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Cena do filme "Stalker" (1979).
Cena do filme "Stalker" (1979).| Foto:

“O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo (um vapor, uma gota d’água, é o bastante para matá-lo). Mas, quando o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, porque sabe que morre”. (Blaise Pascal)

No início de abril de 1978, enquanto filmava Stalker – seu último filme produzido na União Soviética –, o genial cineasta Andrei Tarkovski teve um infarto. Além disso, pela grande quantidade de percalços que estava enfrentando para produzir o filme, Tarkovski anotou em seu Diário: “Stalker está enfeitiçado”. Brigas com a equipe técnica, problemas no roteiro dos irmãos Strugatsky – cujo livro, Roadside Picnic, serviu de base – e, claro, falta de dinheiro foram alguns dos problemas enfrentados. No entanto, dias depois, ainda internado, estava listando os projetos pendentes e calculando as dificuldades para realizá-los. Tarkovski era um homem consciente de sua missão, e travou lutas homéricas por seus filmes até o dia de sua morte prematura, em 29 de dezembro de 1986, aos 54 anos, de câncer no pulmão.

De acordo com o próprio Tarkovski, em seu livro Esculpir o tempo (Martins Fontes), “o artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido”; o artista é aquele que vive e morre por sua arte, pois essa é sua vocação. Mas ele também reconhece que “o homem moderno, porém, não quer fazer nenhum sacrifício, muito embora a verdadeira afirmação do eu só possa se expressar no sacrifício”.

Tarkovski foi um apóstolo da arte e um sacerdote a serviço da Beleza; ver seus filmes é ser conduzido a um ambiente no qual a vida se expressa por meio das virtudes teologais – fé, esperança e amor.

Tal qual seu autor, o protagonista de Stalker é alguém cuja vocação é servir ao próximo. Ele é uma espécie de guia espiritual, que conduz as pessoas a uma região inóspita e proibida, chamada Zona, cuja queda de um meteorito – reza a lenda – tornou capaz de satisfazer os desejos mais profundos daqueles que sobrevivem à travessia, cheia de perigos e armadilhas, e alcançam a Sala onde os desejos são realizados. A região é cercada e guardada por um forte esquema de segurança. Somente um Stalker é capaz de romper esse bloqueio e, clandestinamente, conduzir as pessoas até o local misterioso; só ele conhece o caminho e sabe enfrentar seus perigos. No filme, um professor de Física e um escritor são os afortunados da vez; um por curiosidade profissional, e o outro para buscar inspiração, respectivamente. O Stalker é, como afirmou Tarkovski em seu Diário, “um escravo, um crente, um fiel da Zona”.

A Zona pode ser apenas uma lenda, uma ilusão criada pelo Stalker; no entanto, ele crê piamente nos poderes miraculosos do local, e encara sua missão – de conduzir até lá aqueles que, de certa forma, precisam reencontrar o sentido de suas vidas através da fé – como algo inescapável, que ele realiza em detrimento de sua própria família, que sempre acha que ele não voltará. A discussão com sua esposa, no início do filme, é marcante; sua filha doente parece resignar-se sem nada dizer. Mas o Stalker está disposto a arriscar sua vida para a realização de algo maior do que ele próprio, algo pelo qual foi chamado e do qual não pode, tal qual um Jonas bíblico, tentar fugir. Embora fraco e hesitante – por vezes até duvidando da eficácia de sua missão –, é forte e resiliente. “O Stalker parece ser fraco, mas, em essência, é ele quem é invencível devido à sua fé e ao seu desejo de servir aos outros […] Ele atravessa momentos de desespero quando sua fé é abalada; mas, a cada vez, ele retorna com um renovado sentido da sua vocação de servir às pessoas que perderam suas esperanças e ilusões”, diz o diretor em Esculpir o tempo.

Em entrevista ao poeta e roteirista Tonino Guerra, seu grande amigo, Tarkovski disse que seu herói “se entrega completamente a essa tarefa, com total falta de interesse próprio. Ele acredita que é a única maneira de fazer as pessoas felizes. No final, é a história do último dos idealistas. É a história de um homem que acredita na possibilidade da felicidade independentemente da vontade e da capacidade humanas. Sua ideia dá sentido à sua vida. Como sacerdote da Zona, o Stalker conduz os homens a fim de fazê-los felizes” (John Gianvito, Interviews). Tarkovski diz que o Stalker move-se no mesmo caminho de Dom Quixote de Cervantes] e do Príncipe Míchkin de Dostoiévski, como um idealista que, não obstante a coragem na força de sua missão, na vida real sofrem muitos reveses. Também diz que há muito de si próprio em seu herói trágico, de alguém que, contra todas as falsas expectativas do materialismo de nosso tempo, reafirma sua fé naquilo que é espiritual.

Tanto o Stalker quanto seu criador carregam em si, nas palavras de Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, aquela “firmeza da alma para suportar e afastar as mais terríveis dificuldades, especialmente perigos graves” (II, II, 123, 2). Tal é a característica principal da Fortaleza, cuja exposição ao perigo (e até à morte) visa a realização do bem (II, II, 125, 2). Tarkovski foi um exemplo irrefutável de fortaleza; alguém que, mesmo já acometido de um câncer terminal, passando por um tratamento terrível, escreveu em seu Diário no dia 14 de janeiro de 1986 – num exemplo desconcertante de esperança: “Passei uma noite extremamente horrível. De dia também: doem as costas. Tomei o remédio. Ficou mais difícil respirar. Tosse. Superficial e doentia. Esta guerra em que estou, preciso vencer. É preciso fazer vir Olga também, pelo menos por alguns anos, o tempo de fazer mais alguns filmes. Não tenho dúvida de que ganharei, Deus vai ajudar! […] Vou ganhar porque não tenho nada a perder, eu vou até o fim. E o mais importante é que Deus me ajuda. Santificado seja o seu nome!” (Diários, É Realizações, p. 610)

De acordo com o filósofo Josef Pieper “toda a fortaleza se relaciona com a morte; toda fortaleza tem diante de si a morte. No fundo, a fortaleza é uma disposição para morrer, ou melhor, uma disposição para cair, isto é: para morrer em combate” (Virtudes Fundamentais, Aster, p. 173). Porém, a aceitação do sofrimento não é um objetivo em si mesmo, mas “na medida em que, através dele, se propõe a conservar ou alcançar uma incolumidade essencial mais profunda” (Ibid, p. 176). Ou seja, como diz o Doutor Angélico, “a virtude da fortaleza faz com que a razão não se deixe absorver pela dor física. O prazer da virtude supera a tristeza da alma, porquanto o homem prefere o bem da virtude à vida corporal e a tudo ao que ela se refere” (II, II, 123, 8).

De certo modo, portanto, Tarkovski foi um mártir, pois, como diz Chesterton em Ortodoxia, “um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal”. Tão é verdade que uma das observações mais marcantes de seus Diários é que, poucos dias antes de sua morte, toda sua preocupação era com o futuro de sua esposa, Larissa, e de seu filho Andrei Jr. Ele anota, ainda, que produtores japoneses estavam dispostos a organizar uma fundação a fim de recolher doações para suas despesas, mas pediam explicações “por que o famoso diretor é tão pobre”.

Tal disposição para o sofrimento na realização do bem é uma das marcas de seu personagem místico, o Stalker, que, ao recusar-se a entrar na Sala dos Desejos e ser acusado de se aproveitar daqueles que conduz à Zona para humilhá-los mediante a sua influência, aos prantos responde: “Isso não é verdade. Você está errado. Um Stalker não pode entrar na Sala. Não podemos nem sequer pensar no interesse próprio! […] Sim, você está certo. Eu sou um velhaco. Eu não fiz nada de bom no mundo, nem posso fazer. Não pude dar nada nem mesmo à minha esposa. Nem mesmo amigos posso ter. Mas não me tire o que é meu! Me privaram de tudo lá fora, além do arame farpado. Tudo o que é meu está aqui. Você entende? Aqui! Na Zona! Minha felicidade, minha liberdade, minha dignidade. Está tudo aqui! Trago aqui pessoas como eu, desesperadas e atormentadas. As pessoas que não têm mais esperança. Ninguém mais pode ajudá-las, só eu! E eu posso ajudá-los… sou um velhaco. Sim, o velhaco pode! Eu fico tão feliz por poder ajudá-las que chego a chorar. E isso é tudo. Eu não quero nada mais”.

E ao retornar, trava este diálogo emocionante com sua esposa:

– Meu Deus, que gente…

– Acalme-se, não é culpa deles. Você deveria sentir pena, e não ficar zangado.

– Você não os viu? Têm os olhos vazios.

– A única coisa com que se preocupam é em não se vender muito barato! Em como conseguir o máximo possível de cada movimento emocional! Eles sabem que foram: “Nascidos com um propósito”! “Os escolhidos”! Porque afinal, “eles só vivem uma vez”. Pode alguém assim acreditar em alguma coisa?

– Chega. Acalme-se. Tente dormir, está bem? Durma.

– Ninguém mais acredita. Não somente esses dois. Ninguém! Quem levarei até lá? Oh, Deus… E o pior de tudo é que ninguém precisa. Ninguém precisa daquela Sala. E todo o meu esforço é em vão.

– Por que você diz isso? Esqueça isso.

– Nunca mais vou levar alguém lá.

– Você quer que eu vá com você?

– Aonde?

– Você acha que eu não tenho o que desejar?

– Não… Você não pode ir para lá.

– Por que não?

– Não, não. E se não funcionasse com você também?

– Você sabe, minha mãe era contra isso. Ela dizia: “Você provavelmente já notou que ele não é deste mundo. Todos os vizinhos riem dele. É tão desajustado, e parece um miserável. Ele é um Stalker, é condenado ao fracasso. Vai ser um eterno prisioneiro! Você não sabe que tipo de filhos os stalkers têm?” E eu… eu nem me atrevia a discutir com ela. Eu mesmo sabia que você era um amaldiçoado, que seria um eterno prisioneiro, e tudo sobre os filhos. Eu sabia. Só  que o que eu podia fazer? Eu tinha certeza de que seria feliz. Claro, eu sabia que teria muita tristeza, também. Mas é melhor ter uma felicidade amarga do que uma vida cinzenta e sombria. Quiçá só tenha inventado isso mais tarde. Mas no momento em que se aproximou de mim e disse: “Venha comigo”, eu fui. E nunca me arrependi. Nunca! Passamos por muita tristeza, muito medo e muita vergonha. Mas nunca me arrependi, ou tive inveja de ninguém. É simplesmente o nosso destino, nossa vida. Isso é o que nós somos. Mesmo que não tivéssemos tido infortúnios, não teríamos estado melhor. Teria sido pior. Porque neste caso, não teria havido felicidade. E não teria havido nenhuma esperança.

A profunda fortaleza manifesta nesse diálogo final reverbera a afirmação de Tomás de Aquino na Suma Teológica, que diz:

“Deve-se dizer que duas coisas devem ser consideradas no ato da fortaleza. A primeira é o bem ao qual o homem forte adere de maneira inabalável, e isto constitui propriamente o fim [a finalidade] da fortaleza. A segunda é a própria firmeza em si mesma, que impede de ceder aos adversários deste bem, e é exatamente nisto que consiste o bem da fortaleza. A força cívica robustece na alma do homem sua adesão à justiça humana cuja preservação o leva a suportar perigos mortais” (II, II, 124, 2).

Que sejamos, tal como Andrei Tarkovski e seu Stalker, imbuídos pela virtude da fortaleza, pois os dias são maus; e somente aqueles que têm uma fé inabalável no sentido de sua vocação poderão ajudar a reconstruir o nosso Brasil.

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PS: O filme Stalker foi disponibilizado gratuitamente, em alta definição, pela Mosfilm, em seu canal no YouTube. Corra lá para assistir!

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