literatura.

O que importa – um século depois da contenda literária dissecada por Castro –, contudo, não é conseguir ou não uma tribuna de honra junto aos imortais; ou desbancar os livrecos de ocasião lançados por algum YouTuber. Escrever é um ato vital, estejam os textos condenados ao fundo das gavetas ou não. É o que interessa a Sontag, ela mesma uma autora mais ocupada da urgência da circulação do pensamento que de promover um exercício acadêmico merecedor de glórias. Arriscaria dizer que, na última década, a emergência da escrita se sobrepôs à rígida carpintaria do chamado bom texto, por si só castradora, pródiga em deixar pela beira do caminho um sem-número de candidatos à criação.

De minha parte, permitam, me sinto obrigado a dizer que se trata de uma zona de conflito. Depois de 30 anos de jornalismo, entendo a edição dos textos como uma das tarefas mais refinadas. E me coloco nos cascos quando encontro alguém que menospreze essa forma de conhecimento. Quase tive um treco, certa feita, numa banca universitária, ao ouvir que o ato de editar apagava a voz dos “personagens”, redundando numa espécie de violência simbólica. Repetiu-se ali, com pompas, que a imprensa e a literatura são uma bosta. Que melhor seria deixar um depoimento, por exemplo, na forma bruta, mesmo que some 15 mil caracteres e esteja cheio de cacos.

Entendo que, ao limar um texto, o editor lhe garante a legibilidade, que em última instância dá existência à obra, tornando-a acessível e palatável aos leitores. Podemos chamar isso de respeito ao direito à cultura. Fui voto vencido – o que me tornou um pouco vingativo nesse quesito (risos). Noves fora, importa reconhecer que um texto impressionista pode ganhar lustro nas mãos de um bom editor – ou não ter salvação, nem que a vaca tussa –, mas que escrever tende a ser uma ação libertária. É um santo remédio para quem tem peito de mergulhar num lago gelado.

Tenho colecionado pequenas histórias de populares que decidiram escrever o diabo pelo qual passaram. Caíram no lago de barriga, de bunda, de cabeça. Uns tantos deles tiveram suas trajetórias aqui contadas, desde 2008, quando essa coluna foi inaugurada. Formam uma galeria particular. É provável que nunca figurem num cânone, mas o que registram é um documento sobre os espinhos na carne, e sobre os amores, e tudo mais, sentidos por homens e mulheres tão extraordinários quanto invisíveis. Parece absurdo e de fato é. Ao se colocaram em julgamento por meio da escrita, ainda que de forma capenga, confirmam o que sempre pressentimos: de perto ninguém é normal; toda existência guarda um segredo. É como se todos fossem um pouco a babá norte-americana Vivian Mayer, que fez 100 mil fotografias de rua entre 1950 e 1990, sem que ninguém soubesse. Ao ser descoberta, nos anos 2000, deixou-nos arreados.

Nada fica no lugar depois que uma pessoa encontra sua voz

Em miúdos, com perdão ao clichê, escrever é resistir, e resistir é a palavra de ordem. Dia desses, soube de uma conhecida que se pôs a escrever em fluxo, despreocupada com as normas, alheia ao desejo de eternidade e reconhecimento. Tirou a trava, simples assim. Talvez não encontre leitores fora do seu círculo de amigos – ou seguidores educados das redes sociais, que curtirão sem ler e até compartilharão, bem cara de pau. Mas seu descarrego soma. Nada fica no lugar depois que uma pessoa encontra sua voz. Não sou eu quem diz, mas Philip Roth, para quem o estilo equivalia a poeira – o importante era ter dicção. Reflexão a respeito se encontra num dos mais deliciosos manuais do gênero que conheço: A voz do escritor, de J. Alvarez.

***

Acho um barato aquela brincadeira sobre o que deveria estar escrito nas nossas lápides. Ouvi dizer que Jô Soares já escolheu a sua: “Enfim, magro”. E, nos nossos dias, uma boa parcela escolheria “enfim, off-line”. Parece que Woody Allen – e me perdoem seus detratores – pretende deixar algo como “Que pena, aqui é ainda o melhor lugar para comer um bife”.

Brinquei com minha irmã Clarice que sua lápide deveria ser: “E eu nem terminei de falar”. Taurinamente, gostaria que a minha última frase fosse: “Esse homem passou pela vida lecionando Redação 1”. A tarefa não faz de mim dono de um bom texto nem um excelente professor – estou certo disso –, mas lembraria o visitante do cemitério que alguém gastou seus dias dando dicas de escrita para acólitos e noviços. Espero alguma recompensa divina. Dá uma trabalheira empurrar a turma no lago gelado. Sem dizer que há uma dúvida equivalente a um tormento: é possível, de fato, ensinar a escrever? Resta a resiliência de assumir o papel de aquele que repassa, para futuros autores, a tradição do que seja uma boa escrita, da paixão pelo leitor e – nos últimos tempos – de que escrever é preciso, do jeito que der. Que se esfolem.

A quem interessar possa, fora os livros de jornalismo – que valem para um público em especial –, sugiro aos alunos que leiam Meus desacontecimentos, de Eliane Brum. É um libelo, pequeno, gracioso, em que a mulher mais porreta do país conta os fatos cotidianos que fizeram dela aquilo que é. Estou convicto de que sem o trabalho de reconhecimento das experiências que nos formaram se torna impossível ter uma voz verdadeira. Outra “barbada” é a coletânea Achei que meu pai fosse Deus, organizada pelo norte-americano Paul Auster, a partir de narrativas de anônimos. Moral? Quando alguém põe no papel a geografia de uma cicatriz, difícil a letra que não grite. Contar um fato que nos marcou, e sobre o qual gastamos muita saliva, pode ser o passaporte para começar a escrever.

Sugiro pôr na bagagem, ainda, O espírito da prosa, de Cristovão Tezza – ali está o autor de O filho eterno se despindo, pondo à mostra de onde nasce sua escrita. Há no ensaio, sim, algumas lições de grande valia para nós, os mortais, mas sobretudo impera uma pessoa inteiraça, contando os desertos que atravessou. E encerro a lista com o clássico Como escrever bem, de William Zinsser. A obra nasceu – e faz tempo – para quem atua na imprensa, mas é um presente para a humanidade ao insistir que todo mundo pode “dizer”. E é importante que diga.

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