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Foto: Crédito: ALEX WROBLEWSKI /AFP
Foto: Crédito: ALEX WROBLEWSKI /AFP| Foto:

Um refrão agressivo, cantado em uníssono contra uma mulher. Ao centro, Donald Trump faz a pausa necessária para permitir a escalada da histeria no ambiente. Algum desavisado poderia achar que começo um argumento sobre a Convenção do Partido Republicano em Ohio, no já distante ano de 2016. Não é o caso. Trato aqui de um comício ocorrido ontem (18/07), na Carolina do Norte.

Contudo, para a estupefação de uma grande maioria de democratas e moderados, inclusive alguns poucos republicanos — ao menos em público —, o relato impõe um inconfundível déjà vu.

O alvo desta vez não foi Hillary Clinton, brindada com o coro “lock her up!” (algo como “prendam-na!”) durante a última campanha presidencial, sempre que o adversário e hoje presidente reunia a sua militância, mas a congressista democrata, muçulmana e somali de nascimento, Ilhan Omar (Minnesota). Em Cleveland, a turba bradou “send her back!”, uma clara referência a tuítes de Trump, em que não apenas ataca Omar e outras parlamentares (todas negras, pardas ou latinas), mas sugere que elas “voltem ao país de onde vieram”.

A estratégia de Trump pode ser odiosa para muitos e tida como divisiva pela maioria, mas já não é possível negar a sua eficácia. Não após ele ter sido eleito presidente abusando de idêntica retórica. Não quando se trata de reascender o ânimo da sua base de apoiadores para uma disputa eleitoral que começa a esquentar.

Uso o termo “idêntica” de propósito, pois talvez resida justo nessa açodada percepção um  equívoco potencialmente grave para o mandatário neste início de campanha pela reeleição: uma coisa é atacar Hillary Clinton, candidata ao mesmo cargo, com um jargão que suscita um improvável encarceramento da ex-senadora e ex-secretária de Estado por supostos crimes aventados durante uma corrida eleitoral com o intuito de ferir a sua imagem. Outra é fustigar um sentimento há muito presente na sociedade americana, embora mais explícito desde o advento do trumpismo. Falo aqui de milhões de imigrantes, legais ou não, e uma conflituosa sensação de pertencimento. Falo da busca por empregos, do tão propalado “sonho americano”. Falo da recusa de muitos americanos de nascimento com origem europeia em aceitar pessoas que apenas diferem deles esteticamente, acima de tudo na cor da pele, mas que no fundo se encontram na mesma situação. Ou, na pior das hipóteses, em situação similar à de seus antepassados. Falo de racismo. E do pavor de ser deportado.

Disputas eleitoral têm suas peculiaridades. Uma delas é a facilidade com que selos são fabricados e distribuídos, na esteira de discursos populistas e do clima de torcida organizada que invariavelmente acaba prevalecendo. Trump foi eficiente ao dividir como nunca os americanos, mas não está claro se faz bem quando, ao mirar em uma figura tão simbólica, inclusive do ponto de vista étnico e estético, acerta um grupo mais amplo de eleitores.

Não por acaso, na tarde de hoje veio a público dizer que “não ficou feliz” com os cânticos em Ohio — apesar de terem sido estimulados por ele próprio.

A sorte de Trump é que, do outro lado do pátio, o Partido Democrata permite o protagonismo de uma ala disposta a fazer o seu jogo. É chamado “squad”, um pelotão de congressistas formado pela própria Ilhan Omar, Ayanna Pressley (Massachusetts), Rashida Tlaib (Michigan) e a estrela midiática, Alexandria Ocasio-Cortez (Nova York).

Dentro do partido, começa a crescer um descontentamento por esse grupo chamar tanta atenção ao comprar brigas com o presidente, inclinando assim o debate para um tom que o favorece, ao invés de tratar de agendas mais importantes, como a geração de empregos, o sistema de saúde e o meio ambiente.

As discussões envolvendo a próxima eleição já começaram e ambos os lados parecem ainda se deixar pautar pelo que houve quando da última disputa. Do ponto de vista do presidente, é compreensível, afinal funcionou. Do lado democrata, contudo, não faz o menor sentido. Se a retórica da moralidade superior continuar sendo a pauta principal da oposição, Trump já pode comemorar. Mesmo que também cometa os seus erros.

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