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Marleth Silva

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<b> </b>Crônicas, ensaios e notas sobre a vida e o mundo

O amor se torna maior e mais nobre na calamidade

  • Marleth SilvaPor Marleth Silva
  • 21/03/2020 17:00
O amor se torna maior e mais nobre na calamidade
| Foto: Felipe Lima

Você se sente como eu, perplexo diante da situação nunca vista, mais surpreso que temeroso?

Não que eu subestime a pandemia, apenas a vejo, até este momento em que escrevo, se aproximando dia após dia, mas ainda distante de mim. Por enquanto o que ocupa minha mente é o espanto com a onda que vem vindo, tomando o planeta.

Você também se espantou com a cena do papa caminhando pela rua deserta de Roma? Ele estava a caminho da igreja onde rezaria por nós, talvez pediria por um milagre. Se não fosse pelo ciclista que passava no momento em que a foto foi feita, seria uma imagem dos fins dos tempos. O ciclista, investido de sua banalidade, reafirma que estamos no nosso velho mundo, que a vida segue.

A primeira vítima do coronavírus no Brasil foi um porteiro aposentado. A primeira vítima da peste que assolou a cidade de Omã no livro de Albert Camus foi o porteiro.

Não que eu subestime a pandemia. Por enquanto o que ocupa minha mente é o espanto com a onda que vem vindo, tomando o planeta

Que livro maravilhoso, A Peste! Neste momento, parece que fala de nós. Não insinuo que Camus profetizasse. Eu é que o uso como espelho buscando nele uma narrativa que me ajude a processar o que me cerca. É uma profecia ao contrário, uma projeção feita pelo leitor em busca de respostas.

“A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse período cheio de sinais desconcertantes e o início de um outro, relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico.”

É Camus falando de seus personagens diante da peste que se espalha por Omã. Poderia ser um de nós comentando o Brasil desta semana.

“Se tudo tivesse ficado por aí, os hábitos, sem dúvida, teriam vencido.” Mas agora os hábitos precisam ser derrubados, o isolamento se impõe. Passamos a ser aqueles que veem o mundo pela janela.

Não tenhamos vergonha de observar qualquer movimento lá fora. Nada de se esconder por trás da cortina, com medo de ser notado. A janela é nossa aliada.

Olhar pela janela é uma ação mal afamada. Abelhudos, desocupados e medrosos é que olham pela janela. Uma grande injustiça que temos a chance agora de consertar. Por trás do preconceito está a crença de que quem observa o mundo pela janela não tem coisa melhor para fazer. Devemos estar ocupados trabalhando, sempre. Ninguém diz “tive um grande dia observando a rua pela minha janela”.

Me corrijo: tenho um amigo que revela ter grande prazer observando a rua onde mora e os transeuntes de aparência banal, mas que – quem sabe? – carregam segredos, pecados e paixões que o homem que observa nunca conhecerá.

Numa sociedade construída sobre outras bases, talvez as pessoas não só passariam mais tempo à janela como compartilhariam suas impressões. Se temos um mundo todo lá fora, com árvores, pássaros, cães vira-latas, vento, sol e chuva, porque relegá-lo à banalidade e nunca o desfrutar com calma e atenção? A resposta é porque temos de ser apressados e ocupados para parecer importantes.

Olhar pela janela é uma ação mal afamada. Abelhudos, desocupados e medrosos é que olham pela janela. Uma grande injustiça que temos a chance agora de consertar

“A única coisa que me interessa, respondi-lhe, é encontrar a paz interior” – é Camus, novamente. Camus que fez literatura como quem faz filosofia. Sem a possibilidade de termos uma agenda cheia lá fora, temos a chance de experimentar outros hábitos e rotinas. Trabalhar até, mas quem sabe resta tempo para olhar lá fora buscando nada, experimentando essa forma de meditação, testando uma rebelião inocente contra as demandas urgentes e geralmente insignificantes que ocupam nossos dias.

“Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste que suprime o futuro, os deslocamentos e as discussões? Julgavam-se livres e jamais alguém será livre enquanto houver flagelos.”

Não entenda, você leitor, as citações que uso aqui como sinal de preguiça da minha parte, mas sim de generosidade. Dou-lhe o que há de melhor perto de mim, que é esta obra de leitura fácil e ao mesmo repleta de ideias inspiradoras.

Na Europa as livrarias estão fechadas. Talvez você deva se apressar para trazer Camus e outros companheiros para casa.

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Falar ao telefone é um hábito fora de moda, praticamente extinto entre as gerações que vivem com um telefone na mão. O aparelho deles é usado de outros modos e para outros fins. Preste atenção: uma pessoa de 20 anos jamais usa a palavra telefone para designar seu companheiro de todas as horas, mas sim a palavra celular.

Vem da Espanha, país cuja população está mergulhada no mais completo confinamento, a notícia de que as pessoas voltaram a falar ao telefone. Inclusive no telefone fixo, aparelho em extinção nos lares, que foi redescoberto nesses dias, provavelmente porque é mais confortável para longas conversas que o celular.

Uma pessoa de 20 anos jamais usa a palavra telefone para designar seu companheiro de todas as horas

Leio no jornal El País: “Em situações de crise e de insegurança máxima, os usuários preferem falar diretamente com as pessoas queridas que mandar um WhatsApp”. E segue a reportagem ouvindo o porta-voz (aliás, que bela palavra) de uma companhia telefônica: “Nestes momentos difíceis, todos queremos escutar a voz de nossos familiares e das pessoas importantes para nós, comprovar que estão realmente bem, sobretudo [a voz] dos mais velhos, que são os que continuam usando o telefone fixo”.

Aparece nesta fala outra explicação para o crescimento das chamadas por telefone fixo: é a forma possível de contato com idosos que não estão saindo de casa nem recebendo visitas. Algo que podemos copiar dos espanhóis.

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“O amor se torna maior e mais nobre na calamidade.” Para proteger este amor, a bandeira amarela foi içada ao mastro do navio Nova Fidelidade. Ela avisava o mundo que a bordo havia pessoas com cólera e que por isso a embarcação tinha de seguir em frente, sem parar nos portos nem ter contato com outros barcos. Era um aviso falso, não havia cólera, o que havia era um casal querendo viver seu amor longe dos ruídos do mundo. Fermina Daza e Florentino Ariza, o céu de dezembro, o vento do Caribe, a bandeira amarela protegendo a intimidade. É O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Márquez, outro companheiro para os dias que virão.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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