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De “tia do zap” a assassina: a mistura explosiva de QAnon com briga de custódia
| Foto: Divulgação

Grupos movidos a teorias conspiratórias são como curvas de rio. Quer procurar algum tipo de farsante, perverso ou sádico? Pode ir em qualquer um que você acha. Fora do abrigo da verdade não há uma divisão clara entre bem e mal nem entre certo e errado. Tudo é possível. Esse estratagema chega à internet como softpower da ditadura russa, muito eficiente em controlar as pessoas dando a elas ilusão de liberdade. O governo Putin investe uma quantia monumental de dinheiro nessa técnica, aumentou em 40% este ano e conseguiu a viabilidade jurídica para mais uma eleição.

O governo dos Estados Unidos ainda está investigando os diversos grupos que estão ligados à invasão do capitólio. Alguns dos influencers têm laços financeiros e apoio digital do governo russo, ainda não se sabe exatamente em que termos ou por que. Em democracias, há uma tendência a subestimar o softpower, usado com maestria por ditaduras grandes e longevas como a Russa e a Chinesa. É dessa natureza a estrutura de dominação por golpistas e tiranetes em grupos unidos por teorias conspiratórias. Infelizmente, na dinâmica digital, eles têm mais facilidade para radicalizar pessoas, com dominação emocional por softpower, coisa que democratas tendem a subestimar.

O Wall Street Journal acaba de publicar um longo artigo em que tenta entender como uma mãe passou de "tia do zap" a assassina. Matou a tiros o homem que a ajudava a conseguir de volta a custódia da filha. Em comum entre os dois havia laços com um grupo QAnon. Ela justifica o assassinato com o tipo de QAnon tido como mais perigoso pelo FBI: a invenção de uma aliança de intelectuais pró-pedofilia. É a teoria conspiratória que produziu mais tragédia nos últimos anos, ainda ridicularizada ou subestimada por muitos.

A maioria das pessoas que faz parte de grupos que compartilham teorias conspiratórias chega a eles de boa fé. Muitos grupos desses alimentam crenças ideológicas ou dão justificativa a frustrações. Isso sempre existiu. O pessoal que acredita em área 51 e conspirações do governo bate carteirinha de personagem coadjuvante em tudo quanto é filme dos anos 90 que se preze. A mudança agora não é no conteúdo das teorias, mas no contexto em que elas são disseminadas.

Existe a possibilidade da criação de uma dinâmica tribal via internet, grupos unidos por laços que não seriam tão fáceis em sociedades de unidade familiar. Há exemplos bem sucedidos, como a Cientologia. Trata-se de um projeto longo, caríssimo, arriscado e dependente de uma coleção de talentos individuais. O ambiente virtual facilita a formação do grupo, dificulta sua detecção e, sobretudo, dificulta a deteção dos golpistas que se aproveitam da imensa maioria bem intencionada ou idealista.

Está na moda que grupos se digam contra o "establishment". Sou tão velha que já vi isso ser conversa do PT mas, enfim, o brasileiro é um acreditador profissional, não precisa mudar a lorota. Uma vantagem dessa conversa na era digital é criar nichos de mercado para "especialistas" que não são especialistas em nada. Basta intitular-se algo, sem ter formação nem experiência prática de sucesso, afinal, são todos contra o "establishment". A tragédia começou aí, o golpe da custódia empacotado dentro do grupo QAnon.

Grupos unidos por teorias conspiratórias não vivem só de mentiras. O truque é alinhavar com as tais teorias fatos verificáveis. Um exemplo? Há registro de seitas satanistas que sacrificaram crianças. Um artista desenhou um pentagrama. Uma pessoa tirou uma foto com o artista. Conclusão do grupo de teoria conspiratória: a pessoa da foto faz parte de uma aliança internacional pela legalização do sacrifício de crianças. Parece absurdo, mas a dinâmica do grupo tem base em manipulação emocional e as pessoas passam a acreditar em muitos absurdos.

Neely Petrie-Blanchard vivia uma situação de custódia sem precedente, em que a filha mais velha ficou com a mãe do ex-namorado, que não era o pai da menina. Não pôde mais visitar a própria filha. Ela começou a dedicar horas diárias a pesquisar no Facebook por que o governo dos Estados Unidos permitia que pais fossem separados dos filhos. A custódia foi tirada pela avó paterna da menina, que alegou judicialmente uso de drogas pelo próprio filho e pela nora. Neely teve gêmeas e, quando as bebês eram pequenas, resolveu sequestrar a filha maior no colégio. Agora foi a mãe dela quem ficou com a guarda das outras duas.

O desespero foi afogado nas redes sociais. Neely passava 15 horas por dia no Facebook tentando entender por que o governo afastava filhos dos pais. Acabou conhecendo quem afirmava categoricamente que ela não tinha problemas, tratava-se de um plano sinistro de elites intelectuais no governo. Eram satanistas a favor da pedofilia e, por isso, queriam crianças longe dos pais. Neely entrou nos grupos QAnon, onde conheceu o golpista que lhe ofereceria falsamente a volta da filha mais velha.

Christopher Hallett era celebrado nos grupos QAnon como um dos maiores especialistas em brigas de custódia nos Estados Unidos. Nem advogado ele era e também não ganhava custódia de volta, aliás nem a dos próprios filhos conseguiu ganhar, mas isso não importa. Ele dizia tudo o que o grupo queria ouvir, então tinha uma clientela fiel e devota. Dizia que o "establishment" era corrupto, juízes e advogados violam sistematicamente a Constituição dos Estados Unidos. Na verdade, ele nem queria dizer exatamente o que dizem os grupos conspiracionistas, mas acabou encontrando um mercado frutífero.

A experiência de Christopher Hallett com a Justiça o fez ver que há uma discrepância na forma como são tratados cidadãos comuns e a elite econômica e política. É a isso que ele se referia como "corrupção do establishment" ou "violação da Constituição". Ocorre que os grupos QAnon usam os mesmos termos para se referir às teorias conspiratórias deles, como o governo mundial, os satanistas pedófilos ou a dominação sionista. A linguagem fez com que as mídias sociais e os vídeos de Hallett o tornassem um sucesso estrondoso nos grupos QAnon. Ele resolveu aproveitar a onda, mesmo confessando à esposa e ao filho o quanto considerava absurdas e ridículas as crenças do grupo.

Christopher Hallett começou a bombar nas redes quando decidiu ajudar Neely Petrie-Blanchard a recuperar a custódia da filha mais velha. Os debates e vídeos que os dois faziam geraram doações fixas de US$ 1,5 mil por mês no Patreon, fora as esporádicas. Isso foi em 2017. Ele não estava conseguindo nada com o caso mas continuou ganhando clientes. Explicou que as vitórias só viriam quando Trump fosse eleito porque ele enfrentaria o "establishment". Abriu a empresa E-Clause e nomeou Neely sua social media e captadora de clientes.

Após a eleição de Trump, a casa começou a cair. Obviamente que não no grupo QAnon em si, onde continuava falando as expressões necessárias para ser reconhecido como especialista. O problema foi na tal da empresa E-Clause. As causas judiciais assumidas por Hallett não andavam e os clientes começaram a cobrar publicamente as respostas. O problema é que nem advogado ele era, mas mentia judicialmente. Chegou a ser desqualificado em algumas ações porque não podia assumir o processo sem ser advogado. Maldito establishment, né?

Diante da crise, Hallett explicou aos seus seguidores outro problema do subterrâneo do Judiciário norte-americano. O sistema, que há era corrupto, havia sido contaminado pela sharia, a lei islâmica de costumes. Culpa da migração desenfreada no governo anterior a Trump. É por isso que estavam tendo dificuldades em conter os estratagemas dos satanistas. O "especialista em custódia" fez diversos vídeos sobre isso e teve uma boa audiência. Mas isso não acalmou o coração de quem esperava reaver custódia de filho.

O governo Trump estava chegando ao fim e Christopher Hallett não conseguiu ganhar nenhum processo de custódia, como havia prometido a seus clientes do grupo QAnon. Neely Petrie-Blanchard entrou em desespero e resolveu sequestrar as filhas menores, gêmeas de 7 anos, incentivadas pelo grupo. Usou o carro da empresa E-Clause e saiu sob fiança, com ajuda de um funcionário do esquema. Passou meses dividindo o tempo entre tentar reaver as filhas e postar teorias QAnon nas redes sociais. Depois disso, o jogo virou.

Muitos clientes já tinham perdido completamente a confiança em Hallett, mas Neely tinha um laço com ele que costumavam dizer que era "de pai e filha". Quando ela começava a perceber a mentira em que se enfiou, ele aumentava as mentiras. A última era de que Trump havia pedido a ele para criar um novo Departamento de Justiça e oferecido ajuda pessoal nos casos de custódia de Neely. Agora eram dois, o original da filha mais velha que estava com a avó paterna e as gêmeas que ela esqueceu na casa da mãe e não visitou mais.

Nas últimas tentativas de manter a farsa, Hallett chegou a prometer que Neely trabalharia no gabinete pessoal de Trump. Nessa altura do campeonato, Biden já havia sido eleito. Ocorre que os seguidores do QAnon ainda acreditavam que era tudo uma armação feita por Trump. Ele havia forjado o resultado enquanto negociava a delação premiada de Biden por adulterar urnas. O golpe da custódia conseguiu ganhar sobrevida escorado em uma teoria conspiratória.

Quando o grupo QAnon ao qual Neely se associou percebeu que a eleição foi de verdade mesmo e Biden é o presidente dos Estados Unidos, bateu o desespero. Haviam perdido a janela de oportunidade de reaver a custódia de seus filhos sob Trump o único capaz de enfrentar os satanistas pedófilos. Como isso aconteceu? Concluíram que Christopher Hallett era um inflitrado do grupo satanista. Neely deu um tiro na cabeça dele. Os fãs de Hallett crêem que ele encenou a própria morte para fugir do establishment.

Neely Petrie-Blanchard fugiu da cena do crime. Queria se entregar, mas temia a ligação das autoridades da Flórida com o establishment, então foi até a Georgia. Está presa, admite o assassinato e seu advogado tenta uma teoria que explique todo o enredo que acabou em tragédia. O grupo do qual ela fazia parte acabou se dividindo. O drama humano das família enganadas em algo tão delicado quanto custódia pesou demais. Mas ainda há os que continuam acreditando em tudo e juram que Hallett está vivo. Precisaram fazer essa encenação para que ele se proteja até poder voltar.

Isoladas, teorias da conspiração parecem absurdas. O QAnon é um dos melhores exemplos, não faz o menor sentido. Este caso mostra como essas teorias são montadas sob medida para dar respostas a angústias que mexem com a alma humana. Para pais que enfrentam injustiças ao lutar pela custódia dos filhos, as observações do QAnon podem começar a fazer sentido. Eles tomarão decisões fundamentadas pelo entrelaçamento de fatos vivenciados com as explicações fantasiosas que aliviam suas almas.

Desespero é terreno fértil de picareta. Onde houver um grupo desses, haverá escroque tomando dinheiro de gente bem intencionada com as desculpas mais estapafúrdias. Só que agora tudo é digital, até a transferência do dinheiro. Escroques que mentem, fingem ser especialistas no que não são e tomam dinheiro de gente com angústias reais pouco se importam com os resultados. Essa foi só mais uma tragédia gerada por eles. Que aprendamos a impor limites.

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