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O país em que o maior pecado é o sucesso
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Semana passada, a Deustche Welle Brasil fez uma reportagem linda com um rapaz que deveria ser orgulho do nosso país. Wellington Vitorino, 26 anos, é o primeiro brasileiro negro aprovado no MBA do prestigioso MIT, Massachussets Institute of Technology. Também deve ter um currículo único, que inclui venda de refrigerantes na praia aos 8 anos de idade e de picolés num batalhão do Exército a partir dos 12 anos.

Ele quer ser um dia presidente do Brasil, mas depois de trabalhar pelo menos 20 anos na iniciativa privada. Já fundou o Instituto Four e o ProLíder, para formar novas lideranças políticas com mais qualidade. A história contada pela reportagem mistura brilhantismo com um talento pessoal único para descobrir oportunidades. Em qualquer lugar do mundo, esse rapaz seria uma unanimidade. Aqui não.

Nas redes sociais, a história inspiradora de Wellington Vitorino virou um para-raio de recalque. Para a turma da lacração, ele não é bom o suficiente porque aceitou a bolsa de estudo da Fundação Ford e é da Rede de Líderes da Fundação Lehmann. "A nova Tábata", dizem como se fosse xingamento. Que bonito o pessoal do monopólio da virtude esculachando negro e mulher que não obedecem. É o justiceiro social do tipo Justo Veríssimo.

Entre os mais de 500 comentários na postagem oficial do Facebook da DeustcheWelle, o público se dividia. Metade se empolgava com a vitória de um jovem brasileiro e com a possibilidade de ter gente preparada na política. A outra metade se dedicava a fazer julgamentos morais que, na verdade, partiam puramente de ideologia. Li cuidadosamente os comentários e o mais curioso foi perceber que alguns sequer tinham lido a matéria antes de comentar.

Ninguém pode tirar a razão de Tom Jobim quando disse que, no Brasil, sucesso é ofensa pessoal. Ah, mas os comentários são sobre política. Será? Não entendo assim. Nos últimos 10 anos, com a formação de bolhas nas redes sociais, muitas ações emocionais se disfarçam como política. Inveja inclusive. Fiquei pensando quantas daquelas carinhas no Facebook estavam profundamente infelizes porque o rapaz passou no MIT e foi elogiado pela imprensa alemã.

O jargão político tem sido, nos últimos tempos, um disfarce para o comportamento de Maria Joaquina do Carrossel. Pessoas maldosas que querem justificativa moral para suas perversidades têm se enfiado na política, sobretudo nas redes sociais. O mesmo acontece com quem está sem propósito na vida, querendo se sentir importante. O engajamento na militância virtual passou a suprir essa lacuna.

Na era da superexposição, também vivemos a era da falsidade e dos filtros. As pessoas mostram nas redes sociais as vidas que querem ter, não as que realmente têm. Quem já se sentia diminuído, fútil ou desimportante entra num mundo em que todos subitamente passam a fazer coisas importantíssimas. Pelo menos nas redes sociais. Essas pessoas também querem fazer coisas fortes, que mudam o mundo.

Realizações importantes dão trabalho, exigem esforço, tempo e consistência. Só que nem todas elas são instagramáveis. Um casamento longo é uma realização importante mas o instagramável é só a comemoração. Imagina se fosse possível só postar a comemoração sem precisar atravessar todos os desafios do casamento e receber a mesma quantidade de reconhecimento dos outros. Na política, isso é possível. Se bobear, até em casamento, mas deixemos para outra coluna.

O brasileiro descobriu a militância política ao mesmo tempo em que se popularizaram as redes sociais. Daí vem uma confusão entre ser e parecer ser que se arrasta até hoje. Aderir ao vocabulário e rituais de um grupo pelas redes é visto como militância, sobretudo se a pessoa começa a atacar quem entende ser do grupo oposto. Isso não tem nada com política. A pessoa com raiva do sucesso do outro usa o vocabulário político para fingir que age em nome de algo importante.

No bate-boca das redes sociais, todo mundo é contra algo e sabe contra o que é. Isso não basta para militância política, é necessário saber a favor de que a pessoa é, pelo menos uma pauta mínima. Por aqui, geralmente a pessoa é a favor de uma pessoa ou contra outra pessoa. E daí nós temos ainda mais caracterizada a confusão entre política e o comportamento de menina má do colégio. Ocorre que essa atividade faz com que as pessoas sintam ter feito algo importante.

Por que as pessoas se dedicam a passar vergonha na internet corrigindo o vocabulário alheio no movimento da Etimologia Freestyle? Não é porque querem melhorar a sociedade, não há um único estudo mostrando que melhore e há vários mostrando que piora. As pessoas querem se sentir importantes e mostrar aos seus pares que estão fazendo algo por uma causa que eles julgam nobre. E por que não faz de verdade? Dá trabalho.

Isso se repete para todo gosto, em todas as áreas do universo político. Hoje, guerrear contra moinhos de vento na internet se converteu em um grande mercado que começa a engolir até as empresas. Se você convencer um grupo de que ele está militando por uma causa nobre, pode vender livros, cursos, encontros, ter apoiadores. Para o grupo vai ser muito mais fácil dizer que milita enquanto passa o dia na internet, vale a pena pagar.

Qualquer que seja a causa ou vertente política, hoje muita gente se sente feliz e importante por atuar politicamente. Ocorre que a "atuação" é fazendo coisas que não têm nenhum impacto na realidade nem na causa que defendem, quando não têm o impacto contrário. É muito difícil abrir mão do reconhecimento nessa situação, aquela em que ele não é merecido. Por isso o Wellington Vitorino gerou tanta raiva nas redes. Goste ou não dele, concorde ou não com ele, fez por merecer. Num mundo de aparências, chega a ser ofensa pessoal.

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