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Velhos amigos, apesar de tudo
| Foto: Fotos: Divulgação | magem: Maryane Vioto Silva

Uma experiência recente com uma amiga que faleceu me fez refletir sobre as circunstâncias que mantêm alguém na minha vida, mesmo quando não há entre nós relações familiares, paixão ou a convivência diária no trabalho. Em outras palavras por que sou “velha amiga” de alguém ou alguém é meu “velho amigo”? Velho amigo que é, na interpretação que me ocorre agora, aquele que mantem contato ao longo de muitos anos movido pela consideração sincera, pelo carinho e pela vontade de estar junto.

A amizade tem tudo para ser transitória: temos amigos de infância, amigos da rua, amigos da adolescência, amigos da igreja, amigos do esporte, amigos da faculdade, amigos do trabalho. Mas crescemos, mudamos de rua, mudamos de turma, de paróquia, abandonamos o esporte, recebemos o diploma, trocamos de trabalho e nos aposentamos. Os amigos, a maioria, ficam lá atrás, naquele período e lugar a que pertenciam. Deixamos de gostar deles? Não. Deixamos de vê-los, e isso faz toda a diferença.

As circunstâncias originam as amizades e depois as matam. Novos hábitos, novos contatos e não vemos mais alguns companheiros de quem julgamos gostar muito. É preciso empenho para manter o contato, há que marcar almoços, convidar para um café e aceitar sem mágoa um não (“estou muito ocupado neste fim de semana”) e insistir. Se só eu insisto, é hora de aceitar que a amizade fraquejou, que não sou mais importante. Então me conformo e desisto ou perdoo o descaso e preservo a minha parte da amizade, que talvez tenha uma sobrevida. Talvez não.

Se tem algo que se pode afirmar sobre amizades é que elas se baseiam num contínuo e mútuo exercício do perdão. Perdoa-se atrasos, distrações, desinteresses, sumiços, chatices, falta de tempo, indiscrições. Eu te perdoo, você me perdoa. E por que mesmo?

Me ocorrem algumas razões para nos empenharmos em manter viva uma amizade. Primeira razão: porque gosto do amigo. Gosto, simples assim e assim tão lindo: gosto. Não disse que amo. Amo? Talvez (a amizade não exige declarações de amor). Mas certamente gosto de você.

Segunda razão: compartilhamos vivências que não compartilho com mais ninguém. Se perder este amigo, com quem irei falar dessas experiências, por mais pequenas e tolas que sejam? Se só nós dois achamos graça nessa história?

Terceira razão: o amigo me apoiou em alguns momentos, mostrou carinho por mim e eu valorizo isso. Ou simplesmente quero mais apoio.

Quarta razão: você me conhece, sabe das minhas fraquezas e eu sei das suas. Se ainda assim nos toleramos é porque, nessa relação que criamos, nossas fraquezas e faltas não são julgadas o tempo todo.

Entre amigos há a certeza de que somos nós contra os outros, sempre. Quando crianças, nos metemos em briga na escola mesmo que o provocado tenha sido apenas o amigo ou a amiga. É uma reação natural:, já que “mexeu com ele, mexeu comigo”. Adultos, tomamos o lado do amigo naquele mexerico em que ele está envolvido e que nem testemunhamos – que importância tem isso se já sei de que lado estou?

Com nossos amigos, formamos duplas ou trios ou quartetos em que os membros exibem falsas semelhanças que enganam quem está de fora. Não nos parecemos, mas ficamos felizes que os outros digam “Aqueles ali são iguais!”.

Além da companhia para aqueles programas que não gostamos de fazer sozinho, para que servem os amigos? Para nos dizer umas verdades? Raramente. Este tipo de relacionamento inclui amabilidades que se manifestam na forma de silêncios ou pequenas mentiras. Hipocrisia? Eu chamaria de afeto. Se seríamos mais úteis ao amigo sendo sempre sinceros é outra questão. Para refletir sobre esta questão, volto ao ponto de partida deste texto. Amigos sabem que nem sempre o outro sairá ileso de uma verdade dita a queima roupa e por isso colocam a preservação da amizade acima de tudo. Caso contrário, não existiriam velhos amigos.

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