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PROTESTOS MINNEAPOLIS
| Foto: Kerem Yucel / AFP

Muito esperto, nosso ex-presidente Lula já se ligou que a patrulha identitária é igual ao povo que dá seta para um lado mas vira para o outro: serve só para atrapalhar e fazer passar raiva. Em novembro, fiz um artigo falando desse tema. Agora é a vez dos Democratas baterem de frente com quem financia essas iniciativas, as fundações internacionais. Claro que não são apenas do Soros, coloquei o nome dele no título por purro bairrismo húngaro.

Vivo falando que o brasileiro é bom de iniciativa e ruim de terminativa. Agora mordi a língua. Gringo também é a mesma coisa, a diferença está em conseguir medir e constatar. Diversas lideranças do Partido Democrata e de Think Tanks progressistas já dizem abertamente que financiar lacrador é tiro pela culatra. A patrulha do cancelamento ficou bilionária e poderosa, só que isso tirou votos do campo progressista.

O professor de jornalismo político da Universidade de Columbia, Thomas B. Edsall, fez recentemente um artigo de opinião no New York Times sobre o tema. Ele cita textualmente diversas falas de democratas mostrando que o extremismo na esquerda, principalmente nas pautas identitárias, gera mais votos para Republicanos do que para Democratas.

Há uma lógica de que basta "trabalhar pela inclusão" ou "estar do lado certo" para ter o passe livre da olimpíada de falar bobagem. Uma vez reconhecida como positiva pelo grupo, uma personalidade ou entidade pode ter ações que resultem no oposto do que ela prega. Aí, a culpa não é de quem foi financiado prometendo resolver problemas e acabou criando, é da opressão, do patriarcado, da cultura cis-normativa, dos taxistas que apóiam Bolsonaro.

Americano progressista gosta de posar de virtuoso e seguir modinha? Claro que sim, mas gosta muito mais de dinheiro e poder. Há uma equação que preocupa: quanto mais dinheiro as Fundações Filantrópicas colocam em iniciativas dos canceladores, menos votos para Democratas e, consequentemente, menos cargos e posições de poder. Iniciativas de cancelamento podem ter vitória no curto prazo, mas esgarçam o tecido social de uma maneira que representam derrota adiante.

Antes de entrar na parte de filosofar e falar mal do povo que só vive de falar mal dos outros, vamos aos números. Houve um aumento significativo no aporte de dinheiro das fundações progressistas em pautas que tendem ao extremismo. E aqui não questiono a importância das causas, mas a proposta de enfrentamento. O cidadão comum não topa conviver com cancelamentos e reações desproporcionais.

Como a linguagem utilizada por progressistas é sempre muito fofa, ler o nome dos programas dá a impressão de que eles são bem intencionados. Então se financia algo para diminuir a violência policial ou aumentar a inclusão. Ocorre que isso não é um objetivo, é só uma marca. As pessoas levantam a bandeira mas agem no sentido oposto. O movimento para não financiar mais a polícia e o cancelamento de celebridades têm gerado uma aversão que os Democratas já quantificam.

Pontuo aqui algo bem importante, o erro que cometemos ao confundir a patrulha identitária com militância política. Tanto é a antipolítica que o resultado é prejudicar na prática quem a patrulha diz que pretende favorecer, os progressistas. Militância e política dependem de construir pontes, alianças e conquistar aliados, ainda que temporários. O método identitário é outro, o de construir adversários e inimigos. Essa atividade tem sido extremamente rentável e cada vez mais.

Vamos aos números, calculados pelo site Candid, de uma fundação especializada em informação sobre ações sociais. Entre 2011 e 2019, as Fundações Filantrópicas destinaram US$ 3,1 bilhões para programas de equidade racial. Após a morte de George Floyd, se investiu por mês nessas ações aquilo que era investido por ano. Entre 2020 e 2021, foram mais de US$ 33 bilhões.

A bem da verdade, preciso admitir que George Soros decepciona toda a comunidade húngara da Zona Oeste de São Paulo e adjacências ao não encabeçar a lista de doações. Onde já se viu? A bem da verdade, vamos aos números: Ford Foundation, US$ 3 bi; Mackenzie Scott, US$ 2.9 bi; JPMorgan Chase & Co. Contributions Program, US$ 2.1 bi; W.K. Kellogg Foundation, US$ 1.2 bi; Bill & Melinda Gates Foundation, US$$ 1.1 bi; Silicon Valley Community Foundation, US$ 1 bi; Walton Family Foundation, US$ 689 mil; The William and Flora Hewlett Foundation, US$ 438 mi e a Foundation to Promote Open Society, US$350.5 mi.

Vendo esse volume todo de dinheiro, a primeira coisa que me ocorre é fazer um curso do dialeto identitário, começar a combater a branquitude e ser mais rica que meus primos no Natal que vem. A segunda coisa que me ocorre é o resultado. Se você tem um aumento de mais de 1000% num investimento bilionário em equidade racial, alguma melhoria vai conseguir, certo? Errado. Piorou. É o que acaba de mostrar uma pesquisa feita nos Estados Unidos pelo Instituto Gallup.

Claro que a culpa não é dos militantes que receberam mais de US$ 33 bilhões para lutar pela equidade e estão investindo em cancelamento e gritaria. Aliás, observe o gráfico e veja a mudança significativa na qualidade das relações após a popularização das redes sociais, por volta da virada de 2010. Assim que sinalizar virtude e apontar o dedo começam a render status social, a militância degringola.

Na lógica da apoteose da superficialidade, é possível argumentar que as relações raciais pioraram porque finalmente estão sendo apontadas as distorções. Os programas de equidade seriam para atender minorias. Adivinha quem são os mais refratários aos programas do tipo "tirar financiamento da polícia"? Negros e latinos. Na verdade, nos EUA, a maior porção de progressistas moderados vem das minorias.

"A ironia sombria é que, ao tentar cortejar eleitores não-brancos, os democratas acabaram por desligá-los. Não foi apenas que eles erraram os dados – eles também estavam cortejando essas 'comunidades marginalizadas' de maneiras que não as atraíam. Pois a realidade é que os eleitores mais moderados do Partido Democrata são desproporcionalmente latinos e negros" , escreveu Jonathan Chait recentemente em sua coluna da New York Magazine.

Em seu artigo do New York Times, Thomas B. Edsall coletou respostas de executivos de todas as grandes Fundações Filantrópicas que financiam pautas de esquerda. Eles são unânimes em dizer que não têm nenhuma preocupação com o destino do Partido Democrata. O pessoal da Open Society vai mais longe ainda. Para eles, a derrota nas urnas não vem da pauta identitária mas da falta de outras pautas dos políticos progressistas para economia, educação e saúde.

As Fundações Filantrópicas dizem ter suas prioridades e não parecem sensibilizadas com a derrocada do poder político Democrata. É um desafio gigantesco para políticos progressistas, já que eles ficam à mercê de uma pauta que não é controlada por eles. A cúpula democrata, jornalistas, analistas políticos, a cúpula das fundações e - mais recentemente - o mercado publicitário estão muito à esquerda da média dos democratas nos Estados Unidos.

Temos uma minoria que propõe regras rígidas que não se aplicam a ela própria. É o tal do "fala como Che Guevara mas vive como um Rockefeller". Confesso que invejo, esse pessoal deve rir o dia inteiro dos trouxas que acreditam na sinalização de virtude deles. O fato é que, após as mídias sociais, grupos minoritários radicais descobriram que não precisam dos políticos para efetivamente exercer poder na sociedade. Eles têm bilhões para amplificar suas ideias, calar opositores e parecer que são maioria.

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