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Pensamentos imperfeitos
| Foto: Felipe Lima

Um dos bons exercícios “sobre o nada”, como diria o humorista Jerry Seinfeld, seria descobrir a origem da mania de colecionar frases. É universal. Num chute grotesco, a prática deve ser tão antiga quanto o mundo. Há indícios de que seja isso mesmo. Os melhores manuais sobre história da leitura – entre eles, o assinado pelo argentino Alberto Manguel e o da lavra do neozelandês Steven Fischer – se esbaldam em descrever como era a vida antes da chamada cultura livresca, aquela da era pré-Gutenberg, dominada pela cultura oral. Pois tudo se dava na base da memorização e da decoreba – de modo que, em meio à lida para manter a palavra circulando, alguém sempre se encantava com uma frase. Dava mais ênfases – e a eternidade.

A propósito, o comunicólogo Marshall McLuhan chegou a manifestar, no antológico Visão, som e fúria, que a humanidade corria como um rio no tempo da oralidade: toda a gente deixava a prosa rolar em volta da fogueira. Para defender sua tese, vista nos anos 1960 como ingênua, mandou bala – se me permitem essa metáfora agora infame – na maneira um tanto violenta como a palavra impressa atropelou milênios de táticas de memorização. Guardar “de cabeça” tinha lá suas virtudes. Não esqueçamos que os diálogos platônicos e obras poéticas inteiras – a de Gregório de Mattos Guerra, por exemplo – existiram muito tempo nas mentes até ganharem o papel.

Não sei se McLuhan era o macaco que estava certo, mas faz algum sentido. Depois da invenção da prensa, a verdade passou a ser tão somente o que estava nos livros. O produto gráfico suplantou a força do narrador – ou o narrador de sentidos, cujas frases saiam da boca, claro, com um bocado de senso comum, mas também eivadas de sabedoria. Nem a prova oral praticada nas escolas sobreviveu, a não ser em seu sentido mais vulgar, uma expressão de meninos falando bobagem atrás do muro.

A oralidade entrou em declínio – ganhou sentido poético, é verdade, no livro (e no filme) Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, alegoria de uma sociedade que, incomodada com o conhecimento, queima seus livros. Resta aos resistentes decorá-los, inteiros. Melhor não falar mais, para não chorar diante da atualidade dessa obra no Brasil de hoje em dia. Acrescente-se o alvorecer da história oral, em especial a partir da década de 1940, quando negros, mulheres, operários e indígenas passaram a registrar em gravadores suas impressões sobre seus corpos no mundo.

Tornou-se missão inglória alertar as pessoas que Clarice Lispector não dizia baboseiras de autoajuda

No mais, o fato é que a oralidade ocupa um lugar difícil. Mas o mesmo não ocorreu com a tática de selecionar frases – dando-lhe aspas ou entonações, de modo a destacar sua importância. Repetir uma frase salva um afogado – poderíamos dizer, numa paródia ao verso de Mário Quintana. O “de cor e salteado” foi substituído pelas marcas nos livros. Fragmentos passaram a ser copiados em cadernos à parte. De acordo com Fischer, Manguel e Robert Darnton, maior autoridade no assunto, os tais cadernos de frases são um produto da chamada “revolução da leitura”, no século 18. O momento em que os livros começaram a se popularizar – ganhando lugar na estante das casas burguesas – gerou as “leituras intensivas”. Lia-se um livro várias vezes, até quase decorá-lo. Aquelas pinturas românticas, em que donzelas à luz de velas levam a mão ao peito enquanto leem, não são licença poética, são registro de época.

Em tempo – a leitura intensiva levava às anotações de frases, não raro com livres interpretações, em encadernações conhecidas como commonplace books. Tornaram-se tão populares que esses cadernos passaram a ser disputados a tapas por bibliófilos, em leilões. E há quem diga – a exemplo do estudioso de leitura Roger Chartier – que as eternas preocupações teóricas com a objetividade e com a parcialidade têm origem na maneira livre como os leitores reescreviam o que os autores tinham escrito. Apropriavam-se das falas dos outros, o que para os positivistas de plantão é um desaforo.

Tenho para mim que aqueles cadernos de perguntas capciosas que as meninas de antigamente criavam (“qual tua comida predileta?”; ou “o que levaria para uma ilha deserta?”) eram primos pobres dos commonplace books. Preciso me atualizar e descobrir se esses questionários ganharam alguma variante digital. Afinal, uma das melhores frases já ditas é “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, atribuída a Lavoisier.

Quanto ao futuro da cultura de colecionar frases, o que se pode afirmar com segurança é que é absurda a quantidade de frases fake atribuídas a gente inteligente. Tornou-se missão inglória alertar as pessoas que Clarice Lispector não dizia baboseiras de autoajuda; e que Drummond não mandaria para a prensa versos cujo controle de qualidade estão abaixo de “batatinha quando nasce...” Mesmo assim, apócrifos atribuídos a Clarice são reproduzidos até mesmo em convites de formatura. São pensatas de uma docilidade que deveria fazer a autora de Perto do coração selvagem botar fogo no apartamento.

Um esporte bem bacana é escarafunchar o tipo de frases guardadas por gente bamba e por anônimos. O “frasário” secreto de cada um pode ser uma revelação sobre seus desejos. Há mesmo quem tenha escancarado a porta e colocado em público as frases de estimação. O jornalista Ruy Castro, por exemplo, alcançou enorme repercussão no fim dos anos 1990 com as coletâneas O amor de mau humor e O melhor do mau humor – ambos nascidos de sua coleção particular de ditos curiosos, safados ou desaforados legados por seus ídolos. O economista e filósofo Eduardo Gianetti, do mesmo modo, dividiu com os leitores as frases que fizeram sua cabeça no delicioso O livro das citações. É um dos melhores da praça: ao retirar pedaços interessantes de textos, o autor revela, na voz dos outros, fragmentos de sua própria razão e emoção, de como se formou esse intelectual soberbo.

Frases – feitas ou profundas – são dispositivos emocionais para lidar com a barbárie

Reparem que não se trata de um hábito tão inofensivo quanto parece. Frases – feitas ou profundas – são dispositivos emocionais para lidar com a barbárie. Nós as acionamos em momentos-chave. Servem para espantar fantasmas ou para demarcar valores que não podem ser esquecidos, em meio à tormenta. Também são estepes para ajudar os outros, em momentos de impasse. Imagino que o caro leitor já tenha encontrado alguém que se disse salvo por uma citação. Ou mesmo que tenha sido resgatado por uma ideia bem colocada. Na mesma toada, as frases que amamos também servem para legitimar uma visão autoritária, nossa dificuldade em projetar o futuro. Por ironia, as frases mais tirânicas de nossos dispositivos são atribuídas aos nossos familiares.

Um dos episódios engraçados da minha vida tem a ver com isso. Um ex-aluno, hoje jornalista de boa cepa, me mandou uma mensagem, a qualquer propósito que não lembro qual. Aproveitou a deixa para dizer que sempre lembrava algo que eu tinha dito em sala de aula. Fiquei curioso – imaginei que podia ser Foucault, Certeau, Machado ou Susan Sontag. Fiquei desapontado com o que ouvi. A frase era “para chegar a bispo tem de querer ser padre. Pois se você quer ser padre, chega só a sacristão”. Traduzindo, a gente chega bem menos longe do que almeja, por isso é preciso enganar as próprias pretensões.

A frase, disse a ele, costumava ser repetida a esmo pelo meu pai, para nos puxar as orelhas. Mas não passava de um ditado popular, da categoria “estímulo ao operariado”, saída da boca de um imigrante. Recomendei que escolhesse algo mais humano, e acredito que atendeu. Ainda que uma bobagem também possa nos inspirar. O médico e indigenista Noel Nutels, sabe-se, adorava anotar frases de banheiro masculino. Achava-as engraçadas. Talvez as considerasse cultas ao avesso. E nada impede que algumas delas o tenham ajudado a atravessar desertos.

Se essa conversa toda vale de algo, que seja de estímulo para colecionar frases. Partilhá-las. Servem de esteio. Não sei você, caro leitor, mas as minhas estão em agenda, de modo bem visível. No momento, consolo-me com “Nascer leva tempo”, do compositor Vitor Ramil. É daqueles ditos para a gente degustar, como os árabes ensinam, até mergulhar no seu sentido que é do tamanho de um oceano. Outra que fornece oxigênio é “a imaginação hidrata”, do poeta Fabrício Carpinejar. A lista é longa – e serve de luzeiro para dias cinzentos.

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