Bloquear TikTok será ruptura em discurso liberal americano
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São muitos e célebres os teóricos do liberalismo. Nos séculos 17 e 18, pensadores como John Lock e Adam Smith revolucionaram o capitalismo ao propor ideias como a liberdade dos indivíduos para conduzir suas vidas (em detrimento da “orientação do Estado”) e defender a livre iniciativa e a livre competição. Em uma Europa colonialista, defensora de monopólios comerciais e cujos Estados nacionais decidiam a religião e tipo de trabalho que cada cidadão teria, estas ideias foram como jogar luzes sobre uma noite escura.

No último século, em um mundo convulsionado por ideologias diversas, os Estados Unidos lideraram a defesa do discurso liberal, em oposição não só aos países comunistas, no período de guerra fria, mas também contestando nações ricas e protecionistas, como a França de Mitterand. Nos anos 1970, com Nixon na presidência, e nos anos 1990, com Clinton, os americanos fizeram todo o possível para trazer o gigante mercado chinês para a economia de mercado. O convite era claro: venha desfrutar das delícias do mundo que progride sob a égide do livre mercado.

A triste notícia é que o discurso liberal não valha agora, momento em que os Estados Unidos embicam para baixo sua economia e a China, uma vez seduzida a dançar no baile do livre comércio, desloca-se rumo ao posto de maior economia do mundo, posição que poderá atingir até o final desta década, de acordo com projeções do FMI e Banco Mundial. Não se trata aqui de barreiras alfandegárias, políticas anti-dumping (concorrência desleal) ou quaisquer outros itens que podem, com justeza, serem debatidos na Organização Mundial do Comércio, entidade à qual a China se filiou, em 2001, sob aplausos americanos. Tratamos aqui de banimento, proibição. Em português claro: eu não aceito mais competir com você.

Este tem sido o caso do aplicativo TikTok, fenômeno social que supera 800 milhões de usuários ativos pelo mundo. Seu engenhoso algoritmo, que usa AI (inteligência artificial, na sigla em inglês) para recomendar conteúdos baseado nos vídeos que você vê por mais tempo e seus recursos incrivelmente simples de edição de vídeos e uso de filtros são um case mundial de sucesso.

A influenciadora americana Charli D'Amelio tem 70 mi de fãs no TikTok.
A influenciadora americana Charli D'Amelio tem 70 mi de fãs no TikTok.| TikTok/Charli D'Amelio

Em 2017, a BiteDance, uma inovadora empresa chinesa avaliada em mais de US$ 100 bilhões e que já criou múltiplos apps de sucesso antes do TikTok, como o aplicativo de notícias customizadas por AI TouTiao, adquiriu a Musical.ly, adicionando uma feature matadora de músicas e trilhas à seu app. Trata-se de um caso genuíno de inovação chinesa. Várias inovações da ByteDance, aliás, têm sido despudoradamente copiadas por Facebook e Instagram.

O explosivo sucesso do TikTok levou a administração Trump a ameaçar o app de bloqueio no multibilionário mercado americano. A justificativa não poderia ser mais pueril: espionagem. Na China, uma lei de segurança digital, de fato, obriga empresas de internet a seguir condutas restritas, o que pode envolver compartilhar dados de usuários, se houver suspeitas em torno de deles. Por precaução, a ByteDance separou a operação de seu app chinês, chamado lá de DouYin, da versão internacional, o TikTok. Os servidores que atendem americanos (e brasileiros, diga-se) ficam em Virgínia. Já os que servem japoneses, taiwaneses e outros países asiáticos, em Cingapura. Ou seja, não estão sob legislação chinesa. Mais do que isso, o CEO do TikTok é um americano, ex-executivo da Disney, que pode ser processado e responder por qualquer malfeito na jurisdição de seu país, os Estados Unidos.

Trump diz que pode bloquear o app até setembro, se este não for vendido a uma empresa americana. No mercado, os rumores mais fortes indicam que a Microsoft já teria feito proposta pelo app chinês.  Um eventual boqueio, em tese, poderia matar o fenômeno chinês entre os jovens americanos. Mas, por quanto tempo? Um app similar, chamado Kuaishou, também chinês, não para de crescer nos Estados Unidos. Vamos bloquear este também?

Certamente, há que se reconhecer os riscos de espionagem. Mas, por tal linha de raciocínio, não seria o caso de países do mundo todo bloquearem serviços do Facebook, Apple, Google e Microsoft, todos implicados em casos reais de espionagem, conforme revelou ao mundo Edward Snowden?

Caso semelhante é vivido pela Huawei, cujo pecado maior é produzir uma tecnologia 5G mais eficiente e econômica que seus competidores Ocidentais.  Neste episódio, porém, os americanos não querem apenas bani-la de seu país, mas interferir em nações terceiras, pressionando-os a não contratar a empresa chinesa, claro, com o desinteressado propósito de gentilmente direcioná-las a contratar empresas.... americanas.

O imbróglio tecnológico da Huawei e do Tik Tok são, a rigor, um exemplo de liberalismo que se exerce até a página 2. É uma teoria válida quando eu sou o mais competitivo e sem valor quando alguém é mais competente que eu.

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