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A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

O fim da infância

  • Paulo CruzPor Paulo Cruz
  • 13/10/2020 17:22
Cena do filme Minha vida de cachorro, de Lasse Hallström.
Cena do filme Minha vida de cachorro, de Lasse Hallström.| Foto: Divulgação

Jesus, todavia, disse: “Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, pois delas é o Reino dos Céus.” (Mateus 19,14)

As palavras acima, ditas por Jesus a seus discípulos, são eternas e não são retóricas. Em ocasião anterior ele já havia dito, ao ser perguntado sobre quem era “o maior do Reino dos Céus”, que “aquele, portanto, que se tornar pequenino [humilde] como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus” (18,4). A pequenez, a humildade, aqui, não tem o sentido de se fazer menor – pois esse é um atributo próprio dos adultos –, mas, como bem observa o teólogo Fritz Rienecker, de confiança e dependência; as crianças confiam naqueles que amam e deles dependem. Essa relação só começa a se desfazer na adolescência, para dar lugar ao amor deliberado e ao confronto com esse próprio amor, alimentado pelo desejo cada vez maior por liberdade e, também, por um certo grau de transgressão – em maior ou menor grau, a depender da educação recebida.

O educador Dom Lourenço de Almeida Prado chama esse “conflito de gerações” simplesmente de educação, a cooperação mútua entre o adulto que começa a desabrochar da adolescência e o adulto já pleno e experiente, dizendo que “o amadurecimento é, acima de tudo, um processo interior de conquista de liberdade”. E completa Dom Lourenço: “Prefiro não chamar de conflito. O conflito pode ocorrer como em qualquer forma de relações humanas, mas o que há de básico, quase direi de natural e biológico, é uma expressão normal da complementaridade social”.

É nos afetos que mora a tranquilidade da criança, é sentir-se amada e respeitada em seus limites

No entanto, por vezes a realidade da criança, ainda imatura, pode ser supreendida por algum infortúnio, e sua inocência ter de se transfigurar num amadurecimento precoce e cheio de contradições antecipadas. É nessa hora, conforme tratei no artigo da semana passada, que a imaginação transforma-se num recurso poderoso de assimilação da própria realidade conturbada. Mas é mesmo nos afetos que mora a tranquilidade da criança, é sentir-se amada e respeitada em seus limites. E é na complementaridade que reside a passagem da infância para a adolescência, e da adolescência para a vida adulta.

Escrevo no Dia das Crianças, por isso lembrei-me de um filme que sempre me vem à memória quando penso em crianças: Minha vida de cachorro, de 1985, escrito e dirigido por Lasse Hallström – do também espetacular Chegadas e Partidas. Trata-se de um dos filmes mais belos e sensíveis sobre a infância que já assisti. Não é um filme infantil, mas um filme sobre crianças e exatamente como destaquei acima: crianças entrando na adolescência, tendo de lidar com os conflitos físicos e psicológicos próprios da idade, somados ao sofrimento causado pelas circunstâncias.

O filme conta a história de Ingemar Johansson, um garoto – interpretado por Anton Glanzelius – cuja mãe, gravemente doente e acamada, precisa de repouso. O problema é que Ingemar e seu irmão (um pouco mais velho do que ele), no esforço por requerer a atenção e o afeto da mãe – o que é quase impossível, dada sua delicada condição –, não dão paz à jovem senhora e, por isso, são despachados para a casa de parentes por uns dias. O pai, que “anda lá pelo Equador, exportando bananas”, não pode ajudar. Ingemar, então, é enviado ao seu tio Gunnar, irmão de sua mãe, homem divertido e bastante afetuoso que mora num vilarejo semirrural no interior. E é lá que Ingemar terá experiências marcantes, que farão um contraste com a tristeza profunda – profunda e reprimida a ponto de causar-lhe reações físicas – pela vida de sua mãe. O ambiente da vila é curiosíssimo: há uma fábrica de vidros que emprega a maioria dos habitantes – inclusive as crianças; há artistas circenses, inventores, comerciantes, mecânicos, escultores etc. Mas, no fim, todos parecem viver uns para os outros, no bom e no mau sentido; o clima fraterno do lugar cativa Ingemar.

O garoto Glanzelius consegue um feito extraordinário em sua interpretação de Ingemar. Como diz o crítico Michael Atkinson, no site da Criterion Collection, o garoto “é um milagre comportamental: você vê suas boas intenções, negação, ideias bizarras, esforços obstinados para raciocinar a vida e impulsos em direção a uma vingança anárquica; tudo ricocheteando, uns nos outros, como bolas de pingue-pongue de loteria e, eventualmente, controlando suas ações”. Ingemar vai narrando, em off, infortúnios alheios – com uma certa predileção por Laika, a cadela soviética enviada ao espaço no foguete Sputnik 2, e que, à época, pensavam ter sido deixada em órbita até morrer de fome –, e os comparando com sua situação pessoal: “teria sido pior se...”. Gunnar, sua esposa e sua sogra fazem de tudo para que o garoto sinta-se em casa, enquanto o senhor Arvidsson, o sogro doente que fica deitado o tempo todo, sozinho, no porão, o entretém com um passatempo curioso: pede que ele leia anúncios de lingerie de um catálogo que mantém escondido debaixo do colchão. Todas essas coisas e pessoas pitorescas, sobretudo os amigos Saga (a menina que luta boxe e não quer que os seios cresçam para não ser expulsa do time de futebol), Manne (o menino de cabelo “verde”) e a “coroa” Berit (sua paixonite) distraem Ingemar de seu sofrimento.

Mas o que mais impressiona – e com isso voltamos ao tema central deste artigo – é que o sofrimento que confronta a infância de Ingemar, e a empurra, cada vez mais, para um amadurecimento precoce, é real. Ele não sofre por abstrações que lhe chegam pelas redes sociais (que nem existiam), e não pertence à geração assustada. É tudo concretamente real, e ele se vê obrigado a enfrentar; não é possível esconder ou resistir por muito tempo, tampouco jogar a culpa em terceiros. Sua mãe está doente de morte e parece lhe rejeitar; seu pai está longe; e, de repente, se viu afastado do irmão e de sua melhor amiga, com quem se “casou”, debaixo do trilho do trem, mediante um “pacto de sangue”. É lançado na incerteza de seu futuro, nas mãos de uma família que mal conhece, num lugar sem amigos. Sua confiança e dependência são fortemente abaladas.

O fim da infância tem sido abreviado por uma série de dispositivos culturais, familiares e ideológicos que fazem a criança – e o adolescente, que agora tarda a amadurecer – perder as referências que norteariam sua transição

No entanto, Ingemar ainda permanece humilde como uma criança, e rapidamente se adapta mediante o reconhecimento da humana, demasiada humana comunidade que o acolhe. São gente como ele, frágeis e falhos como ele, contraditórios e carentes como ele. Não há disfarces, não há avatares nem nicknames, há gente de carne e osso, que ama de verdade, se diverte de verdade e falha de verdade. Ainda há limites etários e normas sociais que mantêm as coisas mais ou menos em ordem.

Atualmente, o fim da infância tem sido abreviado por uma série de dispositivos culturais, familiares e ideológicos que fazem a criança – e o adolescente, que agora tarda a amadurecer – perder as referências que norteariam sua transição. Dom Lourenço de Almeida Prado, que comandou por mais de 45 anos o Colégio São Bento, no Rio, era um profundo conhecedor da juventude, bem como das “novidades” que a ameaçavam, e faz uma observação bastante pertinente:

O mundo moderno é perturbado pelo equívoco igualitarista. Presumindo ter atingido plena maturidade no conhecimento da natureza humana e a percepção mais exata de que os homens são iguais, extrapolam desta afirmação quando desconhecem o que querem desconhecer, que “os homens são também diferentes”. Iguais e diferentes, eis uma aparente contradição que é, na verdade, a expressão de harmonia fundamental, isto é, das raízes profundas da harmonia.

Esse desejo por igualdade absoluta é ampliado, dentre outras coisas, por uma novidade moderna: essa criança e esse jovem são “pobres testemunhas oculares da história”, que sofrem, como diz Dom Lourenço, de um “sufoco de informações, em detrimento da reflexão. Vê muito, tem pouco tempo para pensar”. E veja, caríssimo leitor, o nobre educador escreveu isso em 1985, mesmo ano de lançamento do filme Minha vida de cachorro, quando a internet era somente um sonho de filmes de ficção científica. Os efeitos do agravamento dessa situação, na era das redes sociais, já lotam os consultórios de psicologia, aumentaram vertiginosamente o consumo de calmantes (mais de 40% em cinco anos, de 2009 a 2013, totalizando 17 milhões de caixinhas de psicotrópicos vendidas) e o número de suicídios entre jovens. Quase não há mais vilarejos isolados, nem crianças inocentes. A “humildade” infantil foi substituída pela arrogância juvenil, que se inicia cada vez mais precocemente e transborda para a vida adulta, nos eternos moleques birrentos da geração assustada.

Caso não despertemos para essa triste realidade, e não tomemos providências a fim de reconstruirmos os laços que nos unem enquanto seres humanos, enquanto sociedade – mas, pelo contrário, insistirmos em reconfigurar nossa natureza para moldá-la de acordo com preceitos livrescos que não condizem com as evidências e com a experiência histórica –, corremos o sério risco de perpetuarmos a imaturidade que nos fará sucumbir, definitivamente, reféns de nós mesmos.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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Comentários [ 11 ]

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  • C

    Claudio jose de oliveira magalhaes

    ± 2 dias

    Paulo, a beleza e integridade dos seus textos são admiráveis. É o motivo pelo qual assino a Gazeta ! Obrigado !

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      João Paulo Brunelo Miguel

      ± 7 dias

      Muito pertinente a análise!

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      • E

        Eudo Souza

        ± 7 dias

        Muito bom o texto, inspira e incomoda na medida certa. Por mais mestres como o professor, preocupado com seu publico, não mais um robô que doutrina nossas crianças irresponsavelmente. Parabéns!

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        • D

          Diógenes Nogueira

          ± 7 dias

          É triste ,mas este texto me faz enxergar em meio a neblina . Excelente texto

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          • M

            Meg Litton

            ± 7 dias

            Estamos apenas colhendo os "frutos" do que plantamos... Infelizmente!!!

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            • L

              LSB

              ± 7 dias

              Excelente texto! Parabéns! Só não sei se já não é “tarde demais” para se fazer alguma coisa, pois a geração q “está mandando” ou a que logo irá mandar, já são crias da infância “abreviada”... seriam capazes de mudar isso??

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              • L

                luiz antonio kesselring

                ± 7 dias

                Esse comentário foi removido por não estar de acordo com os Termos de Uso.

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                • L

                  luiz antonio kesselring

                  ± 7 dias

                  Que tal a gente discutir a REALIDADE DA NOSSA INFÂNCIA? 46 abusos sexuais de menores "registrados" em 2019 POR DIA!!! No Rio de Janeiro brisolões projetados para oferecer abrigo em tempo integral com três refeições por dia para os menores funcionam meio período... O ESTATUTO DO MENOR é um primor de redação, um alienígena que o leia ficará deslumbrado...

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              • G

                Giba12

                ± 7 dias

                Perfeito.

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                • R

                  Robson Ribas

                  ± 7 dias

                  Professor, seus artigos são sempre precisos seus artigos! Trazem excelentes reflexões!

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                  • R

                    Robson Ribas

                    ± 7 dias

                    Seus artigos saiu repetido! Desculpe

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