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Os presidentes Jair Bolsonaro e Vladimir Putin no encontro de fevereiro em Moscou
Os presidentes Jair Bolsonaro e Vladimir Putin no encontro de fevereiro em Moscou| Foto: EFE/EPA/VYACHESLAV PROKOFYEV/KREMLIN/SPUTNIK

No mesmo dia em que os coturnos russos começaram a marchar sobre o solo ucraniano, o Brasil sofreu um bombardeio. De desinformação. Logo nas primeiras horas, vieram os memes que inundaram as mensagens de WhatsApp e depois coalharam o Twitter e o Facebook. Alguns deles chamam a atenção. Um vídeo comparava as campanhas por alistamento na Rússia e nos Estados Unidos. Enquanto os soldados de Putin são mostrados como máquinas mortíferas, os americanos são representados em um desenho animado com uma soldado, filha de um casal de lésbicas.

Qual é o impacto da mensagem? De imediato é “explicar” por que o Ocidente se enfraqueceu. Mas a mensagem traz outro significado. Diz para a base de direita e conservadora que, além de militarmente inferiores, suas sociedades também foram subjugadas em seus valores pelo globalismo dos Estados Unidos e da Europa. E vejam só, China, Rússia e, por que não?, o Irã são as garantias da salvação da moral e dos bons costumes.

Outro vídeo compara Vladimir Putin a Joe Biden. Enquanto o russo puxava ferro, o americano quase rola escada abaixo, em uma cena viral na qual ele tropeça várias vezes quando subia no Air Force 1. A mesma safra de memes trouxe um Putin superpoderoso em comparação com o presidente Volodymyr Zelensky, que é tratado como um humorista inapto que levou a Ucrânia a ser invadida.

Parece uma série de bobagens, mas na noite do primeiro dia de invasão, a base do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, já recebia mastigadinha as análises relativizando a invasão.

Enquanto isso, o berrante petista era tocado pelos seus políticos e operadores na imprensa para fazer exatamente o mesmo que o bolsonarismo. Mas com o indefectível ingrediente “antifascista”. Segundo eles, as hostilidades russas são na realidade um esforço de “desnazificação”. Um discurso que segue ipsis litteris o roteiro de Moscou.

Mas como a mesma propaganda pode ser tão eficiente entre petistas e bolsonaristas?

A resposta não é simples. Passa por muitos caminhos, mas não pode ser encontrada sem um conceito militar: as operações psicológicas. Que vem a ser isso? Copiando a explicação mais básica que está em verbete de enciclopédia, é o emprego de um conjunto de técnicas de propaganda que tem como objetivo dar suporte às ações de guerra, sejam elas convencionais ou não. Às vezes, elas são usadas para afetar a autoestima do adversário. Em muitos casos, elas servem para distorcer a realidade e pavimentar ações ou até mesmo antecipar conquistas. E parece ser o que está acontecendo no Brasil.

A reação dos petistas e assemelhados é um pouco mais fácil de ser entendida. Eles são o que são. Antiamericanos por natureza, aceitam qualquer lorota que coloque a culpa nos Estados Unidos. “Biden quis invadir”, “a Otan ameaçou a paz”, “ameaçado, Putin está no direito de reagir”, alguém duvida que seja preciso muito esforço para isso colar? O líder do PSOL, Guilherme Boulos, sugeriu que “o mais importante é não cair na narrativa”, para, justamente, reproduzir a narrativa russa, exibindo ideias que não vão além de uma compostagem do mesmo discurso do intervencionismo americano que se arrasta por mais de seis décadas, combinado com o briefing do Kremlin.

Boulos não está só. A fila de Putinlovers parece não ter fim. Mas mais que amor pelo invasor, há um desprezo pelos invadidos. Talvez, por isso, tem sido tão cômodo comparar os ucranianos aos nazistas. Fica mais fácil e palatável torcer para que eles sejam derrotados.

Mas e o bolsonarismo? Os seguidores de Jair Bolsonaro viraram a chave mesmo antes da viagem do presidente, ainda em janeiro, quando ele cravou que Putin é um conservador em resposta a um cidadão que checou com a fonte primária algo que ele já vinha recebendo via meme.

Bolsonaro havia acabado de voltar da Rússia e sua base estava em êxtase com a história da mesinha versus o mesão entre Putin e outros líderes, entre eles Emmanuel Macron. Um tipo de coisa que só tem valor para gente carente ou ressentida, que vibra com a mínima manifestação de carinho ou respeito. Mesmo se tratando de encenação.

Os corações bateram ainda mais forte depois que o ex-ministro Ricardo Salles lançou a campanha por um Nobel da Paz para Bolsonaro. Um negócio tão sem propósito que deveria ter se encerrado na traquinagem. Mas acabou virando meme, verdade, desmentido e checagem. Como se não bastasse tanto desperdício de energia, a Jovem Pan resolveu ser termômetro do delírio e fez uma enquete com a pergunta: “O presidente Jair Bolsonaro consegue evitar a guerra entre Rússia e Ucrânia?”. A crença no heroísmo do presidente saiu vitoriosa.

Mas a guerra chegou. Como assim? Em reação ao bullying da imprensa e das redes, os bolsonaristas não titubearam. Abraçaram a propaganda russa para dizer que se trata de algo maior. É a salvação da moral e dos bons costumes. Afinal, e nossas crianças? A explicação veio de bandeja e passou a ser replicada bovinamente. Putin se viu acuado e está “protegendo os ucranianos”. Lembram-se do Boulos? Qualquer semelhança não é mera coincidência.

No mesmo dia da invasão, os porta-vozes do governo na imprensa plantaram a tese de que Putin estava fazendo cumprir um referendo que garantia a anexação de partes do território e evitando uma catástrofe nuclear, provocada pela expansão da Otan. Pois as vítimas são as culpadas. Depois de alguns memes e um pouco de contorcionismo, Putin virou o defensor do mundo, contra a expansão do comunismo e globalismo. Salles, o pai da tese do Nobel, protagonizou a cena mais grotesca em defesa de Putin. Ele disse que Rússia e China são o novo exemplo.

Pois é. Putin, um autocrata que ajudou a soltar o Lula, sustenta o regime de Nicolás Maduro, da tal Venezuela que tanto assusta (com razão) parcela importante dos brasileiros e que ameaça o mundo com armas nucleares, virou o farol do mundo.

A penetração da mensagem russa é tão profunda que conquistou até o presidente. Desde a sua coletiva de imprensa, nos primeiros dias de invasão, Bolsonaro só reproduz desinformação russa.

E desinformação não é sinônimo de fake. Não pode ser lida e entendida pela dualidade verdade versus mentira.

As engrenagens de desinformação russas vêm do período soviético. Nem foram criadas por eles, mas foram muito bem aprimoradas para compensar a desvantagem que tinham em relação ao poder econômico do Ocidente, em uma guerra em que eles aprenderam a usar o que o Ocidente tem de melhor contra o próprio Ocidente. Entre várias coisas, o livre fluxo de informação.

Plantar versões favoráveis a eles virou uma arma de guerra aprimorada pelo tempo. E como isso é feito? Aproveitando-se das fraturas. É verdade que Joe Biden é um presidente cambaleante? Sim. É verdade que os Estados Unidos estão bem perdidos na sua política externa? Sim. É verdade que a Europa enche o saco com uma agenda ambiental arrogante e cheia de equívocos e exageros que não levam em consideração a mitigação da pobreza? Sim.

Então, o que Putin faz? Pega ponto por ponto, trabalha para reforçá-los e se vende como remédio. A Fox News mediu um fenômeno bizarro, que é resultado dessa estratégia de explorar os sentimentos dos radicais. Entre os republicanos, 92% têm visão negativa de Biden, enquanto 81% têm opiniões desfavoráveis a Putin. Entre os democratas, 87% são contrários a Donald Trump, enquanto 85% estão contra as ações de Putin ou o que ele representa.

Nada mostra mais como os russos entraram na cabeça de Bolsonaro que o texto apócrifo que ele disparou em seus grupos de WhatsApp. Tratado equivocadamente como uma obra do pensamento olavista, o texto é na verdade um resumo completo eficiente do que Putin sabe que a base e o presidente querem ouvir e dizer. Enfiou no meio uns elogios para si, seus aliados China e Irã, e por tabela turbinou as falsidades algum “Jafar”, que orbita o gabinete presidencial, conta para o presidente sobre a tal ajuda da Rússia para manter a soberania da Amazônia, por exemplo, ou sobre o conservadorismo de Putin. Ao que parece, mais que um post cheio de delírios, é um ato de rendição.

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