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José Carlos Fernandes

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A vida extraordinária das pessoas e lugares comuns

Quem tem sonhos para vender?

  • José Carlos FernandesPor José Carlos Fernandes
  • 12/04/2020 16:00
Quem tem sonhos para vender?
| Foto: Felipe Lima

Da janela aqui de casa – na velha Água Verde – ouço passar o carro do sonho. “Vizinho, vizinha, sonho de creme, sonho de nata...”. Acho que todo mundo já sabe, mas a gravação é a mesma em toda a cidade e, arrisca, na Região Metropolitana de Curitiba. Um case de sucesso, do naipe do Valdir Pipoqueiro. Já bati pernas atrás do dono dessa voz cuja doçura ajuda a pagar as contas de centenas de ambulantes, mas não dei sorte. Quem sabe um dia. Hoje, mais do que o carro do sonho, importa é a metáfora que inspira. Alguém tem sonhos para vender?

Desde que a quarentena começou – acrescida das amargas emoções que o estúpido governo brasileiro nos presenteia –, uma frase se repete e ganha os ventos. “Depois que tudo isso passar, o mundo vai ter de mudar”. Já a ouvi da boca de doutos e populares. Da turma mais à direita e da que faz sinfonias com panelas nas sacadas. É um paradoxo que deixa a gente tiririca de curioso: sabe-se lá de que diabos de mudança as pessoas estão falando. Pode ser tudo. Ou nada que preste.

Por natureza, tendo ao otimismo. Quero acreditar que os falantes estão munidos das grandes esperanças, ansiosos por entrar na era da ecologia humana e da hospitalidade, para citar duas expressões que ilustram o “viver junto”, maior desafio do século 21. No melhor dos cenários, o pós-pandemia se dará ao som da “Era de Aquarius” – sonho bem bobo com isso, aliás. Mas a idade ensina a se beliscar um pouquinho antes de sair dançando no Central Park. Somos uma terrível máquina de repetições de padrões. A probabilidade de não sairmos do lugar é tamanha.

Quero acreditar que os falantes estão munidos das grandes esperanças, ansiosos por entrar na era da ecologia humana e da hospitalidade, para citar duas expressões que ilustram o “viver junto”, maior desafio do século 21

A contar pelas câmeras onipresentes da Wuhan pós-pandemia, vigiando até as vísceras dos chineses, não sei se a normalidade chega tão cedo – e só com ela saberemos se algo se alterou. Quando esse momento estiver por perto, é bem provável que a demanda reprimida por consumo apinhe os corredores de shoppings e gere ágio nos melhores botecos de CWB. Vai faltar cerveja. E a polarização, essa praga, há de ficar ainda mais salgada e engordurada do que já é, com culpas lançadas ao rosto aqui e ali. Haveremos de nos machucar muito quando as máscaras caírem.

No esforço de interpretar essas expectativas sombrias em torno do “dia seguinte”, lembrei do Flávio Gikovate (1943-2016), vejam só que doideira. Longe de ser um intérprete do Brasil, era um sujeito do divã, um clínico pouco dado a rodeios, como se estivesse sempre prestes a dizer quantos meses de vida ainda teríamos. Volta e meia, ao lê-lo ou ao ouvi-lo na CBN, o jeitão “sincericida” funcionava como facho de luz. Não vale listar todas as lições que colecionei do psicanalista e psiquiatra, em geral eivadas de razão prática. Destacaria uma em particular.

Está no delicioso Homem: o sexo frágil?, lançado nos idos de 1989. O livro – que alçou uma dezena de reedições – é uma investigação sobre o enigma da masculinidade, assunto agora na moda. Gikovate afirma que os seres humanos se dividem em duas categorias: os “egoístas” e os “generosos”. Simples assim. O primeiro precisa do segundo para viver. Bebe o sangue dos bonzinhos, vampiro que é. Mesmo quando se estrepa “de verde e amarelo”, como se dizia, nunca admite as cagadas que fez. Não abandona seu trono no centro da Terra, mesmo quando não há mais ninguém em volta para aturá-lo. O egoísmo seria uma condição irreversível, cronicamente inviável.

Passados 30 anos desde a leitura da obra de Gikovate, mais de uma vez tendi a acreditar nesta máxima. Bastava estar puto com os egoístas, perplexo com suas atitudes dignas da Maria de Fátima, da novela Vale Tudo, papisa da categoria. Nessas horas, contudo, o lado cristão cutuca mais forte, renovando a crença de que mesmo o mais tacanho dos mortais pode aprender a dividir o pão. Ou se confessar ao padre na hora da morte, como ensinou minha bisavó Matilde a todas as mulheres mal casadas do nosso pequeno clã. No mais, há sempre o consolo da literatura. Um soberbo “desgracido” pode ser um Ivan Ilitch, do Tolstói, entendendo no leito de morte o torpe teatro da vida.

Faz pouco, numa situação inesperada, me sentei a um metro e meio de distância de um típico egoísta gikovateano, um anônimo do qual nem sequer sei o nome. Como ele estava de máscara, não o reconheceria – é um rosto na multidão, um personagem de Allan Poe. Disse – quase arrotando – que a única pessoa que lhe interessava na pandemia era o próprio pai, um homem idoso com quem divide o teto. Não verbalizou, mas deixou nas entrelinhas que os demais podiam morrer, ocupando todas as covas abertas no cemitério paulistano de Vila Formosa. Não lhe faria diferença. As demais opiniões desse lobo solitário seguiam a mesma toada e foram irritantes em particular ao responsabilizar a ex-presidente Dilma Rousseff por literalmente TUDO de ruim que assola a humanidade – de um buraco no asfalto perto da casa dele, um problema de magnitude dez na Escala Richter, ao conflito da Caxemira. Desejei muito ser como as mulheres, que carregam na bolsa uma lixa de unha.

***

No ofício do jornalismo, quando fazemos estudos de público-alvo, o queridão aí de cima de encaixaria fácil-fácil no cluster “individualista”. As demais categorias atendem pelas alcunhas de liberais, conservadores, ingênuos e céticos. Não são grupos estanques. Essas cinco classes têm muito em comum e confundem suas pernas numa suruba digna do filme De olhos bem fechados, do Kubrick. Mas são originalíssimas nas poucas virtudes e muitas misérias que as definem. O “individualista”, no caso, equivale a um desses motoqueiros que entregam comida e atazanam nossos ouvidos com o barulho infernal do escape adulterado. Parecem incapazes de se colocar no lugar do outro, o que o escritor Amós Oz entendia como uma característica inerente dos tiranos. Dos clusters, confesso, é o que mais me tira o sono.

O conservador se expressa, briga pelo que acredita – seu esporte preferido é pedir que sejamos demitidos do jornal em que trabalhamos, vejam só. O ingênuo ganha nossa cumplicidade em meio ao vaivém emocional que o faz participar da Marcha das Vadias, da Marcha da Maconha e da Marcha para Jesus – no mesmo dia. Quem nunca? Os céticos são imprescindíveis, ainda que devessem tomar uns comprimidinhos azuis para se curar de suas torturantes dúvidas metódicas. São Casmurros, são Bentinhos que merecem chifres. Os liberais carregam todas as contradições da burguesia, um assunto que pertence à Marilena Chauí. Mas os individualistas parecem estar sempre com capa de chuva e fones de ouvido. Nada os toca. Penso que são desumanos – os mais egoístas dentre os egoístas que todos somos, em alguma medida. Talvez sejam mesmo incuráveis. Gikovate os viu no divã – e se percebeu impotente. Se forem muitos, não sei se haverá amanhã.

Que não sejamos os generosos que vivem para alimentar a máquina mortífera dos egoístas. Fazer tal propósito é um bom recomeço pós-Covid-19

Pessimismo? Pensadores contemporâneos como Robert Putnam e Richard Sennett, para citar dois, gastaram muita tinta de caneta ao tergiversar sobre a usina de individualismo gerada pela “era do conforto”. O produto mais nefasto dessa fábrica é o esvaziamento da política e a negação da vida pública. Penso no quanto de mesquinharia se esconde por trás das odes à própria família. Ao defenderem os seus como última trincheira, muitos individualistas nada mais fazem do que se agarrar ao hedonismo de estar trancafiados com as cinco-seis pessoas que ouvem a mesma música, bebem a mesma cachaça, falam a mesma língua e desfrutam do mesmo sangue, como se nada houvesse para além do quintal.

O risco do empoderamento dos individualistas está dissecado no necessário Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Dá calafrios. O vírus do egoísmo legitimado, essa estranha forma de vida, não acomete apenas os menos instruídos, como se pensava nos tempos em que o saber universitário – não importa de que área fosse – era antes de mais nada sinônimo de saber humanístico, gerador de altruísmo, empatia e alteridade. Mas deu ruim – tem muito caso perdido com diploma de doutorado na parede. O buraco é fundo.

Pesado, né? Resta como medida saneadora aplicar a equação de Gikovate – que não sejamos os generosos que vivem para alimentar a máquina mortífera dos egoístas. Fazer tal propósito é um bom recomeço pós-Covid-19. Vou tentar não esquecer disso da próxima ver que ouvir o carro do sonho – “vizinho, vizinha, sonho de nata, sonho de creme...”. Metáforas, já.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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