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Madeleine Lacsko

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Reflexões sobre princípios e cidadania

As várias faces da Cristofobia

No jogo político, falar em “Cristofobia” é uma ótima jogada. Mas será que algum cristão realmente acredita nessa história?

  • Por Madeleine Lacsko
  • 23/09/2020 12:41
“Jesus lavando os pés de Pedro” (1852), de Ford Madox Brown.
“Jesus lavando os pés de Pedro” (1852), de Ford Madox Brown.| Foto: Domínio público

Há pessoas que negam a existência da "Cristofobia" sob o argumento de que contra Cristo e seus ensinamentos há quase nenhuma resistência, o problema é com a torcida. Eu sou da turma que concorda com o uso distorcido da palavra no caso do preconceito religioso, que é contra as pessoas e não contra a doutrina de uma religião. Há pessoas que são contra uma doutrina religiosa e isso é direito delas, mas não se pode confundir essa opinião ou sentimento com um direito imaginário de ofender ou perseguir quem segue a tal doutrina. Esse direito não existe.

No caso da "Cristofobia", considero interessante pensar que o "fobia" pode não ser aversão, mas medo. E faria muito sentido no caso dos lobos em pele de cordeiro, os que clamam estar falando e agindo em nome de Jesus, das leis, do povo, mas estão contaminados pelo espírito da mentira como foi o caso de fariseus e mestres da lei confrontados no monte das oliveiras.

Disse-lhes Jesus: "Se Deus fosse o Pai de vocês, vocês me amariam, pois eu vim de Deus e agora estou aqui. Eu não vim por mim mesmo, mas ele me enviou.
Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo.
"Vocês pertencem ao pai de vocês, o diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.
No entanto, vocês não crêem em mim, porque lhes digo a verdade!
João 8:42-45

Caso a gente fique nessa hipótese, a de que os que vivem da mentira têm "Cristofobia" porque podem ser desmascarados, como também ensinou Paulo em sua segunda carta aos Coríntios: "Pois tais homens são falsos apóstolos, obreiros enganosos, fingindo-se apóstolos de Cristo. Isto não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Portanto, não é surpresa que os seus servos finjam que são servos da justiça. O fim deles será o que as suas ações merecem". 2 Coríntios 11:13-15

Fora do escopo daqueles que vivem da mentira enquanto se disfarçam de anjos de luz, homens justos ou servos de Deus, não há espaço para medo dos ensinamentos de Cristo, o que seria a tal "Cristofobia". A forma como a palavra foi usada no discurso do presidente Jair Bolsonaro na ONU deriva da popularização do uso do sufixo "fobia" nas pautas identitárias, em que o significado de medo é trocado por repulsa ou intolerância. É o caso de Homofobia e Gordofobia, por exemplo. Fora da militância política, isso se chama perseguição religiosa.

Aí vamos ao ponto objetivo: como definir perseguição religiosa? Sem objetividade, ficamos sujeitos às intenções íntimas e sensibilidades do julgamento de cada indivíduo. Alguém pode falar algo com a intenção de ofender alguém pela religião que tem e quem ouve pode não ficar ofendido nem se sentir perseguido ainda que perceba a carga de preconceito e maldade do outro. Também pode ser o caso em que alguém faça um comentário ou pergunta sem maldade, por desconhecimento, e que a outra parte se sinta realmente perseguida e ofendida. Não pode ser esse o parâmetro para debater o tema.

A organização cristã Portas Abertas, fundada em 1955 e atuante em mais de 60 países, luta contra a perseguição aos cristãos em todo o mundo e anualmente publica a Lista Mundial da Perseguição, mostrando o ranking dos 50 países onde as pessoas são mais perseguidas por causa da fé em Jesus.

O Brasil não está no ranking. Você pode concordar com isso ou começar a lembrar de vários episódios de perseguição religiosa, alguns mais graves e outro menos, que saíram na imprensa, foram contados em grupos de conhecidos ou até vividos na pele. A grande questão é: como definir perseguição religiosa? Existe um método objetivo que explica como países em que há episódios de perseguição ficam fora da lista.

A definição básica de perseguição religiosa contra cristãos é “qualquer hostilidade experimentada como resultado da identificação de uma pessoa com Cristo. Isso pode incluir atitudes hostis, palavras e ações contra cristãos”. A rigor, todos os comentários lacradores contra "os evangélicos", a tiração de sarro a qualquer suspiro da ministra Damares e o uso de palavras como "crentelho" e "crentistão" se enquadram nisso. Mas é necessário dividir as situações por gravidade e consequências práticas, por isso existe uma escala.

O conceito clássico da perseguição religiosa abrange apenas aquela feita ou apoiada pelo Estado, mas ele foi modificado porque a realidade mudou. Hoje já há casos concretos de perseguição tão grave quanto a estatal promovidos por agentes não-estatais, como é o caso do Estado Islâmico e do Boko Haram. No entanto, não existe uma definição concreta universalmente aceita para perseguição religiosa.

As cortes internacionais que julgam esse tipo de caso, como a Corte Criminal Internacional, procuram manter um padrão bem elevado do que pode ou não ser considerado perseguição religiosa por questões práticas. Há um medo de que seja impossível avaliar e dar proteção a todos os casos de pessoas que alegariam ser perseguidas por sua fé, então se restringe apenas aos casos mais graves.

"Esse medo da comunidade internacional tem o lado negativo de subestimar a variada dimensão da perseguição, especialmente a contínua pressão que cristãos (e outras minorias) enfrentam em suas diferentes esferas da vida. A metodologia da Lista Mundial da Perseguição tem a intenção de rastrear, documentar, analisar e divulgar esses desafios que cristãos enfrentam em suas vidas diárias", informa a organização cristã Portas Abertas.

Esse método é baseado na obra "O preço da liberdade negada: perseguição religiosa e conflito no século XXI", de Brian Grim e Roger Finke, publicada em 2010 pela Cambridge University Press. Nenhuma perseguição religiosa surge do dia para a noite, o que acontece é uma evolução da relação entre governo e grupos sociais que se fortalecem um ao outro, por motivação ideológica ou religiosa, contra determinados grupos religiosos. Há 6 estágios que caracterizam a maior parte desses processos:

1. Um grupo social pequeno que representa uma religião ou ideologia específicas espalha suas ideias às custas de outro(s) grupo(s). Muitas vezes, um vácuo social ou político apresenta um excelente terreno fértil para tais ideias.

2. Movimentos fanáticos crescem a partir desse grupo inicial ou se reúnem em torno dele para exercer pressão sobre a sociedade e o governo por meio de estratégias de mídia e/ou de ataques físicos a membros de outros grupos.

3. A violência perturba a sociedade, mas os governos e as forças de segurança deixam movimentos fanáticos impunes enquanto culpa outros grupos por serem a causa da agitação social simplesmente por existir.

4. Ação de movimentos radicais é reforçada e atrai mais e mais adeptos. Isso resulta em uma maior pressão sobre o governo para que colabore com sua agenda e também a mais pressão e/ou violência contra outros grupos. Por vezes, cidadãos se unirão por medo, em vez de por convicção.

5. Por fim, sociedade e governo pressionam membros de outros grupos até o ponto de quase sufocá-los. Isso se estende a todas as esferas da vida e da sociedade.

6. O ambiente cultural todo é tomado pela agenda do grupo social altamente “encarregado” que representa uma religião ou ideologia específica (ponto 1), e a visão de mundo que está intrisecamente ligada a essa agenda torna-se a principal fonte cultural.

Segundo a Portas Abertas, as principais tendências da perseguição aos cristãos no ano de 2020 são o risco de começarmos a ter perseguição digital (movimento da China), disseminação do crime organizado e falta de confiança nas instituições (caso da América Latina), disseminação de militância islâmica violenta (na África Subsaariana) e guerras que dizimam minorias cristãs (no Oriente Médio).

A única forma de evitar que perseguições religiosas escalem de forma descontrolada é esvaziar o poder de radicais - religiosos e ideológicos - e ter como pilar fundamental da sociedade a dignidade humana, que é universal e incondicional. Todo grupo que considera ter o direito de considerar dignos apenas os que passam pelo seu crivo é um convite à radicalização, principalmente se tiver proximidade com o poder político, econômico e cultural.

Entendo que alguns pensem que precisam ou podem defender Jesus e façam um carnaval com essa história de "Cristofobia". Pode haver boa intenção, mas é frontalmente contra a humildade cristã: somos nós que precisamos da proteção de Jesus, não o oposto. Usar essa palavra em um discurso na ONU é um movimento político genial, mas só funciona com aqueles que, como na passagem do Evangelho de João, se dizem servos do Senhor mas são imunes às palavras de Cristo. Que saibamos diferenciar espiritualidade de poder e jogo político de devoção religiosa para focar no que interessa, a defesa da dignidade humana.

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Comentários [ 15 ]

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  • P

    PEDRO MODESTO PICCOLI

    ± 0 minutos

    Que pateta!!! Fica na discussão semântica do termo “fobia” e passa ao largo do cerne da questão da perseguição a cristãos e à fé cristã mundo afora!!!

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  • M

    MVAZ

    ± 3 dias

    Quem vai definir "dignidade humana", senhora?

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  • G

    GUIOMAR MELLO

    ± 3 dias

    Verdadeiramente cristã a posição da autora deste texto.

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    Edmundo Escrivão Filho

    ± 4 dias

    Belo texto: no conteúdo, na redação e na delicadeza.

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    waldir rodrigues de morais

    ± 5 dias

    Se os Cristões sofrem perseguição religiosa por ter sua fé em Cristo, então o racismo nós podemos chamar de "perseguição por raça" e a homofobia por "perseguição por atração pelo sexo oposto" Será isto que a colunista quis dizer???

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    Robson Rodrigues

    ± 5 dias

    Eu acredito sim que existe no Brasil uma perseguição religiosa, profunda e concreta, não há derramamento de sangue, como em alguns países, mas aqui no Brasil há o derramamento e esvaziamento moral, doutrinal e estrutural desde o conceito família até o conceito etimológico e conceitual da palavra "Fé"! Hoje a maior perseguição religiosa que existe é a silenciosa e a sem derramamento de sangue, ou seja, a perseguição cultural e doutrinal confrontando e destruindo os ensinamentos de Cristo no âmbito, cultural, social e educacional! Vejam as escolas, Faculdades, as obras culturais, peças de teatros, novelas, filmes, músicas etc. Mas pra que se preocupar com tudo isso, nós não temos Cristofobia

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  • C

    Carlos Costa

    ± 5 dias

    É verdade que “somos nós que precisamos da proteção de Jesus, não o oposto”. Porém, quando se diz que todo cristão é burro, ignorante ou hipócrita, os ofendidos são mesmo os cristãos. E esse tipo de desrespeito acontece o tempo todo aqui mesmo no Brasil. Que nome deve se dar a isto então? Experimenta fazer a mesma coisa trocando o cristão por qualquer uma dessas minorias eleitas pelos progressistas. Vai ser ou não algum tipo de num-sei-que-lá-fobia?

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    1 Respostas
    • A

      ALESSANDRO ALONSO FERREIRA CALU

      ± 5 dias

      Na realidade o que se diz sem razão e por preconceito é que "todo evangélico é burro, ignorante e que todo pastor midiático é ladrão". Penso que isso seria um tipo de neopentecostalismofobia ou pentecostalismofobia já que o tipo de envangélico ridicularizado, repito de forma preconceituosa e generalista, é o dessa visão de cristianismo. Chamar de Cristofobia na minha visão é uma estratégica política para trazer para si o máximo de cristãos possíveis da nação, além de ser um desrespeito aquele que sofrem em nome de Cristo no mundo e até no Brasil mesmo. é uma banalização oportuna do termo e não uma preocupação genuína com a perseguição religiosa no mundo e Brasil.

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  • Z

    Zyss

    ± 5 dias

    Segundo especialistas, 'cristofobia' é só quando alguém morre. Já para ser 'homofobia' basta fazer piada. Hahahaha é mole uma coisa dessas?

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  • Z

    Zyss

    ± 5 dias

    Péssimo artigo. Não entendeu nada sobre a "Cristo fobia" contemporânea. Apenas foi lá no dicionário e fez um cola copia. Não me admira nada vindo dessa cidadã que se diz cristã, mas só tem amigos comunistas e satanistas.

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  • M

    MAURO FONSECA DE MACEDO

    ± 5 dias

    Madeleaine foi bem até o último parágrafo. É óbvia a intenção da esquerda de ridicularizar o cristianismo e, principalmente a comunidade evangélica (a qual não pertenço), afinal segundo Marx "a religião é o ópio do povo". Não se está a defender Jesus, mas todos aqueles que acreditam nos seus ideais e se esforçam para viver em Cristo (grande maioria do povo brasileiro, embora o Estado seja laico), coisa que esquerdinha jamais conseguirá entender. Dito isto, corretíssima a atitude de Bolsonaro!

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  • J

    José

    ± 5 dias

    Existem em alguns países perseguições religiosas. No Brasil existe desrespeito religioso. Principalmente aos cristãos. Notadamente aqueles mais fundamentalistas. Comum debochar de Cristo e de seus seguidores, incomum satirizar Maomé e seus seguidores.

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  • E

    Eden Lopes Feldman

    ± 5 dias

    Acredito que formas grosseiras e desrespeitosas de se dirigir a conceitos religiosos sejam uma forma de agressão, que pode constituir uma "fobia". Portanto, acredito que Bolsonaro acertou ao se referir a esta situação. Pessoas que praticam sua religião, ou pertencem a determinados grupos sociais ou identidades religiosas não gostam de serem citados de forma pejorativa. Isto ofende e humilha. Sejam cristão, judeus, islâmicos ou outros. O respeito as crenças é um fator fundamental na cidadania e na constituição social dos povos.

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  • M

    Márcio de Abreu campana

    ± 5 dias

    100.000 cristãos são mortos por ano no mundo. Perseguição braba mormente no Oriente Médio, África Subsaariana e China. A mídia mainstrean finge que não vê. Mas vá alguém falar um "a" do Islão.

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    ALESSANDRO ALONSO FERREIRA CALU

    ± 5 dias

    Sempre mantendo o nível! Parabéns mais uma vez! E eu que sempre achei que beber só café e coca-cola, cantar CodPlay, investir a 10 por um no altar e separar as cores por sexo era participar do sofrimento de Cristo! Enfim, cada um crê no cristo que reflete melhos seu próprio eu né?

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