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Paulo Cruz

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A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

É urgente ter paciência

  • PorPaulo Cruz
  • 12/07/2018 16:23
Cena do "Fausto", de F. W. Murnau (1926). Reprodução.
Cena do "Fausto", de F. W. Murnau (1926). Reprodução.| Foto:

“Não ganhamos as batalhas políticas, não apresentamos nossos principais argumentos, não paramos o avanço de nossos adversários, não marchamos vitoriosamente com o mundo moderno; mas mani festamo-nos silenciosamente no espírito da nação, preparamos o curso dos sentimentos que enfraquecerão a posição dos adversários quando parecerem vitoriosos, prosseguimos as comunicações com o futuro”. (Matthew Arnold)

Todos conhecem a história de Fausto, não é mesmo? A lenda surgiu na Alemanha no século XVI e, dizem as fontes, é baseada em fatos reais. Johannes Georg Faust, um homem de reputação duvidosa, autodenominado médico, ao ser seduzido pelas ciências ocultas e pelo desejo de poder, evoca o demônio Mefistófeles para que este lhe satisfaça as aspirações imediatas. Para isso, aceita fazer um pacto entregando ao demônio sua alma, mediante um contrato assinado com o próprio sangue.

A história tem variações. As primeiras menções datam do início do século XVI, e o primeiro registro literário conhecido foi uma versão popular publicada em 1587. O poeta e dramaturgo inglês Christopher Marlowe, contemporâneo de Shakespeare e precursor do estilo – em versos brancos – que o autor de Hamlet notabilizaria, publicou sua versão, A história trágica do doutor Fausto, entre 1588 e 1592. No entanto, a mais célebre de todas as versões seria escrita pelo gigante Johann Wolfgang von Goethe, publicada em 1806 (a primeira parte).

Depois vieram as adaptações cinematográficas. Em 1926, o cineasta alemão Friedrich Wilhelm Murnau lança a primeira versão para o cinema mudo, uma obra-prima do expressionismo alemão, baseada na versão de Goethe. E a última foi realizada pelo russo Alexandr Sokurov, em 2011 – espetacularmente bela e sombria… e repugnante.

Apesar das variações, todas têm o mesmo pano de fundo: a tentação pelo poder. Fausto deseja satisfazer-se de tudo o que esta vida pode lhe proporcionar: descobrir os segredos das ciências, a cura para as doenças, o prazer intenso e fugaz etc..

Nas palavras de Eric Voegelin, deseja a imanentização do eschaton: uma corrupção da esperança cristã que busca a realização intramundana daquilo que só a vida eterna pode oferecer.

Entediado das incertezas, da transitoriedade da vida, das dúvidas acerca da ordem transcendente, Fausto renega aquilo que há de mais fundamental no cristianismo que professara até então:

Maldita a fé e maldita a esperança!

E maldita mil vezes a paciência!

e aceita o pacto com Mefistófeles, renegando a eternidade com Deus:

O mundo de lá pouco me importa a mim;

Se a este primeiro tu puseres fim,

Talvez outro depois venha a surgir.

É desta Terra que vêm meus prazeres,

Este Sol ilumina as minhas dores;

Se um dia deles separado me vires,

Então que seja o que tem de ser.

O filme de Murnau inclui um componente altruísta interessante: Mefistófeles espalha a peste pela cidade e Fausto, desesperado, aceita o pacto em troca do poder de aplacar a morte que recai sobre seus concidadãos.

O fato é que a tentação pelo poder é um arquétipo antiquíssimo! Na tradição ocidental, remete a Adão e Eva e o fruto proibido; a troca da comunhão com Deus pelo conhecimento imediato (não mediado por Deus). E, desde então, a todo tempo, somos tentados pela ilusão de que somos capazes de suplantar as imperfeições inerentes a essa vida e, em geral, de modo inconsequente, depositarmos nossa esperança numa ideia, num grupo ou até mesmo numa pessoa. Em todo momento nosso senso de prudência é testado pela urgência de nossas aspirações imediatas. Se o mundo jaz no maligno, como diz a Bíblia – ou mesmo é uma cópia imperfeita de um mundo transcendente, como diz Platão –, então nosso desejo de que as coisas melhorem deve, necessariamente, ser mediado pela consciência de que somos limitados por nossas imperfeições.

É por isso que as experiências passadas devem ser o guia prático de nossas decisões no presente. Avançar, recuar ou permanecer como estamos deve ser fruto da reflexão e da avaliação cuidadosas do passado. Tanto no âmbito pessoal quanto no coletivo, assentarmos nosso olhar sobre o ombro de gigantes, na expressão de Bernardo de Chartres, é fundamental para evitarmos erros e buscarmos acertos sem rupturas desnecessárias. O desejo fáustico de adequarmos a realidade aos nossos desejos, de imanentizarmos o eschaton, de buscarmos na Terra aquilo que só o céu pode nos dar, é ingratidão para com as gerações passadas e irresponsabilidade com as que virão.

Tal atitude tem nome: conservadorismo. Como diz Russell Kirk:

“Os conservadores acreditam no que se pode chamar de princípio da consagração pelo uso […] Conservadores afirmam ser improvável que nós, modernos, façamos qualquer descoberta nova e extraordinária em moral, política ou gosto. É arriscado ponderar cada fato ocorrido tendo por base o julgamento e a racionalidade privados […] Na política, faremos bem se permanecermos fieis a preceitos e precognições, e até inferências, já que o grande e misterioso grêmio da raça humana obtém, pelo uso consagrado, uma sabedoria muito maior do que qualquer mesquinho raciocínio privado de um ser humano individual”. (KIRK, Russsell. A política da prudência. É Realizações, p.106-107).

Mesmo numa cova cheia de leões, o profeta Daniel manteve a tranquilidade de quem sabia de onde vinha o socorro. E como diz o lema atribuído a Goethe: É urgente ter paciência.

***

Obs.: A tradução de Fausto utilizada é a de João Barrento, publicada pela Relógio D’Água.

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