O fundo do poço das Big Techs tem subsolo, mas Austrália quer acabar com a festa
| Foto: TheDigitalArtist/Pixabay

O governo da Austrália acaba de tomar a mais importante iniciativa do mundo de regulamentação de Big Techs, já atravessou a fase de ouvir especialistas para a de propostas. A iniciativa é vista como o piloto de testes sobre até onde os políticos conseguem ir e como as Big Techs vão reagir à tentativa de conter seu poder. O cidadão comum já começa a sentir os efeitos do acúmulo de poder dessas empresas que, até ontem, pareciam ser fiadoras da liberdade. Estudiosos e ativistas da área sabem que já passamos dos limites há muito tempo.

A tentativa australiana de fazer com que as Big Techs, principalmente Google e Facebook, obedeçam leis como todos os outros setores da economia coincide com um novo patamar de radicalização da sociedade. Se já parecia dantesca a invasão do Capitólio por seguidores das teorias QAnon, agora piorou. Órfãos de líderes após várias prisões, milhares deles migraram para uma seita esotérica new age chamada Sabmyk.

Desde maio de 2019 o FBI considera terrorismo doméstico alguns tipos específicos de teorias QAnon: governo global oculto, dominação sionista e rede internacional de intelectuais a favor da pedofilia. Os temas não são o motivo, mas os fatos. Desde 2017, todos os atentados terroristas ocorridos em solo norte-americano tiveram como autores seguidores de alguma dessas teorias, um cenário impensável há 10 anos.

As redes sociais mudaram completamente o cenário mundial do terrorismo a partir de 2010. Foi o primeiro ano após uma mudança no funcionamento do algoritmo do Google que, logo em seguida, começou a ser adotada por todas as Big Techs. Até 12 de janeiro de 2009, quando você fazia uma busca, os resultados apresentados eram aqueles dos sites mais acessados para o tema. A partir de então, passou a ser dos sites mais interativos. A mudança parece sutil, mas é uma revolução profunda.

O resultado da mudança do algoritmo do Google em 2009 é que produzir conteúdo de qualidade ou popular deixa de ter relação com o resultado no rankeamento desse conteúdo ou distribuição para os usuários. Passa a aparecer antes nas buscas e ser mais mostrado para os usuários o conteúdo de quem gera mais engajamento naquele tema. Isso explica a estrondosa mudança, por exemplo, na forma como se faz a cobertura política nos últimos 10 anos. Ter bons resultados na internet depende de provocar emoções estimulantes.

Hoje, no Brasil, a grande maioria das pessoas só consome notícias via redes sociais. Ou seja, os veículos de comunicação viraram parte deste ambiente e serão cada vez mais impactados financeiramente por ele. Você pode considerar absurdo consumir notícias pelo Facebook ou Twitter, mas confesso que faço isso e talvez você faça também. Quando você vai ao perfil oficial do veículo de comunicação em que confia ou clica no link de uma notícia, essa reação é mediada pelo algoritmo da plataforma. Isso significa consumir notícias via redes sociais, fazemos sem nem perceber.

Na internet, as coisas acontecem numa velocidade tão grande que temos dificuldade para acompanhar as mudanças. Quem imaginaria que um bando de gente falando em defender crianças e eleições justas acabaria invadindo o Capitólio e assassinando sem dó? Agora muitos estão arrependidos. Depois de 1 mês na cadeia comendo comida vegana, privilégio que foi buscar na Justiça, o tal invasor vestido de viking pediu desculpas publicamente. Muita gente imaginou que impedir que manipuladores estejam nas plataformas resolveria, mas é preciso ir muito além.

Depois de compactuar com todo tipo de insanidade durante anos, Google, Facebook e Twitter resolveram banir Donald Trump de suas plataformas. Foi um bom movimento de marketing e, num primeiro momento, realmente caíram bastante os diálogos sobre teorias QAnon. Só que muita gente abriu canais no Telegram, empresa de origem russa, para falar dos temas considerados terrorismo. Alguns deles, com centenas de milhares de seguidores, criaram a seita Sabmyk.

O fenômeno foi reportado hoje pelo pesquisador Gregory Davis, do Projeto Hope Not Hate, que documentou a existência de uma rede de 100 canais do Telegram coordenados entre si com mais de 900 mil usuários. Os usuários não percebem que são canais coordenados porque tratam de temas muito diferentes. A maioria parecia ser refúgio para os seguidores de QAnon, mas há também canais dedicados a cristãos evangélicos, Britânicos Acima de Tudo, ufólogos, antivacina, fãs de Rudolph Giuliani e canais que imitam jornalísticos, como London Post e Chicago Reporter.

Temas como esses e grupos de manipulação travestidos de jornalistas ganharam muitos adeptos na última década devido à mudança que as plataformas fizeram na lógica de seus algoritmos. Pessoas vão ao Telegram buscando ufo, Trump, conteúdo cristão e recebem isso. Só que também recebem toneladas de QAnon. Todos os grupos passam a receber então algo ainda mais místico, a seita Sabmyk, organizada em torno da princesa herdeira da primeira espada do mundo. O grupo foi criado em dezembro e já tem mais de 1 milhão de seguidores. As últimas postagens dos membros são cada vez mais militaristas.

QAnon era nome de um personagem, que jamais se mostrava e dizia ser um alto funcionário do governo dos Estados Unidos. O Sabmyk também tem uma personagem, a princesa Ameli Achaemenes, iraniana vivendo em Berlim, feminista e pacifista. Ela diz ser descendente da realeza persa e ter salvado o mundo. Fez isso quando o bilionário George Soros ofereceu uma tonelada de dinheiro por uma noite com ela, mas ela pediu a espada Shawunavaz, a mais antiga do mundo, retratada por todos os grandes pintores e que teria pertencido a figuras como Aquiles, Gilgamés e Alexandre, o Grande. Ela destruiu a espada que teria o poder de destruir o mundo. Veja a única foto disponível da princesa.

Contando a história assim, obviamente não faz o menor sentido. Mas os canais usam técnicas de lavagem cerebral antigas, como a de "breadcrumb trail". Você apresenta aos poucos uma série de elementos e estimula o cérebro das pessoas do grupo a enxergar um padrão entre eles. Enxergar padrões, mesmo falsos, é o maior talento do cérebro humano. Então se fala do poder de George Soros, se especula como ele ficou tão rico, se mostra uma foto dele com alguém ligado a algum tipo de religiosidade maldita, por aí vai.

O pesquisador Gregory Davis mostrou que já há 4 grupos que se intitulam um dos 12 generais da Sabmyk. Nesses grupos, o tema central que está colocando o mundo em perigo apesar da destruição da espada é a eleição de Biden. Eles garantem que é a maior fraude da história da humanidade e que o impeachment de Trump precisa ser detido imediatamente. Orientam os seguidores a partir para o ataque imediato contra quem defende o impeachment. Como já vimos, estavam errados os arrogantes que julgam ser apenas um bando de doidos falando bobagem na internet.

Ironia do destino, a aposta é que Biden tende a apoiar as Big Techs, causadoras desse caos. Até Trump apoiou, mesmo quando se viraram contra ele. Dinheiro fala mais alto: a sede de todas essas empresas fica nos Estados Unidos. A exceção é o Telegram, que surgiu na Rússia e agora fica nos Emirados Árabes Unidos. Além de contribuir de forma generosa em todas as campanhas presidenciais americanas, as Big Techs são as empresas que mais faturam no mundo. E, nos EUA, isso significa pagar impostos.

Como na Austrália a situação é muito diferente, os políticos podem ser mais ousados. A primeira situação que querem resolver é o desequilíbrio entre a indústria da comunicação e as Big Techs. Hoje, a maioria das notícias é consumida via redes sociais. Por outro lado, compartilhamento de notícias se tornou a principal forma de socialização via plataformas. O financiamento da indústria da comunicação sempre foi por publicidade e assinantes porque o produto era consumir informação. Agora, as notícias são usadas pelas plataformas como conteúdo de socialização nas bolhas segmentadas, apenas para manter os usuários interagindo, então caem as razões para ver publicidade ou assinar.

Para muitas pessoas, notícias passaram a servir para compartilhar, dar e receber likes e conversar com outras pessoas. Aliás, principalmente para bater boca com outras pessoas. Para isso basta o link ou o print da manchete, não precisa ler a notícia. Além disso, a quase totalidade das pessoas acessa internet via celular. Os planos de dados não cobram para acessar redes sociais, mas cobram para acessar sites noticiosos. Diante disso, a Austrália quer que as plataformas paguem a quem produz a notícia para poder usar.

O Google já ameaçou tirar todas as notícias da busca se isso for feito. O Congresso australiano diz que essa reação é chantagem e bullying. O primeiro-ministro, Scott Morrison disse: "Nós não respondemos a ameaças". A França ficou neste mesmo impasse até que as Big Techs procurassem os veículos de comunicação e entrassem em acordo para uma relação menos predatória. As empresas passarão a ter algum controle sobre como seu conteúdo é distribuído pela plataforma e poderão colocar anúncios no que é veiculado. Atualmente, o Google fatura com anúncios sempre e a empresa só quando entram no site dela. Na França a ideia é que o lucro em cima de notícias na página do Google seja dividido com quem as produz.

Enquanto se acompanha no que vão dar as iniciativas envolvendo veículos de comunicação, a Austrália faz uma proposta ainda mais ousada: quer que o algoritmo do Google seja submetido às agências governamentais do país. Por um lado, o sistema de busca deixaria de ter a possibilidade de usar práticas ilegais, abusivas e antiéticas no algoritmo. Por outro, a qualidade da entrega poderia piorar. Quem vence?

Os algoritmos das redes sociais são programados para nos entregar o que queremos, mesmo que a gente não saiba exatamente como dizer. Não há uma forma padronizada de buscar informação, pessoas buscam com palavras diferentes. O Google se aprimorou em dar à pessoa o que parece ser seu interesse, de acordo com os dados já coletados, mesmo que a busca seja feita de forma errada. O algoritmo segmenta grupos, incentiva a radicalização e faz ver as diferenças muito mais nítidas que pontos em comum. Por outro lado, sem ele, cada pessoa teria de aprender um formato universal para fazer suas buscas. Os resultados parariam de aparecer como hoje.

A Microsoft já viu aí uma oportunidade de mercado. Como o buscador dela, o Bing, não tem algoritmos tão aprimorados quanto o Google, quase não é usado. Por outro lado, eles não teriam nenhum problema em submeter seus algoritmos a quem quer que seja, abririam aos governos. A CEO da Microsoft Australiana, Satya Nadella, já ofereceu ao primeiro-ministro a abertura do algoritmo de seu buscador e sua submissão a qualquer agência oficial. Por um lado, seria um freio à radicalização. Por outro, o aprimoramento da ferramenta seria sempre muito lento.

O grande desafio de regulamentar Big Techs é a velocidade das mudanças. Pense em quanto tempo demorou para se passar da imprensa escrita para a falada e daí para a imagem. Houve tempo para que o cidadão comum entendesse os fenômenos e pudesse compreender como estavam sendo regulamentados pelo governo. Hoje não dá tempo nem dos políticos, rodeados de assessores e especialistas, realmente compreenderem os novos fenômenos. Estamos correndo atrás das Big Techs pelo monopólio do discurso público e a evidente radicalização que veio disso porque já entendemo como funciona. E fenômenos como a seita Sambyk? Por enquanto, apenas sabemos que existem e são cada vez mais rápidos.

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