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Ilustração: Felipe de Lima Mayerle
Ilustração: Felipe de Lima Mayerle| Foto:

O formalista russo Victor Shlovsky escreveu que “todas as palavras boas estão pálidas de exaustão”. É o caso do amor. Objeto de grandes pensadores – Aristóteles, Montaigne, Espinoza, Rousseau, entre eles [quase sempre acusados de não serem os mais indicados a falar do assunto] – virou o motor do cinema e da poesia, da canção e do romance. Até empalidecer, debaixo do olhar vesgo da paixão. Tudo parece ter sido dito, nas dúvidas de Ilse, de Casablanca; na frigidez de Scarleth, de … E o vento levou; na placidez de Lara, de Doutor Jivago. Nos versos de Vinicius. Naquela canção do Roberto.

Faça o teste. Procure na rede de computadores as músicas que fizeram sucesso no ano em que você nasceu. Só por sarro. A lista costuma ultrapassar 40 hits – a maior parte trata de amores, os frustrados e os realizados. Os que viraram caso de polícia, os que deixaram marcas nos lençóis. A voz pode ser de Gardel, Mick Jagger, Lana Del Rey, Sérgio Reis – na ingenuidade de “Coração de papel”. Sim, o amor se entrega à lascívia e à complexidade, mas nunca deixará de ser um namorico no portão.

Com tamanha exposição, é natural que tenha ganhado o posto oficial de conversa para boi dormir. Um problema das fãs de Chico Buarque – como decretou o Lobão. Matéria-prima obrigatória dos horóscopos, mesmo debaixo do tiroteio que os céticos dirigem aos astros. Quer ver? Não existe nada mais contra o zodíaco do que a octogenária vivida por Emmanuelle Riva em Amor, de Michael Heneke, lendo a previsão do dia. De nada lhe vale. Não vai arrumar um caso na Rive Gauche.

Para surpresa geral deste final dos tempos – e não me refiro apenas à crise dos combustíveis –, o amor ganhou novo fôlego nos anos 2000. O fenômeno se dá justo nas barras da saia da mãe que o pariu, a filosofia. A biblioteca recente é robusta, atraente e, mais um pouco, pode render uma espécie de Summa Theologica sobre o mais amarelado dos assuntos.

Eu diria que a responsabilidade é de uma renca de franceses, que deram de resgatar o amor da banalidade comercial a que parecia fadado. Não me refiro a Roland Barthes – autor, me permitam, do mais tocante libelo sobre o tema, Fragmentos de um discurso amoroso, lançado ainda em 1977. O livro é da categoria “vou levar para uma ilha deserta”. Nem a Michel Foucault e seu História da sexualidade, da mesma época e cujas compilações continuam a gerar novos volumes, depois da morte do autor, em 1984. Atire a primeira pedra quem acha que Foucault não fala de amor.

Entre os novos franceses a discutir a seara amorosa está o veterano Alain Badiou, de origem marroquina e ativista de esquerda. No que parece ser seu encerramento de serviços prestados, depois de tantas páginas dedicadas ao marxismo, o filósofo se deu férias e explora o impacto social do consórcio amoroso. É o casamento, diz ele – e não importa de que natureza e em qual índice de satisfação –, que torna possível vivências como a tolerância e o saber ouvir, entre outros valores que vão ser reproduzidos, da porta da casa pra fora. Sem esses exercícios domésticos, a sociedade seria um amontoado de bárbaros arrotando, peidando e xingando a mãe (grifo meu, rs). Ou seja, o mundo girou, girou, para um sábio lembrar que o “viver junto” passa pela cama e pela cozinha.

A Badiou se some o filósofo Luc Ferry. Afinado com o conterrâneo, fez de seu livro A revolução do amor (2012), com folga, um dos estudos mais surpreendentes da década. Ferry chegou a uma espécie de visão beatífica. Entende que agora, finalmente, se pode falar do tal do mais nobre dos sentimentos sem medo de que sejamos tomados por manteigas derretidas. Para além de uma questão de intimidade – ou um capítulo tórrido da biografia dos mais sortudos e sortudas – o amor desponta no século 21 como o mais estimulante dos debates, pulsante em meia dúzia de áreas do conhecimento.

É certo que se impõe disfarçado. Ganha a roupa de outras palavras, como “afeto”, de modo a evitar que numa conferência da ONU, ou num simpósio em Harvard, o palestrante que pronuncie no microfone o termo “amor” ligue sem querer o rádio interior do público. De imediato, para os mais velhos vai tocar “Love is a many splendored thing”, no último volume. Não há ciência que resista.

Ferry entende do riscado. Diz primeiro o que a gente quer escutar: que depois da Segunda Guerra, o amor virou o melhor negócio do cinema americano e da indústria fonográfica. Em seguida, informa que na era dos extremos e dos excessos, ganhou ares tecnocratas, uma realidade para além da pele. Fala-se, por exemplo, em “estratégias de afeto”, inclusive para gerir as cidades. Não há gestor público ou urbanista com topete para desprezar o que descobriu o filósofo e matemático Antanas Mockus, ao administrar a detonada Bogotá entre 1995 e 2004: pergunte para as pessoas qual o espaço urbano que elas amam e comece a fazer a reviravolta ajudando-as a chegar até lá. Nos anos 21, o amor segue por ruas, calçadas, transporte de qualidade, bibliotecas e segurança pública.

Seria injusto, contudo, dar a entender que “o amor segundo Ferry” não passa de um apêndice da “felicidade corporativa”, tendo desembarcado nas planilhas com a diabólica intenção de alavancar resultados. Longe dele. Pode virar, sim, mais uma traquitana capitalista – e isso não tem nada a ver com chorar pela milionésima vez ao assistir a Um lugar chamado Notting Hill. Mas ao pensador interessa explorar que somos 7 bilhões de seres humanos, ocupados em dizer que somos únicos, diferentes,angustiados ao saber que estamos entregues à própria sorte – a uma tragédia ambiental, a um vírus, aos humores de Trump e de Kim Jong-un. Mesmo numa enrascada sem precedentes, tendemos a amarrar fiozinhos para que por ali passe eletricidade. Chama esse fenômeno de “espiritualidade laica”: ao colocar saberes e crendices para cozinhar juntos, galgamos a salvação. Não se trata de otimismo bobo, mas de esperança racional.

É uma revolução – e nasce do amor. Num momento inspirado, Ferry lembra que nenhum de nós daria a vida pela pátria, por uma religião, por uma ideologia. Mas que daríamos a vida por alguém que amamos. É deste ponto que começa a conversa. Seu livro deveria ser indicado nas escolas, com todos os riscos que falar de amor em sala de aula pode representar.

Permitam a saideira – a alvorada amorosa traz à deriva mais quatro autores que merecem ser agarrados e lidos por uma tarde inteira, jogados no sofá da sala: os franceses André Comte-Sponville e Pascal Bruckner, o britânico Simon May, e – sei que debaixo de protestos dos mais ilustrados – o suíço Alain de Botton, comumente avacalhado como “Alain de Botox”. Aos detratores, que o consideram não mais do que um adulador de beldades que frequentam cafés filosóficos, como a nossa Maria Fernanda Cândido, recomendo assistir aos vídeos de School of Life. Botton tira Freud do armário e do buraco da fechadura. Uma delícia.

Quanto a Comte-Sponville e Bruckner, são donos de temperamentos tão adversos que a tentação é imaginá-los se atracando numa piscina de gel. Comte – um tipo elegante e solene, virou um fenômeno editorial ao tirar do limbo as teorias das virtudes. Tem méritos. O que parecia assunto para a escola bíblica dominical ganhou, com ele, status de conversa da gente grande. Sua abordagem em O amor (2011), a propósito, é singular. No melhor do estilo cartesiano, desmonta o sentimento como virtude e o restabelece como a melhor humanidade possível. A gente até pode esquecer todas as classificações desse catedrático brilhante, mas não ignora a simplicidade com que nos convida a dar uns catiripapos na razão. Seu arcabouço teórico? Montaigne.

No que diz respeito a Bruckner e a Simon May, bom, são dois caras que adoraríamos convidar para um jantar. May merece o posto de “relevância do tema”, ao lado de Ferry. Como seu compadre, revisa cada capítulo da filosofia em que a palavrinha amor encravou alguma unha. Mas não se furta de saltos ornamentais. Sua lança está apontada para o desmanche das relações entre o amor divino e o humano, essa casca de banana. Os mais inflamados, contenham as pedras que carregam à mão.

Bruckner também se ocupa das metamorfoses amorosas, mas seu paganismo provoca remelexos na cadeira. Ele se interessa por Epicuro, claro, mas se entrega a Victor Hugo, Proust ou a Sade para tripudiar a domesticação burguesa das relações afetivas. Ele nos põe na ponta dos pés, na beira do abismo, para discutir o amor no pós-tudo. A receita do passado está com a data vencida, mas são bobos os que ignoram os custos emocionais da liberdade. A gente ri com esse cara abusado – ri de nervoso.

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