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Jim Corw
Jim Crow, estereótipo criado nos EUA para retratar o negro como inferior| Foto:

Dificilmente induziremos os negros a acreditar que, se seus estômagos estiverem cheios, pouca importância terão os seus cérebros. (W.E.B. Du Bois)

Na última sexta-feira (05/06/2020) estive no célebre Flow Podcast, programa conduzido pelos youtubers Igor 3K e Monark, dois monstros sagrados entre os jovens gamers, que conduzem de maneira competente e divertida esse que é um dos melhores podcasts no mercado. Gostei demais de participar e poder contribuir com o debate sobre o racismo no Brasil – ainda mais atingindo um público mais amplo.

No programa, em determinado momento citei a música Negro Limitado, do álbum Escolha o seu caminho (1992), do Racionais MC's, que fez parte de minha juventude e, de certo modo, ajudou a moldar meu caráter de jovem negro da periferia. A música é uma bordoada de moralidade – que causa náuseas em progressistas e, atualmente, até nos próprios membros do grupo –, e apresenta o confronto entre um negro consciente e um negro limitado, caracterizando este último como alguém que não está preocupado com sua condição nem com os estereótipos que maculam os negros da periferia, mas somente em “tirar um barato, morô?”. Ou seja, alguém que qualquer jovem da periferia é capaz de reconhecer, pois, infelizmente, são mais comuns do que se imagina. O início da letra, cantado por Edi Rock, é uma chamada de atenção; e é bom frisar que o consciente não se coloca no lugar de alguém que quer ser melhor, mas que é capaz de discernir os prejuízos de uma postura acomodada numa conjuntura que, digamos, joga contra eles:

Você não me escuta ou não entende o que eu falo / Procuro te dar um toque e sou chamado de preto otário / Atrasado, revoltado / Pode crê / Estamos jogando com um baralho marcado / Não quero ser o mais certo / E sim o mano esperto / Não sei se você me entende / Mas eu distingo o errado do certo

É curioso notar isso, pois, no ensaio que abre o livro Sobrevivendo no Inferno, que contém as letras do álbum homônimo e um ensaio introdutório escrito por Acauam Silvério de Oliveira, professor de Literatura Brasileira na Universidade de Pernambuco, essa música, assim como outras dessa, digamos, primeira fase do Racionais, é tratada como portadora de um discurso em “tom professoral” e autoritário. Mas Oliveira vai além, diz que essa fase é marcada por certa imaturidade do grupo:

Podemos afirmar que em seus trabalhos iniciais – Holocausto urbano e Escolha seu caminho — os Racionais ainda não haviam encontrado a linguagem mais adequada à sua proposta. Apesar de diversos elementos do rap já estarem presentes, como a denúncia e a crítica social, ainda não é possível dizer que existe ali uma linguagem em que a comunidade periférica se encontra efetivamente representada. Isso porque em várias dessas canções iniciais o rapper assume uma postura autoritária que apresenta pelo menos dois elementos principais. Por um lado, ele se coloca como superior em relação a quem está do lado de fora da comunidade, por ser alguém que vive a realidade periférica e que por isso pode falar com mais propriedade sobre o que se passa ali […] Por outro lado, ele também assume um tom de autoridade em relação à própria periferia, acusando os moradores de serem alienados e limitados.

O que Oliveira não compreende – talvez porque, à época do lançamento de Escolha o seu caminho, não tinha idade para avaliar o seu impacto – é que essa música falava fundo ao coração da imensa maioria dos jovens negros que a ouviam na década de 1990. Não só pelo sample da poderosa Walk on by, de Isaac Hayes, mas pela letra sem meias-palavras. Falo não só por experiência própria, mas pelo sentimento compartilhado com muitos outros negros que, por exemplo, nos bailes da Chic Show – lendária equipe de bailes black na capital de SP – se uniam em coro cantando Negro Limitado. Não por serem alienados, mas por viverem essa realidade; o negro limitado é uma realidade da periferia, assim como em todos estratos sociais existem pessoas que desprezam não só o senso de ordem moral individual mas da própria comunidade. E a experiência também nos mostra que tais sujeitos são mais suscetíveis às aventuras que os levarão às drogas e ao crime. Quando o limitado da música pede ao seu interlocutor “mostre um caminho aí e tal”, Brown é certeiro:

Cultura, educação, livros, escola; / Crocodilagem demais, / Vagabundas e drogas. / A segunda opção é o caminho mais rápido / E fácil a morte percorre a mesma estrada, é inevitável. / Planejam nossa extinção / Esse é o título / Da nossa revolução, segundo versículo / Leia, se informe, se atualize, decore, / Antes que os racistas otários, fardados, de cérebro atrofiado / Os seu miolos estourem e estará tudo acabado. / Cuidado! / O Boletim de Ocorrência com seu nome em algum livro, / Em qualquer distrito, em qualquer arquivo; / Caso encerrado, nada mais que isso, / Um negro a menos contarão com satisfação / Porque é a nossa destruição que eles querem, / Física e mentalmente, o mais que puderem; / Você sabe do que estou falando: / Não são um dia nem dois, / São mais de quatrocentos anos. / Filho, é fácil qualquer um faz, / Mas cria-los, não, você não é capaz. / Ele nasce, cresce, e o que acontece? / Sem referência a seguir, sem ter a que ouvir, / Um mau aluno na escola certamente ele será, / Mais um menino confuso no quarto escuro da ignorância. / Se o futuro é das crianças / Talvez um dia de você ele se orgulhará. / Você tem duas saídas: / Ter consciência ou se afogar na sua própria indiferença. / Escolha o seu caminho: / Ser um verdadeiro preto, puro e informado / Ou ser apenas mais um negro limitado.

E o mais surpreendente é que, após esse discurso incisivo de Brown, o limitado tenta invocar um princípio coletivista, dizendo: “É, consciência, consciência, e os outros manos e tal?/ Então, você é consciente sozinho, mano?” A resposta de Edi Rock não deixa dúvida de que buscar a liberdade individual, impor-se diante das adversidades (e do racismo) será mais importante como referência aos que nos cercam do que abstrações como consciência social – ou de classe:

Faça por você mesmo e não por mim, / Mantenha distância de dinheiro fácil, / De bebidas demais, policiais e coisas assim, / Enfim, de modo eficaz. / Racionais declaram guerra / Contra aqueles que querem ver os pretos na merda; / E os manos que nos ouvem irão entender / Que a informação é uma grande arma / Mais poderosa que qualquer “PT” carregada; / Roupas caras, de etiqueta, não valem nada / Se comparadas a uma mente articulada, / Contra os racistas otários é química perfeita. / Inteligência, e um cruzado de direita / Será temido, e também respeitado / Um preto digno, e não um negro limitado.

O fato do professor Acauam de Oliveira considerar essa postura como característica de um grupo que não havia “encontrado a linguagem mais adequada à sua proposta” é, em minha modestíssima opinião, mais uma tentativa acadêmica de transformar o negro em tema, enquanto ignora sua vida. É disso que fala o eminente Alberto Guerreiro Ramos, um dos maiores intelectuais negros brasileiros, em Patologia social do branco brasileiro: “Há o tema do negro e há a vida do negro. Como tema, o negro tem sido, entre nós, objeto de escalpelação perpetrada por literatos e pelos chamados ‘antropólogos’ e ‘sociólogos’. Como vida ou realidade efetiva, o negro vem assumindo o seu destino, vem se fazendo a si próprio, segundo lhe têm permitido as condições particulares da sociedade brasileira”. O olhar distanciado do acadêmico, daquele que procura compreender a periferia de forma a encaixar nela seus próprios pressupostos, é o mesmo erro que o filósofo Eric Voegelin denuncia, em sua obra  Anamnese, nos intérpretes contemporâneos que tentam aplicar fundamentos da ciência política, que é uma ciência noética – ou seja, de caráter racional –, à realidades sociais complexas, sem levar em consideração aquilo que ele chama de autointerpretação de tais sociedades. O que ele quis dizer com isso? Que “quem quer que tente interpretar de uma maneira noética e crítica a ordem do homem, da sociedade e da história, verifica que, ao tempo desta tentativa, o campo já está ocupado por outras interpretações. Pois cada sociedade é constituída por uma autointerpretação de sua ordem”. Ou seja, cada grupo social abriga uma série de autointerpretações que fogem ao olhar acadêmico, fechado em conceitos (ou mesmo em preconceitos e ideologias); é preciso confrontar sua interpretação noética com a autointerpretação não-noética de tais grupos sociais; caso contrário, corre-se o risco de menosprezar os valores cultivados nesses grupos e imprimir neles conceitos que os descaracterizam. Se o Racionais não quer mais cantar músicas que, por exemplo, depreciem as mulheres, isso não significa que precisam renegar suas músicas de exortação.

Músicas como Negro Limitado, Voz Ativa, Pânico na Zona Sul e outras, principalmente dos três primeiros álbuns do Racionais, não se encontram isoladas da cultura hip hop mundial. Músicas como The Watcher, de Dr. Dre, Colors, de Ice T, ou mesmo álbuns inteiros como Apocalypse 91... The Enemy Strikes Black, do lendário grupo Public Enemy, tratam de problemas internos da periferia – drogas e violência – e fazem críticas a quem se comporta de maneira autodestrutiva. Um exemplo é a música Shut 'Em Down, do Public Enemy (que está no álbum citado), que termina de maneira tragicômica, com um interlúdio de um membro da Ku Klux Klan agradecendo a “todos vocês, gangues, bandidos, traficantes, usuários de drogas e outros negros inúteis que se matam; gostaríamos de agradecer por pouparem o nosso tempo”. Chuck D, líder da banda, disse numa entrevista para a revista Spin, em 1991: “Este disco é aquele no qual lidamos com os problemas que temos entre nós. Responsabilidade negra”. Não se trata de uma realidade livresca, mas de uma das preocupações mais fundamentais da periferia, na qual pessoas honestas e comuns têm de lidar com o ambiente violento e vulnerável enquanto trabalham, estudam e tentam criar os seus filhos longe das más influências.

Como digo num artigo anterior sobre o tema, “não se trata de gostar ou não de rap, da letra ou da música; se é poesia ou não, se tem qualidade literária ou não. A questão aqui é perceber a autointerpretação, o senso comum da periferia e sua capacidade de compreender qual era a sua responsabilidade e o que cabia ao Estado – ou até à elite […] Quando essa autointerpretação foi substituída, sumariamente, por teses que não nasceram na periferia, mas em gabinetes confortáveis de universidades europeias renomadas, por gente que só conhece a pobreza de ouvir falar […] a capacidade de compreensão da periferia foi destruída e substituída por ideologias” que, inclusive, nos transformam em negros limitados – principalmente pelo Estado assistencialista. Uma das principais características dessas ideologias – em geral, ao mesmo tempo, abstrata e paradoxalmente coletivistas e individualistas – é a substituição dos únicos fundamentos morais (dentre eles, a família e o espírito de associação comunitário) capazes de elevar uma sociedade em situação de marginalidade e fornecê-la as bases morais e culturais capazes de possibilitar uma ascensão material consistente. A responsabilização e o fortalecimento do indivíduo, bem como das comunidades e da família, são as únicas saídas. Portanto, não nos limitem; e como eu disse na entrevista ao Flow: Tire(m) a mão do meu (nosso) bolso!

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