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99
| Foto: Divulgação/99 App

Principal app de caronas pagas da China, a Didi Chuxing se tornou líder de mercado em 2016, quando adquiriu a operação chinesa do Uber em uma controversa operação. No Brasil ela é mais conhecida por ter adquirido a 99 em 2018. A operação brasileira vai de vento em popa, mas na China a fusão da Didi com o Uber não foi aprovada até hoje pela SAMR, sigla em inglês para Administração Estatal de Regulação de Mercado, que vem a ser o principal órgão regulador antitruste da China.

Na prática, há uma chance real de a operação ter que ser revertida por não ter sido cumprida as exigências de mercado, com consequências ainda não mapeadas para as operações internacionais da Didi. De qualquer forma, chama atenção a forte atuação das autoridades antitruste chinesas nas últimas semanas. Tudo começou em outubro, com as declarações de Jack Ma, o icônico multibilionário chinês que fundou o Alibaba e a Ant Financial (a fintech que tem valor de mercado superior ao de Itaú e Bradesco juntos), sobre reformas no sistema financeiro.

Durante uma reunião com autoridades públicas de alto escalão semanas antes do IPO da Ant Financial – que aconteceria em novembro –, Ma criou polêmica ao discursar duramente contra o sistema regulatório e pedir por reformas que estimulassem a inovação e redução da burocracia. Foi o bastante para irritar profundamente as autoridades e desencadear uma clara mudança de atitude em relação à Ant Financial e Alibaba, como também às demais big techs chinesas.

O que se viu em seguida foi uma enxurrada de fiscalizações e questionamentos das autoridades sobre a governança do império de Ma. O levantamento de exigências para a regularização foi intensa e provocou o adiamento da operação por tempo indefinido. Obediente, a Ant Financial já declarou que cumprirá todas as exigências públicas necessárias para dar mais transparência às operações.

Antes da fatídica reunião com o governo, a abertura de capital da Ant vinha sendo especulada como a maior da história. Havia a expectativa do mercado de que Ma e os investidores embolsariam US$ 37 bilhões na operação.

O estrago, no entanto, já estava feito. As declarações de Ma por reformas no sistema financeiro em prol de mais autonomia e inovação das empresas desencadearam uma ampla e rígida fiscalização das autoridades sobre o Alibaba e outras big techs chinesas.

Na segunda quinzena de dezembro, a SAMR multou o Alibaba, empresas afiliadas da Tencent (controladora do principal app de mensagens da China, o WeChat) e a gigante de logística SF Express por práticas anticoncorrenciais.

Esses foram apenas alguns exemplos da mudança de atitude de Pequim em relação aos seus gigantes da tecnologia e vêm na sequência da onda antitruste global que os reguladores dos Estados Unidos e União Europeia iniciaram meses antes, com o objetivo de avaliar a atuação de outros titãs, como Google e Facebook, nos respectivos mercados.

Juntando esse fundo de cena com a intensidade com que o governo reagiu ao discurso liberalizante de Ma, não se pode dizer que a guinada é surpreendente. O governo já vinha monitorando a atuação das empresas e alertando em relação a práticas de concentração de mercado e participação nos meios de pagamento, como é o caso da Ant Financial (que administra os serviços financeiros do Alibaba) e a Tencent.

É bem provável que o caso Ma tenha sido usado como justificativa perfeita para intervir nas empresas de tecnologia e desestimular práticas de concentração de mercado, a exemplo do que está sendo feito no Ocidente.

Para analistas de mercado, as perspectivas de regulação antitruste serão moderadas. Liu Zejing, da corretora Huaxi Securities, escreveu um relatório afirmando que o governo não tem como objetivo reprimir a indústria da internet, mas fazer o "movimento inevitável" de conter um potencial comportamento monopolista.

Jin Xiangyi, da Huachuang Securities, disse que os gigantes da tecnologia vão se submeter à lei antitruste da China, o que é um evento benéfico e direcionar o retorno delas à inovação tecnológica. No entanto, alguns excessos, como a polêmica operação de fusão entre a Didi Chuxing o Uber, que ainda está sob avaliação da SAMR.

Desde o episódio com as autoridades chinesas, Jack Ma vem cultivando o silêncio, qualidade enaltecida pelo filósofo Confúcio em de seus provérbios e que, aparentemente, não foi seguida pelo empresário. O conterrâneo de Ma ensina que “o silêncio é um amigo que nunca trai”. Quanto a Ma, sua imagem de invencibilidade foi arranhada no mercado e ele já foi comunicado pelas autoridades de que a supervisão financeira de seus negócios vai aumentar. E que deve considerar aumentar a governança corporativa de suas empresas. Além do ditado de Confúcio, fica para ele também uma valiosa recomendação contida em um provérbio bem brasileiro: “não se cutuca uma onça (ou dragão) com vara curta

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