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O que Mano Brown diz, o que ele quer dizer e o que querem que ele diga?
| Foto: Facebook/Página oficial

Deixou de entender o povão, já era. (Mano Brown)

Dias atrás, em 23 de outubro, completaram-se dois anos do discurso avassalador que Pedro Paulo Soares Pereira – conhecido por seu nome artístico, Mano Brown – fez no comício da esquerda festiva do PT, cinco dias antes da derrota de Fernando Haddad para Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Brown, à época, compreendia uma coisa que os “progressistas” não entenderam e ainda não entendem: as pessoas não são monstros por não pensarem como nós. Ele disse: “eu não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, pessoas que me respeitavam, me amavam, que me serviam um café de manhã, que lavavam meu carro, que atendiam meu filho no hospital, se transformaram em monstros; eu não posso acreditar nisso”.

Essa constatação de Brown parece ainda calar fundo em sua alma, pois assisti à entrevista recentíssima que ele deu ao professor Sílvio Almeida em seu recém-criado canal no YouTube, e ele repete, lamentando, o mesmo raciocínio: “tinha cara que convivia com a gente, mas na última eleição tava com a mentalidade tão diferente da nossa que eu falei: ‘onde foi que a gente se desconectou?’”. E, ao ser perguntado pelo porquê disso, respondeu: “tudo tem um pior lado (...) a esquerda também tem um lado ruim, muito ruim; não é perfeita. E foi em cima desse lado muito ruim que o outro lado se apoderou e levou na quinta potência” (sic). E asseverou: “você só sai da esquerda e vai para a extrema-direita porque a esquerda errou”.

Mas é preciso contemporizar essa resposta com outra, que ele deu ao médico Dráuzio Varella, em entrevista igualmente recente, sobre sua opinião a respeito da política no Brasil: “eu acho que o Brasil é corrupto o suficiente para não abraçar ideologia nenhuma, de ninguém. O Brasil é o Brasil e não vai abraçar ideologia nenhuma: nem de extrema-direita, nem de extrema-esquerda, nem nazista... não vai! (...) Eu não vejo o povo engajado nessas filosofias, o povão mesmo não se engaja nessas filosofias de extrema nenhuma”.

As palavras de Brown parecem contradizer as expectativas do que se espera dele – e, talvez, até o que ele mesmo, conscientemente, pensa

Ou seja, o povo não pende para a direita ou esquerda politicamente porque essa ou aquela visão de mundo erra; o povo não pensa ideologicamente, pensa com a necessidade. O povo pende para quem lhe oferece aquilo de que ele mais precisa naquele momento específico das eleições – e essa é, provavelmente, a maior armadilha de todas, é o que aprisiona a periferia no populismo barato. Aliás, o mesmo populismo que também seduziu Brown, que, curiosamente, parece dividir o Brasil em antes-de-Lula e depois-de-Lula – mesmo a realidade da periferia mostrando um cenário mais complexo, pois se a pobreza (ou desigualdade) diminuiu, a violência aumentou. Ou seja, ele é vítima de seu próprio diagnóstico e de uma ilusão de justiça social que vitimou mais de 350 mil jovens (a maioria negros) em 11 anos.

Mas, voltando à entrevista para Sílvio Almeida, é muito curioso perceber como as palavras de Brown parecem contradizer as expectativas do que se espera dele – e, talvez, até o que ele mesmo, conscientemente, pensa. Logo no início da entrevista, Almeida faz uma afirmação da qual compartilho: de que o Racionais moldou a juventude de seu tempo – trato disso num artigo aqui mesmo, nesta Gazeta do Povo. Eu também tomei muitas de minhas decisões ouvindo Racionais e sendo advertido pela contundência de suas músicas.

Mas a resposta de Brown é ainda mais surpreendente e remonta, psicologicamente, às ideias de Viktor Frankl e da logoterapia: “o ser humano é ligado..., a chave dele é quando ele tem algum motivo para; ou [seja], quando você não visualiza o motivo, ali você não tem como virar a chave e não tem como sair em direção daquilo que faz bem pra você. Isso serve pra mim, serve pra você, serve pra todos”. E completa dizendo qual foi o seu motivo: “houve um tempo em que eu nem sonhava, era o caos; precisou ter um motivo; e qual foi esse motivo: um concurso de rap”. Frankl, em O sofrimento de uma vida sem sentido, confirma Brown: “aquilo que o homem realmente quer é, afinal de contas, não a felicidade em si, mas um motivo para ser feliz”. Ou seja, a felicidade não é uma realização exterior, como a maioria – se não todas – das teorias “progressistas” prega, mas, antes de tudo, um sentido. Se Brown quis dizer isso eu não sei, mas foi exatamente o que ele disse.

Em seguida, Almeida diz: “Então o rap te deu corda e caçamba, te deu régua e compasso”. E a resposta complementar – pelo menos para quem não se furta de raciocinar – foi emblemática: “régua e compasso ao longo do tempo. E a caçamba também foi ao longo de longas batalhas. Tinha que lutar para ter acesso à corda e à caçamba, muita gente queria também... não tinha pra todo mundo”. Pois é, lei da escassez pura e simples, do temido liberalismo. Como diz Thomas Sowell – o maior de nosso tempo, em Economia Básica: “[Escassez] significa que a somatória daquilo que todo mundo quer supera o que realmente está disponível”. De novo, uma subversão involuntária do pensamento progressista.

Almeida, então, levanta uma questão importante, sobre o papel orientador da política em nossa vida, dizendo: “Quando você começa a estudar, por exemplo, como é que se formam os movimentos de juventude. Aí você pega no final de Segunda Guerra Mundial, o rock and roll foi muito importante para moldar o jovem branco... e tem gente que diz o seguinte: o rock inventou o jovem branco. Pra nós, pretos, o rap inventou a nossa juventude. Porque, até então, como era a nossa vida? Você era uma criança preparada pra depois trabalhar, pra ser explorado no mercado de trabalho. O rap nos deu esse espaço do sonho mesmo, né?; da gente poder armar estratégias da nossa vida, poder organizar as nossas estratégias, acho que é um pouco disso que você tá falando aí, né?” E Brown, de novo, parece frustrar a expectativa de Almeida:

A estratégia foi sendo adquirida ao longo das derrotas, não tinha glamour. A gente foi lapidado no machado; uma coisa que eu e o Blue costuma (sic) falar: lapidado a machado. Quando errava, errava feio. As maiores possibilidades eram de errar; acertar já era uma coisa de uma dedicação de mais do que 100, sei lá, de 150% para poder dar o chute inicial, que é o primeiro acerto; o primeiro acerto é o mais difícil; é pular o muro, entendeu?, o muro da capacidade, de falar: eu sou capaz de...! A partir do momento que eu fiz a primeira ação que deu certo, eu passo a acreditar na segunda. O primeiro muro é o mais difícil, porque o primeiro muro às vezes é de frente pro espelho. Sozinho, na solidão do caos, do seu caos particular, da sua cabeça confusa. Ali, a primeira coisa é você se encontrar... falar: “pô, eu nem me conheço direito. Como é que vai ser? Eu não sei do que sou capaz; eu sei que eu não tenho nada”.

A felicidade não é uma realização exterior, como a maioria – se não todas – das teorias “progressistas” prega, mas, antes de tudo, um sentido

Brown pode negar o que vou dizer agora, mas suas palavras não negam: esse é a mais pura expressão do mérito! Não direi meritocracia, pois o termo foi criado justamente para demonizar o mérito, que pode ser tanto uma virtude de saída quanto de chegada na realização de algo. Pode ser a capacidade que indivíduos têm de superar as adversidades a fim de atingir seus objetivos, como o resultado desse esforço. Não tem a ver com uma mera ideologia da competição a separar quem tem de quem não tem condições no início de um empreendimento. O mérito é, muitas vezes, uma vocação, um bem interior que não necessita de condições exteriores. Necessita somente “pular o muro de frente pro espelho”.

A afirmação de que Sobrevivendo no Inferno não é, para Brown, o melhor álbum do Racionais, parece que também frustrou as expectativas de Almeida, mas vai ao encontro do que eu disse num artigo recente. Qualquer um que tenha ouvido Racionais desde o início não despreza o poder inovador (e avassalador) de Holocausto Urbano, nem a contundência de Escolha o seu Caminho e Raio X Brasil. Mas o último grande álbum do grupo, Nada como um dia após o outro dia, talvez seja o preferido da maioria dos fãs. Foi a Academia que elegeu Sobrevivendo no Inferno, não a periferia. Dráuzio Varella também exibiu com orgulho o seu CD na entrevista com Brown, e quis analisar algumas letras – como Tô ouvindo alguém me chamar –, recebendo respostas evasivas de Brown, exceto a de que o rap, de fato, incentivava a violência.

Por fim, a troca de ideias entre os dois sobre a teoria do racismo estrutural é curiosa e mostra um alinhamento de que, até então, em termos conceituais, a entrevista parecia carecer. Almeida diz que o autoritarismo, a pobreza e o racismo são três elementos principais da sociedade brasileira que confirmam a existência do racismo estrutural. Brown dá o exemplo de um segurança de banco negro cuja “lealdade máxima” é exigida pelo gerente branco, e que o coloca numa suposta posição de opressão em relação a um negro que queira entrar na agência. E completa dizendo que essa apreensão contra um “irmão que está vindo em sua direção” acomete a todos, pretos e brancos. Almeida complementa: “o racismo só funciona porque também atravessa os pretos, senão não funcionava”.

A isso tenho chamado de cultura de subalternização do negro, pois, por exemplo, num conjunto que forma o estereótipo de um suspeito, a cor entra como um elemento de subalternização e marginalização (de quem vive à margem) – mas não, propriamente, de racismo, pois esse é só um reflexo de nossa triste realidade. Se esse irmão que está vindo em minha direção estiver de terno de corte slim e gravata, minha reação será uma; se estiver de moletom, boné e chinelo de dedo, será outra. A cor potencializa a suspeição, mas não a define, pois um jovem branco de moletom, boné e chinelo de dedo é mais suspeito que um negro adulto de terno e gravata. Tudo isso é discutível; o problema é que, por ora, se recusam a discutir. Mas tudo bem. E a dificuldade que Brown aponta, de um negro não conseguir a profissão que deseja, se dá mais por questões socioeconômicas do que pela cor – em tese, pobre algum, em país algum, consegue trabalhar na profissão que quer.

A mim parece, a cada entrevista, que Mano Brown é um personagem cada vez mais longe de onde querem colocá-lo. E até penso que ele está, com a chegada dos 50 anos, amadurecendo. Só precisa alinhar o que pensa com o que fala – ou: a boca fala do que o coração está cheio. Mas isso, com um pouco de estudo sério, se resolve. Vida longa ao mestre.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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