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Madeleine Lacsko

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Reflexões sobre princípios e cidadania

Vamos derrubar estátuas?

Entenda a nova modinha importada dos justiceiros sociais de internet.

  • Por Madeleine Lacsko
  • [09/06/2020] [15:47]
Vamos derrubar estátuas?
| Foto:

Nos anos 90, em São Paulo, fazia um sucesso estrondoso o esquete de rádio "Sobrinhos do Ataíde". Havia um personagem que todos nós conhecíamos naqueles anos imediatamente após a abertura da economia no governo Collor, o Marquinho. "Xiiii, Marquinho" era gíria para dizer que algo deu errado e o personagem sempre garantia que, fosse nos Estados Unidos ou feito pelos americanos, daria certo.

A porção gourmet da elite paulistana não gosta de admitir, mas é coalhada de Marquinhos. E uma moda muito útil tem sido a importação de protestos. Quando a vida não dá muitos motivos para protestar, é conveniente ver uma coisa legal na internet, fingir que se importa e abraçar a causa. A moda agora é derrubar estátuas históricas, só que uma coisa muito diferente do proposto pelos ministros de Bolsonaro.

Em 5 de dezembro do ano passado, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mandou retirar uma estátua de Carlos Lamarca de um parque em Cajati, interior de São Paulo. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, sinalizou que gostaria de fazer o mesmo com um mural de Paulo Freire, no ministério. Agora, progressistas que se consideram monopolistas da virtude resolveram aderir a esse movimento, mas juram que é uma coisa totalmente diferente. A gente acredita, né?

A história toda começou em um protesto do #BlackLivesMatter em Antuérpia, na Bélgica, que obviamente deve ser copiado por tratar-se de lugar muito chique. Os manifestantes vandalizaram uma estátua do rei Leopoldo II, que promoveu uma carnificina na colonização do Congo, com chagas que até hoje aterrorizam o país. A área chegou a ser propriedade particular dele e as torturas incluíam até amputações em crianças. Ficou decidido tirar a estátua do parque público, onde se entendeu que ficam os personagens que devem ser homenageados, fazer uma restauração e manter a peça em um museu, onde se conta a história.

Como a notícia hoje corre mundialmente, diversas outras cidades começaram a raciocinar sobre seus monumentos históricos. Acredito que alguns tenham passado despercebidos por muito tempo e o questionamento é novo e válido. Como tudo feito por multidões, isso também descambou e já tem montes de vídeos de gente derrubando estátua mundo afora. Como nós vamos sobreviver sem copiar isso também?

Qual é exatamente o movimento que queremos copiar? Apontar quais personagens históricos que compactuaram com a escravidão têm monumentos para parecer que somos boas pessoas. É muito melhor do que a chatice de precisar realmente dar atenção ao sofrimento e às demandas de quem sofre com preconceito.

Já surgiu uma lista enorme de monumentos que deveriam ser derrubados no Brasil. Todos os de Duque de Caxias, qualquer um que mostre um bandeirante e, se brincar, vai respingar até em Tiradentes a história. Qual o critério? Não fica muito claro, parece ser mesmo espernear em rede social tentando sinalizar virtude apontando os defeitos de caráter dos nossos personagens históricos. Fosse proibido fazer estátua de quem tem defeito de caráter, não sobrava nem estátua de santo no Vaticano.

O jornalista Laurentino Gomes, autor dos livros mais comentados sobre a nossa história, colocou-se contra a derrubada de estátuas e atraiu a ira de muita gente desesperada por parecer boazinha e sem preconceitos, muito diferente desses nossos antepassados terríveis.

De acordo com os critérios dos justiceiros sociais de internet, nem a Irmã Dulce qualificaria para ter uma estátua no Brasil. Somente as pessoas que jamais tiveram uma mácula na vida, como eles próprios, os progressistas, monopolistas da virtude, poderiam virar estátuas. E entenda-se, de uma vez por todas, que isso é muito diferente do que fez o ministro Ricardo Salles com a estátua de Lamarca ou do que gostaria de fazer Abraham Weintraub com o mosaico de Paulo Freire. Qual a diferença? Pois é.

Sequestrar pautas legítimas e usá-las como recurso para sinalizar virtude é uma tática cada vez mais comum na era dos likes e só serve para esculhambar discussões sérias. A questão das estátuas é séria e precisa ser discutida. Não se acha uma estátua de Stálin ou de Hitler onde foram originalmente colocadas. Por quê? Porque foram feitos debates sérios e profundos sobre como preservar a memória do povo sem desrespeitar a memória dos mártires. E não há solução pronta, fácil nem rápida para isso.

Cada fase extremista e violenta da história de um povo fará heróis que gostam de ostentar superioridade e mártires que merecem ser lembrados. Como equacionar esses dois valores respeitando a nação mais do que autoridades passageiras. Na Hungria, optou-se por reunir em um parque, o Memento Park, todas as estátuas e símbolos do período de ditadura comunista.

Seria essa uma solução para o Brasil? Ou levar para museus? Deixar onde estão? Vale lembrar que não temos ainda nem solução para conter a pandemia, coisa que o Paraguai já conseguiu equacionar, então talvez seja um caminho mais complicado do que julgam os tuiteiros.

Qualquer que seja a solução, ela tem de ser para o povo, para a valorização da nossa história, da nossa cultura e do sofrimento do cidadão comum que construiu o Brasil. E esse processo, infelizmente para muitos, inclui ouvir o que as pessoas querem e não apenas dizer a elas o que devem querer.

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Comentários [ 13 ]

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    Gil Moura Neto

    ± 0 minutos

    Madeleine Parabéns pelo artigo ! Poucas jornalistas fizeram esta bela reflexão. Concordo plenamente que muita gente que se acha descolada e bacana, prefere participar de Um protesto moderninho, da moda, do que realmente ajudar as classes menos favorecidas. Porque não vão trabalhar voluntariamente em uma obra social ? É disso o que o Brasil precisa. De mais solidariedade, de mais doação pessoal para os movimentos que realmente contribuem para as pessoas mais vulneráveis. Existem vario movimentos e Fundações sociais fazendo um bom trabalho. Vamos pensar mais no Brasil e menos em ser chic, participando de movimentos da moda !

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    Gil Moura Neto

    ± 5 minutos

    Madeleine Parabéns pelo artigo ! Poucas jornalistas fizeram esta bela reflexão. Concordo plenamente que muita gente que se acha descolada e bacana, prefere participar de Um protesto moderninho, da moda, do que realmente ajudar as classes menos favorecidas. Porque não vão trabalhar voluntariamente em uma obra social ? É disso o que o Brasil precisa. De mais solidariedade, de mais doação pessoal para os movimentos que realmente contribuem para as pessoas mais vulneráveis. Existem vario movimentos e Fundações sociais fazendo um bom trabalho. Vamos pensar mais no Brasil e menos em ser chic, participando de movimentos da moda !

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    Nigro

    ± 4 dias

    As pessoas desgostosa com a vida, preferem mudar o passado, na esperança de ter um melhor presente. Coisa de maluco.

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    Lucio Araripe de Abreu e Lima

    ± 4 dias

    É nisso que dá nossa era de "influencers". Esse pessoal não pensa ,porque pensa que pensar dói ( Ah, essa foi boa ). Preferem que outros pensem por eles, Pra isso, vivem com o celular na mão à todo instante. Sobre o racismo, eles não são capazes de responder qual o país do mundo fez uma guerra entre brancos para ( morreram 600 mil ) para abolir a escravidão. Eles não sabem o que é a Libéria ( vão lá no Google ), um pais criado pelos americanos numa tentativa ( errada ) de resolver as consequências da escravidão. O pior, HOJE na Libéria, existe escravidão. Mas, essa do Tiradentes, eu não sabia...

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  • R

    Rogerio Barao

    ± 4 dias

    A questão, Madeleine, é que os tuiteiros parecem se espelhar no STF, acusam e julgam sem contraditório, porque no seu ambiente não há espaço para "ouvir o que as pessoas querem", pois só sabem dizer "o que elas devem querer".

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  • A

    Abrahao

    ± 4 dias

    Queria entender o que a derrubada de estátuas e vandalismo ajuda no combate ao racismo. Financeiramente piora, pq é um gasto público q está sendo destinado pra reparação do patrimônio público e q poderia está sendo alocado para o povo.

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  • J

    jairo

    ± 4 dias

    Aí o filho solteiro de 40 anos, que mora no décimo andar com os pais, acende o baseado, e começa a se comover com as causas racistas querendo derrubar estátuas ou depredar patrimônio público e privado, porém fornece a boca comprando sua droguinha, e consequentemente faz com que vários pais de famílias negros e brancos sejam mortos durante assaltos ou troca de tiros entre traficantes e policiais. Parabéns pra esses intelectuais canabienses!

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  • J

    jairo

    ± 5 dias

    Perfeito texto, grande jornalista.

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  • D

    Destemido

    ± 5 dias

    Esse grupelho blacks live matter não estão nem aí para os negros. Querem é causar o caos e vandalismo. Isto nunca foi uma causa social, mas sim ideológica. Prendam os vândalos sem fiança e com obrigação comunitária. Pintar as pichações, restaurar monumentos... vamos para com o ideologismo ****** e fazer algo de útil para a sociedade. Quem não quiser vá para China.

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  • M

    Maquiavel

    ± 5 dias

    O negócio é a polícia quebrar de cacette quem estiver destruindo estátua! Vandalismo é crime!!

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    1 Respostas
    • M

      Maquiavel

      ± 5 dias

      Aliás vândalos não conhecem outra coisa a não ser o braço forte do Estado!!

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  • M

    Massimo

    ± 5 dias

    Muito show Madeleine... como sempre. A moda é aplicar o código de conduta milenium para todas as personagens históricas... quem não se adequar será "cancelado", ou melhor derrubado do pedestal quem sabe vão colocar no lugar o Felipe Neto.

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    ALVARO JOSE JUNQUEIRA NUNES

    ± 5 dias

    Existe racismo sim, mas extrapolar uma causa justa para culpar uma sociedade inteira, no mínimo é miopia. Com o ódio reinante, o egoísmo cada vez maior e o radicalismo em escalada, qualquer detalhe é motivo de briga, enquanto o essencial, talvez por medo, fica em segundo plano, qual seja, o fato de que a experiência humana no planeta está se inviabilizando. Será que merecemos esta insanidade?

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