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Impacto trazido pelo comércio da China com a Tanzânia carrega uma simbologia importante e terá consequências não muito boas para o Brasil no longo prazo.
Impacto trazido pelo comércio da China com a Tanzânia carrega uma simbologia importante e terá consequências não muito boas para o Brasil no longo prazo.| Foto: Curtis Thornton/ Unsplash

Agora no final de outubro, a China formalizou um acordo de compra de soja da Tanzânia, país africano de 52 milhões de habitantes que tem na agricultura sua principal atividade econômica. E o que representa a concorrência da Tanzânia para o agronegócio brasileiro? Em termos numéricos, praticamente nada.

Enquanto a produção total de soja da Tanzânia é de 6 milhões de toneladas por ano, só o agronegócio brasileiro deve produzir 130 milhões de toneladas na safra deste ano, segundo o IBGE. Pelo menos 70% dessa produção é comprada pela China, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). E mesmo com o tratamento inamistoso dado pelo governo brasileiro à China nos últimos meses, as compras vêm aumentando.

Mas o impacto trazido pelo comércio da China com a Tanzânia carrega uma simbologia importante e terá consequências não muito boas para o Brasil no longo prazo. Significa que a China está diversificando seus parceiros agrícolas para diminuir a dependência dos principais fornecedores — Brasil e EUA — e estender sua influência geopolítica.

Na África, a Tanzânia era o último país que não tinha tratado de comércio agrícola com a China. O acordo é a materialização de uma promessa de Pequim feita dois anos atrás no Fórum de Cooperação China-África. Além da compra de commodities minerais importantes, os chineses se comprometeram a comprar outros bens das nações africanas, caso da soja e outros grãos.

“Tanto a China quanto a África podem se beneficiar de laços comerciais mais fortes”, declarou Wu Peng, diretor de Assuntos Africanos do Ministério das Relações Exteriores da China. Em contrapartida, a China vende maquinário, eletrônicos e outros bens acabados de maior valor agregado para a África, deixando a balança comercial ainda mais favorável para eles.

Quando a China anuncia novos parceiros agrícolas, não está querendo apenas segurança alimentar. Em agosto, uma “aliança da indústria da soja” foi proposta à Rússia para estreitar relações econômicas. É importante lembrar que, apesar de um passado próximo – e bem curto – nos tempos do comunismo, os dois gigantes nunca foram exatamente vizinhos cordiais. China e Rússia se estranharam muito ao longo dos séculos e até hoje disputam discutem territórios fronteiriços e influência geopolítica.

Pela proposta, a China se compromete a aumentar as compras de soja da Rússia para quase 4 milhões de toneladas nos próximos anos. Um volume que, para as necessidades chinesas, é pouco. A China consome cerca de 110 milhões de toneladas de soja por ano — para alimentação de pessoas e animais e produção de óleo comestível. Ela produz cerca de 16 milhões de toneladas e importa de 80 milhões a 90 milhões de toneladas do Brasil e EUA. Também compra de outros produtores, como a Argentina e o Paraguai.

Para Chen Bo, professor da Universidade Huazhong de Ciência e Tecnologia, em Wuhan, isso é um gesto de boa vontade e cooperação com a Rússia em um momento em que as turbulências entre Pequim e Washington parecem longe de acabar. “China e Rússia encontraram nova cooperação estratégica em meio à situação atual. Eles estão enviando um sinal claro de que as relações não serão influenciadas pelos EUA”, disse.

Correndo o risco de ser repetitivo, a diversificação geopolítica e comercial que a China está fazendo é o que o Brasil deveria fazer. Uma relação comercial pragmática, na qual prevalece o interesse de longo prazo. Enquanto a China planeja seu futuro pelas próximas décadas, o Brasil não consegue criar políticas públicas de comércio nem de quatro em quatro anos. Essa falta de coordenação explica por que a China, que tinha uma PIB inferior ao brasileiro no fim da década de 1970, hoje tem um PIB cinco vezes maior.

Ao pensar com pragmatismo, o Brasil pode encontrar soluções. É o que a China faz. Assim que as tensões comerciais com os EUA diminuírem, os chineses voltarão a direcionar suas compras de grãos para esse mercado.

Em um cenário cada vez mais plausível onde a China vai reduzir o ritmo de compra da soja brasileira, nosso país precisa se preparar e buscar mais acordos comerciais com o mundo para escoar os excedentes.

Ou, quem sabe, usar a soja para alimentar o rebanho brasileiro de carnes para exportação, outro item representativo da nossa pauta e que tem de quatro a dez vezes mais valor por tonelada do que a soja.

O que é perigoso é priorizar parceiros comerciais usando critérios políticos. Se o Brasil tiver que escolher um lado, que seja o seu próprio. Porque é importante lembrar que governos passam, mas as relações comerciais com as outras nações continuam e existe diferença entre o que é planejamento de Estado e o de governo. Construir pontes de comércio com o mundo é o caminho mais rápido para gerar progresso e riqueza.

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